A dimensão do corpo na obra de Ana Mendieta

Concinnitas – Revista do Instituto de Artes da UERJ - Universidade Estadual do Rio de Janeiro – julho - 2015

Estamos no território do feminino. Na contradição que se inaugura aí encontramos Ana Mendieta, artista que faz do uso de seu corpo na arte uma invenção singular que reinaugura a ideia de “corpo de mulher”.

 

Neste texto, pretendo levantar algumas reflexões sobre a figuração da mulher e aspectos do feminino na obra de Ana Mendieta pela via da política do desejo, em que ela inscreve no mundo sua pergunta particular sobre o feminino. Do corpo como objeto de regulações e campo em disputa, ela sustenta um destino que não é mais anatômico. E é aí que se encontra o ponto de ancoragem e de deriva da obra da artista.

 

No Seminário 20 (“Mais, ainda”), Lacan refere-se à mulher como o sujeito que traz a alteridade radical. Isto quer dizer que a mulher não pode ser reduzida ou encerrada em uma referência ao masculino, e nem ao falo. Algo escapa, criando outro continente desconhecido, do qual não podemos nos aproximar pelo referencial fálico.

 

A partir da referência lacaniana, minha hipótese é que a figuração do feminino não é o mesmo que a figuração da mulher.

 

“Vênus Negra” de Ana Mendieta, uma Vênus contemporânea, teria algo de novo a dizer a respeito da figuração do feminino? Nesta obra, o que aparece é um corpo agitado pelo real a escrever pelas bordas sua possibilidade de subjetivação, algo apresentado não só nos trabalhos da série “Silhuetas” - a que pertence “Vênus Negra” - mas também em performances em que se reviram as figuras masculina e feminina, como em “Facial Hair Transplant” de 1972, onde a artista trabalha a ideia de gênero como algo culturalmente construído, e também onde a identidade é entendida como performatividade. Nesta última obra, Mendieta retira a barba e o bigode de um amigo e reaplica os pelos em seu próprio rosto e, com o cabelo totalmente amarrado atrás da cabeça, se apresenta com uma aparência masculina ou híbrida.

 

Do sexo normalizado a partir de uma série de discursos que buscam adestrá-lo pelos dispositivos de saber/poder, passamos à psicanálise e à arte, como o território a partir do qual o corpo feminino será sabido e agido pela via do desejo, com todas suas consequências. Não se trata de um organismo, mas de um corpo pulsional.

 

Em “Vênus Negra” encontramos uma imagem fotográfica que compõe a série “Silhueta”, associada a um texto sobre a lenda cubana da Vênus Negra. Na fotografia, uma silhueta escura parece brotar da terra, chamuscada pelo efeito do fogo - depois de escavar a silhueta na terra. Ao lado da imagem, temos a história da Vênus Negra: a invenção a partir da relação de Mendieta com o enigma de seu próprio corpo é uma maneira de abordar significados contraditórios e deslizamentos relacionados ao feminino.

 

A “Vênus Negra” tem seus contornos imprecisos - desmanchados pelo mar, ou pelas águas de um rio, ou ainda pelo fogo. A silhueta feminina é trabalhada de diversas maneiras. Na obra, a imagem do corpo se faz pelo vazio, pela imagem que brota da terra após sua escavação e também pelas cinzas. A figura surge do borrado, do vazio.

 

Mendieta é uma artista que coloca em questão a lógica fálica através do próprio contorno de seu corpo de mulher, constantemente feito, desfeito e refeito. Em seus trabalhos, fazendo-se muitas de si, sustentando um feminino que é, ao mesmo tempo, aparição e desaparição, há a recolocação em cena de tudo aquilo do corporal que fora negado para que o mesmo se tornasse encaixável.

 

Outra questão que sua obra evoca é a da impossibilidade de se tocar a origem: a imagem da Vênus escavada aponta numa outra direção. Ela surge de uma tentativa de reencontrar a origem perdida, mas essa origem é impossível: não se pode mais reencontrar a Cuba de sua infância.

 

O nó do trabalho de Mendieta encontra-se na pergunta: o que é um corpo de mulher? Na multiplicação das silhuetas, fazendo-se muitas de si, desterritorializando-se, ela pode se fazer a partir de um novo lugar. Trata-se de uma forma de circunscrever um corpo para si, de reencontrar um lugar perdido e impossível de ser atingido, uma maneira de redesenhar o feminino.

 

Este é também um impasse frente ao qual a psicanálise não ficará imune. É Lacan quem se perguntará se a mediação fálica dará conta de todo o campo pulsional em uma mulher. Ele se indagará acerca de um gozo feminino, considerando que existe, para a mulher, uma divisão entre ser “toda fálica” e “não-toda fálica”.

 

A lógica da castração não rege todo o campo do gozo, resta uma parte que é fora do simbólico. A mulher, que não existe para Lacan, nada mais é do que um dos nomes desse gozo. Ainda em relação à imagem da Vênus Negra de Mendieta, não se trata propriamente de uma representação do corpo feminino, pois não há mimeses: trata-se de uma imagem borrada, esburacada. A artista nos apresenta uma Vênus não-fálica e a faz brotar da terra, dos borrões e dos vazios.

 

Na série inteira das “Silhuetas”, realizada entre 1973 a 1980, ela inscreve-se na terra ou marca uma silhueta difusa em fogo no ar. As inscrições e as marcas que realiza com seu corpo lembram desenhos e registros de culturas ancestrais latino-americanas a qual ela pertence. A artista atua marcando sua silhueta em diversos tipos de solos: lama, areia, terra batida, chão gramado, vegetação rasteira, solo rochoso e até mesmo água.

 

Do seu corpo de mulher, ela faz surgir um feminino que se faz presente pelos rastros e resíduos: vestígios efêmeros da silhueta de um corpo de mulher na paisagem.

 

Sua morte trágica em 1985 é um enigma, como o que ela sustentou em vida: ao cair do edifício em que morava, ela deixou sua última silhueta impressa na frente do prédio, evocando a primeira obra da série de silhuetas, feita no México, onde se deitou numa tumba asteca e se cobriu de flores e ervas daninhas, como se estivesse coberta pelo tempo e, ao mesmo tempo, por ele preservada.