Depois de 15 anos, volto à Brasília

Revista Caliban - Novembro de 2016

“Brasília é uma praia sem mar. Em Brasília não há por onde entrar, nem por onde sair”, escreveu Clarice Lispector, assombrada pela espacialidade da capital modernista. Ela dirigiu o olhar ao céu, ao cinema transcendental das nuvens, à luminosidade prateada dos dias, à magnitude das noites e ao silêncio visual da cidade, atenta ao fato de Brasília ser uma cidade redonda, construída na linha do horizonte, assolada pelo esplendor de uma luz branca.

 

Diante de meu espanto em face desse espaço aberto, quero dizer sobre as utopias e os ensaios de Adriana Vignoli: experimentação que caminha por essa espécie de não-lugar epifânico.

 

Vãos ensaios de uma utopia mutável: utopia como causa de desejo que não diz de seu objeto. O que o trabalho de Adriana apresenta é uma desordem que denuncia a falácia da crença do encontro com o objeto e, em certa medida, a falácia de toda relação de objeto.

 

Assim vai se circunscrevendo um horizonte que se localiza naquilo que podemos recriar de nossas ficções de origem. Adriana ensaia um gesto de invenção, de fazer com a ruína depositada nos dias, redesenhando os contornos do presente, de maneira a dissolver os pontos em que a vida se encontra anestesiada. Aqui, para que o termo “resistência” recupere seu valor, é preciso que ampliemos seu sentido, tradicionalmente restrito ao âmbito macropolítico. Há que se ativar seu sentido micropolítico, o que torna seu objeto muito mais amplo. A artista trava então uma batalha, investindo sutileza e complexidade em cada um de seus gestos.

 

Retorno para a alma metafísica do planalto, para sua natureza aérea e celeste.

 

“Brasília é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. É uma cidade redonda e sem esquinas. Ao contrário de outras cidades, que se conformam e se ajustam à paisagem, no cerrado de céu imenso, como em pleno mar, a cidade criou a paisagem”, assim escreveu Lucio Costa.

 

Algo me escapa. Nas últimas 24 horas estive deslocada de meu mundo, percebendo coisas que não sabia existir: passei por exposições e espaços independentes, vi artistas de Brasília e, agora, estou aqui, no Elefante. Escrevo sem ainda estar: presentifico o futuro. Estou dentro de uma exposição de resistência e de um espaço que se abre ao mundo em um gesto micropolítico.

 

Brasília me ensina. Recordo um ensaio do arquiteto Rem Koolhas, traduzido pela revista Centro: “A modernidade é fundamentalmente efêmera, nunca teve a intenção de durar. Na melhor das hipóteses, a arquitetura moderna é uma membrana mínima separando uma porção de um espaço para, temporariamente, torná-lo útil para alguma finalidade específica. A estética do moderno é uma constelação de nuances que se destina a ser transitória”.

 

Aqui eu haveria de falar sobre uma artista mas, neste lugar, encontro um balbucio. Encontro seu gesto de criação e, também, de dissolução.

 

Olhando pela janela noturna do hotel na Asa Norte, lembro que aqui as construções têm espaços calculados para nuvens e penso no cálculo formal e poético do trabalho de Adriana. Daqui posso também vislumbrar artistas jovens com vontades e paisagens lunares, e espaços independentes onde resiste a beleza.

 

E há o vazio, que insiste. Há a precariedade, a fragilidade que nos move. E não seria esse, talvez, o sentido da arte: servir como uma espécie de curativo do vazio sem, no entanto, querer tamponar de vez o desassosego?

 

O vazio jamais cicatriza. É necessário manter o centro vazio, como fazem os utopistas iconoclastas. Manter aceso e aberto um lugar para o sujeito. Saber fazer pulsar a vida sob as formas que se dão a ver, deixar cintilar o enigma. 

 

Falo, então, do trabalho de Adriana Vignoli, desviando-me do dizer. Abismada, olhando o mundo pela arquitetura de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, posso deixar saltar de mim na palavra gaga aquilo que se ergue no espanto e se mantém inexplicado, como Clarice Lispector: “Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que é também a ideia que eu faço da eternidade”.

 

            Adriana se move em sua alquimia com suas mãos e com seus sentidos. Mas o mundo lhe resiste, e essa resistência ela deve perceber em seu corpo, no ato da inscrição de seu gesto. Nesse ato ela sente, decerto, primeiro o objeto mas, ao mesmo tempo, percebe também o esforço de sua própria mão criadora. A natureza não está fora de nós: ela nos habita. 

 

É impossível não falar do assombro de Clarice Lispector, desta Brasília que fica à beira, desta prisão ao ar livre que nos ensina que não há para onde fugir.

 

Convoco então essas pequenas revoluções, com “r” minúsculo, a micropolítica da resistência. Ou, num possível dizer lacaniano, poderíamos afirmar que “a Revolução não existe”: é preciso, pois, escavar e cavar seu espaço nos gestos mínimos, na paisagem desértica, na letra miúda. 

 

Há poucos dias conheci, pela revista Derivas Psicanalíticas, um bonito projeto: uma paisagista retorna a suas origens para plantar no Cerrado e despertar o olhar sobre esse bioma, apostando no potencial ornamental de sua flora rasteira. Ela captura o detalhe, revela o que estava ali em espera, como se fizesse sair do sono os capins e as flores baixinhas que compõem os campos do Cerrado, esse estranho familiar. É belo esse serpentear entre paisagens, também em Adriana.

 

Foi serpenteando entre as plantas e tocando com as mãos o solo que a paisagista teve uma epifania, tão concreta que pareceu beirar uma experiência mística:

“Normalmente, a imagem que vem à mente quando falamos de Cerrado são as árvores de troncos retorcidos, mas essas árvores só ganham destaque na paisagem por estarem espalhadas sobre um tapete de plantas baixinhas – capins, herbáceas e arbustos com flores miúdas – e entendi que essas plantas baixinhas, singelas, não poderiam faltar no nosso jardim”.

 

            O que miro aqui é o caminhar por paisagens como ética, a precária e vacilante invenção que pode reinventar mundos como a mais aguda expressão da existência e da potência da fragilidade, tocada por um calígrafo mencionado por Yasunari Kawabata da seguinte forma: “A vida é um fragmento da paisagem”.

 

            Encontro, então, um chão para o trabalho de Adriana Vignoli, um solo fértil para se ensaiar uma utopia mutável. Todo o processo, os encontros e tensões, aquilo que se constrói no compartilhar é condensado aqui. Creio, isso é muito. Repito: a vida é um fragmento da paisagem. E é vão na medida da sutil e potente captura dessa dimensão do mínimo, é ensaio naquilo que se experimenta na dimensão abismal da existência, é utópica porque acredita em pequenas revoluções e é mutável, pois cintila nas frestas da vida, naquilo que bascula e é nômade. 

 

            Brasília me assombra. Como Clarice, sei que voltarei: “Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho".

 

 

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