A poética de Henrique Oliveira

Revista FG - junho - 2015

Henrique Oliveira é um artista com uma poética singular. Pintor por formação, explora construções tridimensionais na forma de instalações temporárias e esculturas. O movimento convulsivo e pulsional que marca seu trabalho está presente tanto nas tintas despejadas em doses generosas sobre a tela, quanto nas peças feitas por colagem de laminados de madeira que se sobrepõem como pinceladas. Em 2010 integrou a 29ª Bienal de São Paulo com uma escultura de dimensões arquitetônicas em cujo interior o público podia caminhar. Suas obras já percorreram o mundo e estão em coleções como a da Pinacoteca do Estado de São Paulo e a do Instituto Itaú Cultural.

 

No ano passado, Henrique ocupou quase dois mil metros quadrados do anexo do MAC USP com a instalação “Transarquitetônica". Através de uma experiência de imersão por um corredor, a parede vai sendo desnudada do branco homogêneo para mostrar sua estrutura, como um corpo que vai, lentamente, se dando a ver. No caminhar, é o corpo do indivíduo que segue também descascando, encontrando novas camadas no labirinto de lascas de tapume que conduzem pela fissura entre o corpo biológico e aquilo que a psicanálise nomeia corpo pulsional.

 

O ato de Henrique Oliveira evoca esse corpo dividido, ruptura da pureza, convulsão que leva a entender seu ato não puramente como uma ação, um movimento, mas uma inscrição contundente por meio da qual a pulsão encontra meios de se expressar à revelia do sujeito.

 

A pulsão, para a psicanálise, está na linguagem, seja num gesto ou numa fala, implicada absoluta e sorrateiramente, tanto no corpo quanto no psíquico. O conceito freudiano de pulsão - que Freud designa como um "conceito-limite entre o somático e o psíquico" - pode ser entendido como indicação de que a pulsão se encontra tanto no somático quanto no psíquico, e não fora deles, mas embrenhados como nas "pinturas" e "instalações" de Henrique, ou em suas "pinturas-instalações" a dissolver fronteiras. As exteriorizações da pulsão aparecem em diversos momentos, nessa "desnatureza" - título de uma de suas obras, que carrega em si a violência inerente à vida.

 

Somos tomados de assombro diante de suas obras monumentais, lembrados da dimensão da fragilidade que essa monumentalidade evoca, como já dizia o brilhante arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha: "Monumentais somos nós - não a arquitetura. Somos monumentais em nossa fragilidade humana. Somos um milagre."

 

A obra de Henrique flagra esse milagre, coloca acento em nossa aberração - dádiva e maldição. Somos seres apartados de um possível senso idílico de natureza e arremessados violentamente na linguagem. Seu gesto como artista é uma intervenção colossal, mas que fala do mínimo, de um ponto disruptivo onde se dá a deambulação humana. São obras de rara beleza plástica, mas que carregam em si uma complexidade desconcertante.

 

Beatriz Sarlo, escritora e crítica literária argentina, ao comentar a belíssima obra "Passagens" de Walter Benjamin, diz que “para Benjamin, construir uma ruína significa se antecipar à catástrofe, agenciar ou “montar” as idéias que estruturam a futura obra em sua nudez conceitual. Significa, em suma, descrevê-la em vez de expô-la."

 

É nesse ponto preciso que podemos situar a obra de Henrique: uma experiência no sentido mais benjaminiano, um acontecimento, uma estrada fantástica por dentro de uma árvore, com seus entroncamentos, como uma jornada andarilha pela natureza e pela convulsão dessa no encontro com a cultura.

 

Henrique descobriu no material emblemático do compensado a matéria-prima perfeita para seu discurso que une arquitetura, escultura e intervenção urbana. O uso do compensado é icônico na arquitetura popular, relacionado imediatamente às favelas, pois é um material mais barato e encontrado em descarte de obras. "Tapumes", obra feita para a VII Bienal do Mercosul, parece um estranho organismo vivo que cresceu e tomou uma casa, engolindo-a de dentro para fora, tensionando o espaço e deslocando o corpo do espectador em seus túneis com aspectos de artérias, de forma a criar a impressão de estarmos em um bicho pulsante feito de madeirite.

