Júlia Panadés - Um poema precisa ser salvo antes que se tenha algo a dizer

2016

 

(Exposição “Ela, a linha” de Júlia Panadés – Museu Mineiro – Belo Horizonte/MG – setembro de 2016)

 

É nesse movimento de preservação da dimensão poética aguda que encontramos o gesto feminino de Julia Panadés: tecido e corte que estabelece a letra, aquilo que constitui a borda do corpo.  Um fazer com a pulsão no “processo-presença” das linhas de costura e da costura de linhas invocando tanto a nudez quanto o véu das coisas.

 

De seus desenhos e bordados se tecem peles como as que a psicanalista Eugénie Lemoine tangencia no belíssimo livro “O vestido”: uma mulher pode ter uma pele de anjo e ser um chacal. O mistério a que se dedica esta exposição - este enigma depositado na pele de uma escritura a escrever o corpo em rascunho, revelando o lugar do erótico como fenda e do que apenas se entreabre e cintila - é o que Roland Barthes chama de lugar da intermitência:  é essa cintilação mesma que seduz ou, ainda, a encenação de um aparecimento-desaparecimento.

 

Como uma prece que nos liga ao insondável, a linha vai surgindo e se sustentando no trabalho de Júlia Panadés. Na teia das confusões da língua, no traço do desenho, no entrelaçamento de linguagens diversas, ela faz ranger paradigmas, provoca vertigens, aparecendo e desaparecendo nas tramas e urdiduras daquilo que se tece em língua secreta. Seu gesto faz vicejar a dimensão do íntimo como dádiva, como milagre cunhado em tentativas litorâneas de habitação da nervura, na imensidão sempre brumosa do fulgor dos enlaces. O que se revela é um catálogo de esboços, gestos rascunhares, formas evanescentes. Fibra desejosa da ardência da linha que move a língua, seguindo uma trilha apontada por Maria Gabriela Llansol, costurando a fluidez do feminino naquilo que se apresenta como o “de ninguém”, o não biológico, não genital, não orientado, onde se opera um deslizamento para uma zona intermédia entre o ar e o corpo. Desse atrito surge o vestido da substância, deslizamento que prossegue sendo estendido e chega ao corpo que, não sendo um, é o de ninguém: o corpo do homem, da mulher ou da paisagem.

 

O vestido é uma forma de tocar o vazio. Vazio que encontra, na experiência de escrita, o desenho, o enlace que empurra a escrever.  O feminino é uma parte faltante que, se fazendo presença-ausente, é marca sutil da diferença imanente a cada forma corporal de habitar o mundo.

 

Júlia Panadés encontra em seu traço uma forma de roçar – uma forma de toque, de cultivo das diferenças. O olhar, nesse interim, parece assumir uma constatação fugaz: a linha é um fazer-se, é o fluir que permanece, um corpo desenhado onde não há corpo.

 

E, como em Maria Gabriela Llansol, não há algo que se conclua, mas territórios em que há dentro e fora, antes e depois, quando e onde, numa operação radical que constitui-se em bordadura que se faz com as mãos trêmulas sobre um abismo-parapeito. Essa é a imagem não-derradeira do feminino que diz do singular, da voz de ninguém.

 

A coleção de obras de Júlia Panadés produz um diálogo íntimo ancorado na experiência da linha que se oferece como corpus, não como corpo-de-sentido-e-de-história, mas uma linha que abre sentidos possíveis de um corpo pelo prolífico: peso, força, quantidade, pressão, densidade - possíveis ancoragens que procuram trazer a imanência própria do que a relação corpo-corpus abriga em suas superfícies e profundidades.

 

Em Jean-Luc Nancy encontramos o sentido dessa dinâmica infinitizante entre corpo e corpus que se expande e retrocede até os confins do pensamento, visceral e sanguineamente, como nos desenhos de Júlia. É nessa imagem de uma corporeidade do pensamento, dada por Nancy como “Corpus”, que podemos fazer ressoar possibilidades cartográficas do trabalho de uma artista que não se amarra em nenhuma linguagem: ela ensaia, se arrisca, é riscada. Ela vem, vai imediatamente, já, no instante, e isso toma toda uma existência, até as bordas: nada menos do que nascer e morrer, circunscrever e inscrever, ao mesmo tempo, o lugar múltiplo de um corpo, ir e vir ao longo dessas bordas e confins em recomeços de si numa experiência que é travessia, transporte incessante de uma borda à outra em toda a extensão do traçado.

 

De aquarelas e traços potentes e delicados, de cada pedra uma letra, do bordado infinito de Júlia, podemos agudamente sentir que não se opõe imanência a transcendência. A experiência, aqui, não é outra coisa que o corpus dessas pesagens que pesam sem serem pesadas e nem medidas por nada, que não depositam seus pesos em lugar algum, não se apaziguam por nenhuma medida. A dimensão feminina é, aqui, bruma e fulgurância, extensão do desejo num espaço de produção de escritura que se atualiza em diversas linguagens, na mesma medida em que um certo jogo do acaso produz reverberação infinita.

 

Marguerite Duras diz: há uma outra feminilidade.

 

Maria Gabriela Llansol diz: há o feminino de ninguém, o vestido, habitação, revoada, pouso, corpo a se escrever no corte, no furo, no vazio da paisagem, para além do corpo, no corpo-que-vai-além da matéria dura do sexo.

 

É a partir dessa capacidade de desapropriação do sujeito feminino, derivada justamente desse seu lugar do vazio ou, em outras palavras, do seu não-lugar, que o feminino encontra – no trabalho de Júlia Panadés – seu chão e suas asas.