Anri Sala - Estraçalhar as certezas para encontrar o presente

Revista Select 38 - Outono de 2018

Após passar pelo IMS Rio em 2016, a exposição do artista albanês Anri Sala ocupa 2 galerias no IMS Paulista. Numa montagem diferente e em versão ampliada, o som é o ponto de partida que permite que reviremos as imagens por dentro.

 

Na 1ª galeria, instalações musicais e uma série de fotografias em preto e branco tensionam as noções de tempo através de abordagens do som como fenômeno físico que impacta a sensibilidade e a subjetividade, criando no espaço um acontecimento ao mesmo tempo audível e visível.

 

O que parece interessar ao artista são os efeitos éticos de ressonância do som, bem como a dimensão que a trama simbólica real-imaginária musical põe em cena. Nas ondas propagadas por alguns instrumentos, não é o instrumento que vemos, mas a mão em coreografia ou um pedaço de corpo – como um cotovelo – que, em presença enigmática, convoca a um despertar para ruídos e silêncios do aqui e agora que, muitas vezes, permanecem inauditos ou na penumbra.

 

Na 2ª galeria, em uma videoinstalação com 3 telas, garotos, também em ambiente escuro, repetem palavras em uólofe, idioma da África Ocidental. As palavras condensam uma ideia de escuridão e claridade num jogo que salta da língua para a pele, apontando a colonização dos corpos pela linguagem e para a radicalidade dos termos em uólofe, no acesso àquilo que há de intraduzível numa cultura.

 

Toda palavra porta uma opacidade. A partir desse ponto Anri Sala traduz os lábios mudos da mãe, imagem que aparece na obra Answer me. Com ajuda de professores de uma escola para surdos, ele vasculha arquivos do Congresso da Juventude Comunista da Albânia, ocorrido há 20 anos. As imagens que encontra em visita à cidade natal não tem som e, com seu trabalho, ele persegue obstinadamente esse vazio que faz ouvir mais além.

 

Em Long Sorrow, um saxofonista faz uma improvisação de jazz, pendurado do lado de fora do 18º andar de um prédio de Berlim – um conjunto habitacional chamado pelos moradores de Langer Jammer, o mesmo que “long sorrow” (sofrimento longo, em inglês).

 

Essa dimensão brumosa, opaca, ruidosa e silenciosa atravessa todo o trabalho como ética, fazendo com que o artista não resvale em um jogo cômodo do que seria a dimensão política na arte. Ao contrário, busca no abismo das coisas essa densa camada da história, o tremor vivo que divide e nos lança ao confronto, questionando, como propõe Jacques Rancière “os próprios critérios do reconhecimento do comum” ou acentuando a potência que há em assumirmos as rachaduras do mundo e nossa fundante fragilidade.