Adriana Vignoli - Um chão que se abre à dimensão utópica

2016

 

(Exposição “Vãos ensaios para uma utopia mutável” de Adriana Vignoli – Elefante Centro Cultural – Brasília/DF – outubro de 2016)

 

 

Quem pretende aproximar-se do próprio passado soterrado deve agir como o homem que escava. Antes de tudo, não deve temer voltar sempre ao mesmo fato, espalhá-lo como se espalha a terra, revolvê-lo como se revolve o solo. Pois ‘fatos’ nada são além de camadas que apenas à exploração mais cuidadosa entregam aquilo que recompensa a escavação.

 

Trabalhos de subsolo - Walter Benjamin

 

 

            De uma pulsação que escorre num tempo e num espaço singular e das ruínas que se presentificam para dar dignidade aos resíduos, surge um trabalho vigoroso e potente que oferta pequenos milagres. Através da cintilação de materiais díspares - terra vermelha, vidros laboratoriais, parafusos, areia, lençóis usados, casca de ovo - os restos ganham, pelas mãos da artista Adriana Vignoli, novo contorno e novas camadas de sentido.

 

            O trabalho da artista evoca um anacronismo à maneira de Didi-Huberman que, ao formular uma multiplicidade de problemas e debates concernentes às relações entre a arte e o tempo, propôs uma arqueologia da história da arte a partir de uma noção decisiva em que qualquer linearidade se embaralha.

 

O tempo se encontra nos gestos contidos na obra, tanto em suspensão quanto em dissolução. Há também a dimensão de um tempo imemorial ou irrecuperável que nos constitui como sujeitos e que a artista desvela ao escavar o solo, ao reintegrar uma matéria triturada, ao se mover entre os escombros num ato arqueológico que invoca, em última instância, o que está perdido desde a origem.

 

            Em suas pesquisas, Sigmund Freud e Walter Benjamin voltaram o olhar para o fragmentário, para os fatos menores, para o que estava perdido na história individual ou coletiva, e procuraram integrar o que ficou esquecido no passado como sobra não incorporada.

 

            Adriana Vignolicoloca em curso um pequeno laboratório que reincorpora a dimensão da ruína, articulando dispositivos que promovem uma releitura da tradição a partir de um processo arqueológico muito singular, em que os materiais encontram uma dicção particular, a exemplo do pó vermelho: matéria primitiva, pigmento que, em sua sofisticação, não somente dá notícias da origem e do arcaico, como também invoca um futuro.

 

            Foi Benjamin quem se manteve atento ao que foi excluído e negligenciado pela historiografia, e é exatamente esta a questão que aparece em Vãos Ensaios para uma Utopia Mutável, exposição em que a artista coloca acento no que pode devolver à existência a espessura e a capacidade de criar novos mundos: no silêncio das paisagens, nas pedras que conquistam novas geometrias, na atenção delicada ao desenho e à vidraria, na miragem refundante que surge de objetos vivificados que, antes petrificados no passado, agora saltam do contínuo histórico interrompendo a linha do tempo para serem ressignificados.

 

            Ao revirar a superfície e quietude das coisas e abrir dimensões que incluem a experiência da alteridade, os objetos colocam-se a falar e encontram voz numa vizinhança que não deixa de escutar o ruído proveniente do vazio entre uma coisa e outra.

 

            No clássico texto “Sobre o conceito de história” redigido no ano de sua morte, Benjamin disse que a verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar como imagem que relampeja irreversivelmente no momento em que é reconhecido. Tocar aquilo que passou é possível somente enquanto não-identidade consigo mesmo, implicando um processo de inacabamento, processo este destacado na obra de Adriana Vignoli quando, ao se apossar de restos passíveis de serem reutilizados, a artista deixa que um espaço em aberto opere, numa inscrição feita para que a dúvida mantenha vivo o interminável.

 

            Em seus objetos escultóricos, ela integra formalismo e evento em convívio improvável e potente, conecta o arcaico ao presente e flerta com um futuro que brota da força imanente dos materiais: terra e pedra sendo absorvidas na recodificação de sentidos e usos, a natureza do tempo estendida em delicadas e complexas engenharias, sem deixar de lembrar o aspecto espiritual, o vínculo com o chão e o primitivo.

