Louise Bourgeois - O invasível: o invisível que invade

Revista B - agosto - 2011

Difícil escrever sobre alguém que julgava que sua arte não precisava de palavras, explicação ou defesa. Alguém que sempre se revelou extensamente, sobretudo na forma de cartas, diários, cadernos, notas de processos de trabalho, folhas soltas e, no final da vida, anotações nos versos de desenhos. A escrita, como os outros afetos, surgia-lhe em irrupção e ela escrevia no que estivesse à mão: papel colorido, quadriculado, envelopes, convites e até nas paredes de casa. Fragmentos guardados, que podem ser vistos na mostra LOUISE BOURGEOIS: O RETORNO DO DESEJO PROIBIDO, em cartaz no INSTITUTO TOMIE OHTAKE, em São Paulo.

 

A escrita como estratégia de sustentar uma marca no mundo e, mais do que isso, uma escritura que se dá em cada obra como uma maneira de tratar o abandono, que Louise entendia como enraizado nas frequentes ausências do pai, devido à guerra, e na prolongada doença e morte precoce da mãe, em 1932.

 

Foi assim, colecionando narrativas e guardando tudo; ela não jogava nada fora e, por isso, seus arquivos continham uma quantidade enorme de cartas, documentos, fotografias e também retalhos e tapeçarias, usadas nas obras, com o poder de afastar a perda, o esquecimento e a morte. Catalogou poeticamente os rios que conheceu, as casas onde morou, o ateliê que frequentou. Colecionadora compulsiva, não só de memórias, mas também de objetos, num espírito eterno de investigação psíquica.

 

Com mistérios para desenterrar e tormentos com ilhas de silêncio, ela nos conduz ao corpo e suas disfunções, falhas, abcessos, cólicas, dores de cabeça e surtos de insônia. O nosso próprio corpo é estraçalhado, no contato com obras que fazem borbulhar livremente o inconsciente – como em Proust que, por um estímulo sensorial, faz abrir uma vista para um incidente do passado num fluxo de associações e sensações.

 

Um passado que nunca perdeu a magia, o mistério e a dramaticidade, exatamente por ser o local de origem do trauma ao qual tem-se de retornar eternamente. Toca-se esse passado e, da posição passiva de vítima do medo e da depressão, desloca-se para a posição ativa de autora do próprio destino.

 

Essa escritura da vida, trágica e incurável, é o que norteia todo o trabalho de Louise: escultura, desenho, pintura, gravura, instalação e o fazer, desfazer e refazer de uma matéria bruta composta de fragmentos de sua biografia, de símbolos familiares em diversos materiais – pedra, metal, tecido, papel, látex, gesso, borracha, bronze, alumínio, madeira, aço. A diversidade penetra de maneira desencarnada, íntima e surpreendente no território vertiginoso das lembranças e do erotismo, presente na sua luta contra a resistência dos materiais.

 

No “Arco da Histeria”, obra de enorme brilho, a nudez que vela a histeria aparece desconcertante. Sim, porque conhecemos a nudez, mas é preciso perdê-la de vista se quisermos reencontrá-la. Eis a mola desse erotismo. Se o teatro da nudez é erótico em si mesmo, é porque ao ser tocada/profanada enquanto objeto sagrado, a nudez leva ao erotismo. O brilho dourado se apresenta como uma imagem fronteiriça, uma presença cuja abertura ao erotismo também leva à morte, como em Bataille, onde tais noções se assemelham e se confundem. Por isso, uma mulher nua é a imagem do erotismo, como também é a imagem da morte.

 

Cortando, perfurando e esculpindo, Louise acaba por nos apontar que, apesar de todo concreto armado da racionalidade, sempre haverá fissuras, e alguma forma de violência estará presente.

 

A literatura e as artes, a propósito, são formas de lhe dar vazão; loucura e lucidez, tão atentas quanto atadas. O erotismo é um aspecto decisivo da vida interior do homem; é o que o define e o distingue dos animais. O erotismo como experiência que depende de seu aspecto proibido e sagrado, e nasce justamente do sentimento de violação, de profanação do objeto. Sensação que se tem repetidas vezes, ao percorrer as obras e vestígios de memória de Louise: a nossa própria desintegração é colocada em jogo, o medo da desconstrução mais radical diante daqueles estados da alma.

