A crença na palavra

2017

 

(Texto publicado no livro “Em que creio eu”, organizado por Faustino Teixeira e Carlos Rodrigues Brandão, Edições Terceira Via, Fonte Editorial/SP – 2017)

 

 

 

Acredito na palavra – força de vida que cura chagas, balbucio na beira do abismo.

 

Como Octávio Paz, tenho fé na palavra poética.

 

Considero a poesia salvação e abandono, ao mesmo tempo.

 

Lembro de quando percebi, em análise, os efeitos da palavra na minha vida, e ingressei no mundo luminoso do não-sentido. Justamente aí algo da fé se acendeu, como um efeito-clarão, uma iluminação, ao perceber que a linguagem é epifania e não somente algo que comunica.

 

A análise teve, em mim, a consequência de encontro com a mística. Descobri autores que me fizeram redescobrir a ambiguidade da solidão interminável – Lacan, Blanchot, Barthes –, companhia para uma travessia sem garantias.

 

Em Barthes me vi impelida a refundar um mundo, com a ideia de morte do autor. Lacan me arremessou ao inapreensível que a vida comporta. Com Blanchot adentrei na superfície profunda do branco.

 

Assim se redimensionou minha relação com a fé: a crença em algo que, passando por mim, também me ultrapassa. No bel prazer da palavra inconfessavelmente arremessada ao inacessível, numa espécie de espaço rarefeito em que se põe em xeque a soberania do sujeito, eu já não era, então, senhora da minha casa – como revelado por Freud.

 

Assim renasci na crença de que a palavra faz advir um mundo-casa a partir da profundidade e de um mergulho ético nas dobras da linguagem, e algo sem retorno se colocou.

 

Acreditar, então, já não era mais puramente crença, mas acontecimento desmedido que outorga a medida: a instalação de um mundo que abre uma clareira em que todo ente ganha sentido e contorno e, paradoxalmente, se torna um não-sentido incontornável.

 

Da palavra, que aqui não se separa da vida, adveio o lugar da ferida aberta no próprio corpo. Aprendi, então, a caminhar sobre uma fé perpetuamente instável, no limiar de onde se atritam o dia e a noite acesa.

 

Passei a acreditar na palavra, naquilo que ela comporta de borda, furo, hiância. Tal como Primo Levi – que descreveu o fundo a que se chegou nos campos de concentração – descobri que a língua comum não basta para dizer da experiência desmedida e, então, passei a crer também nos vazios, naquilo que só se acessa pelo meio-escrita que abriga o impossível, como em Marguerite Duras:

 

Não posso.

Ninguém pode.

É preciso dizer: não se pode.

E se escreve.

 

É o desconhecido que se porta em si: escrever, é isso que se alcança. Isso ou nada.

 

Pela fala insistente do desejo, descobri a fé na escrita que se tornou imantada pelo sagrado pensado por Jean-Luc Nancy, em Au fond des images. Para ele, o sagrado se opõe à religião, uma vez que esta assinala a ligação, enquanto aquele aponta a cisão. O sagrado é da ordem do distinto, da distinção e da distância; é como um traço, um corte a partir do qual as coisas se distinguem umas das outras.

 

A partir disso, uma relação com o impossível. E a ousadia de falar em fé, justamente da dimensão do impossível. E o que se coloca como impossível frente à linguagem, é o que lhe excede, o que nela não se registra, mas se apreende em seu silêncio, entre uma e outra palavra.

 

Quando um som ainda surdo quer se fazer palavra, há um único remédio: escrever. Exatamente aí se inscreve minha fé obstinada, minha crença no que é demasiado humano: fazer operar o impossível da língua em seu limite é uma emoção espiritual, algo que me refundou como sujeito.