            O que cintila é a escavação, o tempo de preparo que antecede o acontecimento, a solidão altiva dos objetos, a invenção de um futuro além do quadro, a tentativa de não-figurativismo que pretende atingir o subterrâneo das coisas.

            Como construir a partir do conceito de ruína? Esta é a pergunta que a artista sustenta, que tensiona um ideal de modernidade e instala a dimensão da utopia, a partir de algo que carrega em seu seio a indestrutibilidade da marca, como os fragmentos de grãos da paisagem de Berlim. Ou a esfera que possui, no seu interior, um ácido que corrói pedras e reformata o estado das coisas, flertando sempre, porém, com a origem, e reinventando uma modernidade que, num mais além de romper com o velho e criar o novo, balbucia alguma resposta entre tradição e tecnologia.

 

            Utopia política e estética, uma forma de rasura, um furo no futuro que antecipamos a todo momento. Uma resposta ética à catástrofe cotidiana das coisas que continuam como antes. Uma utopia que é a própria instauração de uma interrupção no contínuo do presente, um sonho que acorda, causa de desejo.

 

            Utopia surgida na fenomenologia entre objeto e sujeito, na sutileza concreta das coisas, na experiência estética e laboratorial entre as materialidades que são, paradoxalmente, coesas e interdependentes.

 

            Tempo e paisagem, forma e pensamento como incisões transgressivas que podemos encontrar em Jacques Lacan: “É o pensamento dautopia que, como seu nome enuncia, é um lugar de lugar nenhum, de não-lugar, é a partir da utopia que o pensamento será livre para desenhar uma reforma possível na norma”.

 

            Nessa busca radical, a caminhada da artista avança num trabalho que faz emergir conceitos limítrofes do objeto artístico e fricciona fronteiras políticas, territoriais, urbanas e naturais.

 

            Criação, alquimia, utopia. No trabalho de Adriana Vignoli os horizontes funcionam não só como mapas que orientam o movimento, mas também como motor mesmo do desejo de ir adiante, construindo uma geografia que busca o desenho de outra gramática de leitura para nossos atos, revelando, assim, que as experiências possuem avessos e descontinuidades, introduzindo no espaço da vida uma zona de imaginação e de suspensão.

 

            A utopia surge então como a dimensão estrangeira que lança à paisagem um olhar diferente, com imagens que mostram o reverso da cidade e o que fica nas sombras, ajudando a entender a lógica da sua construção, o recalcado de sua história. Na proposição utópica da observação da materialidade do modernismo brasileiro - em especial da arquitetura de Brasília – a artista inventa desenhos e objetos que sugerem conexões entre as construções arcaicas - a casa do maribondo, a do joão de barro, o vaso indígena, a concha - e as computacionais. Ela não traça um ideal descrito e objetivável. Ao contrário, ilumina o presente e indaga sobre os impasses que nos colocam diante da possibilidade de um outro lugar, num claro esforço de esburacar o tecido repetitivo com o qual nos cobrimos, pois criar implica instaurar uma existência que possa abrigar o risco.

 

            Com sua máquina utópica e poética, Adriana Vignoli retoma a rua transformando pedras comuns em pedras preciosas, num trabalho minucioso de lapidação de fragmentos de calçada coletados em lugares por onde passou e que, transmutados, fazem vicejar o novo ao discutir a ideia das caminhadas como práticas urbanas que possibilitam enxergar outra cidade, como assinalado por Benjamin: “Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução”.

 

            Vale, então, a imagem que podemos deduzir daí: é preciso saber se perder para poder produzir um encontro.

 

            Das obras centradas na geografia habitada pela artista e nas metáforas de transformação contidas em sua obra, nas coisas autônomas envolvendo o tempo e a paisagem, encontramos a utopia como fulgurante resposta a um mundo cada vez mais tecnicista e burocratizado. Utopia, aqui, que tem a função de um perpétuo despertar e visa manter acesa a chama da pergunta que, aguda e eticamente, guia a artista: qual a origem da vida e da escultura?