 

A partir da arquitetura do povo, criada aparentemente ao sabor da necessidade, o artista extrai um saber que brota no seu fazer, assim como brotam as favelas e as habitações populares. Assim, faz troncos absurdos romperem o chão e o teto, como uma invasão virulenta da natureza em fúria.

 

Das pinturas do início da carreira de Henrique, já marcadas por essa contundência e por esse aspecto caótico e estridente, até o encaminhamento que o artista deu, então, à sua prática pictórica como gesto que extravasa e como exacerbação matérica que parece querer se projetar para o espaço real, encontramos um caminho que traz, desde o início, a contradição daquilo que é ao mesmo tempo apresentação e representação.

 

Em “Tapume”, por exemplo, a textura característica do compensado passa a impor, por sua simples presença, uma forte concretude à obra. A materialidade bruta dos tapumes deixam para trás, então, o interesse pela representação.

 

Henrique agora agrega novas questões, adentrando no campo da escultura e da arquitetura, forçando os limites de cada uma dessas modalidades. Aí reside a grandeza de sua obra, ao embaralhar sentidos prontos, esgarçar leituras rápidas, reunindo elementos que, sem distanciá-lo irremediavelmente de certas questões pictóricas, acabam por conectar sua prática com outros elementos vindos da escultura e da arquitetura, a ponto de ser difícil discernir onde termina seu “universo escultórico” e começa o “arquitetônico”, abrindo um campo de amplas possibilidades. Em "Desnatureza", de 2011, executado em uma galeria parisiense, e “Baitogogo”, apresentado em 2013 em exposição individual no Palais de Tokyo, também em Paris, somos levados da “rusticidade agressiva” à "epiderme urbana". As instalações mais gritantes e rasgadas cedem lugar, aos poucos, a construções de formas mais modeladas, isso sem alterar o fato de que, como diz o artista, seu trabalho ser sempre "sobre criar tensão no espaço" e um meio-caminho "entre pintura, arquitetura e escultura". Ou seja: ele se relaciona com cada uma dessas artes e, em sua necessidade de "encontrar os limites do espaço", analisa o espaço e o povoa, desconstruindo-o de maneira passional. E com técnicas e materiais heterogêneos reconstrói esse espaço com uma carga de energia impressionante.

 

“Tapumes” propõe uma espécie de híbrido dessas duas modalidades - pintura e escultura - pensados para um lugar tão imantado pela arquitetura moderna. Henrique parece não estar interessado em rótulos: de Tapumes até a magistral Transarquitetônica, presenciamos a transformação da pintura/escultura de Henrique na arquitetura de um construtor que sabe serpentear as imensidões e retornar, sempre que necessário, ao aspecto que o conduziu pela arte: a coragem de sustentar um gesto que é sempre devir, a fineza de capturar a dimensão do resíduo em sua radicalidade - desde o pincel vigoroso na superfície pictórica até as tiras retiradas de tapumes de compensado de madeira, material encontrado nas ruas, descartes de construções, refugos da cidade que são, desta maneira, reaproveitados.

 

Em seu gesto precioso de descascar tapumes e utilizar as lascas como se fossem pinceladas sobre uma estrutura arquitetônica, encontramos um poeta que, ainda tensionando as noções de pintura, escultura e instalação, também faz uma inscrição ainda mais singular: um texto construído de restos, uma teia tecida pelo desejo. E dessas entranhas, dessa estranha aranha-teia-texto, inicia uma travessia por uma obra que se deixa atravessar pela vertigem da linguagem. Uma viagem em que, através do próprio trilhamento, se constitui algo que não sabemos. E nos percalços dessas instalações, ao se arranhar no encontro com o corpo e ao procurar a sublime-ação de tecer e destecer a própria história, cortar por atalhos, encurtar caminhos, desinvestir ideais, desvestir fantasias, cria-se uma nova rearticulação simbólica do sujeito diante do assombro da existência.