 

“A Destruição do Pai”, de 1974, é um “tableau” teatral banhado de luzes vermelhas e salpicado de protuberâncias bulbosas que brotam de cima para baixo. Dentro de uma estrutura semelhante a uma caverna de panos escuros, há um elemento figurativo feito de látex, coberto de montes menores de pernas de animais – desmembramento e devoração, banquete totêmico – onde o passado é revivido com toda a força, poder, dor e beleza, e onde a perda do objeto amoroso e o temor do abandono são evitados por meio de um assassinato simbólico, em que os sentimentos mais penosos são registrados. Surge a possibilidade de refletir sobre si, em vez de estar simplesmente egocentrada diante de angústias de aniquilamento e a constante sensação de ser nada, da qual ela se defendia com o sentimento de onipotência, mecanismo de sobrevivência psíquica. Encenar a destruição do pai é sustentar também a ambivalência presente na exibição pública de uma fantasia íntima a que somos convidados a compartilhar, dando corpo num enquadramento específico. Através dessa caixa escura, iluminada teatralmente em vermelho (num teatro da dor e da vertigem de si) e dissolvendo de forma inquietante a fronteira entre o vivo e o inanimado, o presente e o passado, o outro e o eu. O efeito desnorteante e claustrofóbico faz com que sejamos então penetrados pelo retorno dos fantasmas psíquicos da artista, em que ela manipula a recriação de uma cena familiar, escolhendo o que é visto e o que permanece escondido. Somos magnetizados por seus segredos, porque sentimos que algo daquilo pulsa em nós. E somos convidados á cena do crime depois dele ser consumado.

 

Louise transfigura o horripilante em arte, mostrando que aquele poderia ser um jantar cotidiano e ressuscita o que foi devorado nesse encontro dúbio com o pai: ao mesmo tempo em que o desafia, ela mostra em sua obra uma espécie de dívida e identificação, como vemos na página de seu diário em 24 de maio de 1978: ”Na identificação com o agressor eu o manipulo”. A reencenação da fantasia não é somente uma catarse que exorciza o demônio dele, mas um modo de lidar com essa complexa dívida da filha para com o pai e uma maneira de manipular a dor e o horror em seu proveito próprio, como artista e como mulher.

 

Assim, no espaço do visível, invisível, tangível, intangível, caminhamos perplexos, impactados, aturdidos com a potência criativa dessa mulher, que desestabiliza e causa vertigens ao tratar de temas tão fortes situados entre a vida e a morte, que nos chegam aos olhos num sentido de reparação do mundo interno.

 

Naquilo que transborda, ela responde com uma força centrífuga, buscando um continente na criação como, por exemplo, a série de ampolas ou esferas de vidro para conter emoções líquidas, como fluidos corporais. Na ânsia e no furor de entender, podemos pensar no que Lacan chamou de gozo de sentido, criando narrativas e sentidos em tocas, ninhos, células, objetos pendentes, linhas, cabelos, arames, escadas, numa espécie de fio infinito cruzando toda a sua produção.

 

As instalações de Louise Bourgeois dialogam com o teatro e são perturbadoras. Os “Red Rooms” (Quartos vermelhos) tiram o véu e configuram com elementos precisos e cortantes um terror inominável, as águas turbulentas do erotismo que se liga à morte – sim, pois o erotismo de certa forma antecipa a experiência da morte. O vermelho, o vazio, a lança, o útero – a desordem sexual é maldita. O corpo é maldito, sobretudo porque finito, perecível, e essa verdade é insuportável. O amor não dá conta de dizer do perigo mais fundamental e o quarto escancara isso: enquanto pudermos nos concentrar em nossos relacionamentos românticos e/ou sexuais nunca inteiramente satisfatórios, não precisamos enfrentar o horror essencial da castração, uma evidência que Lacan capta em sua noção de gozo.

 

Diante desse simulacro desagregador, contamos histórias para viver. E a artista parece nos conduzir pelas salas frias numa espécie de companhia invisível, e entre objetos pontiagudos, costurados, retalhados, trabalhados, chegamos numa imensa aranha – a mãe, as fiandeiras de contos, tecelãs de úteros. Transformar o útero de cada mulher em aranha, tramar uma teia, construir um horror flutuante onde desenvolve-se prematuramente e anseia-se por amor.

 

Mas também se faz uma espécie de ato diligente de autoexame, em que se reconhece tanto os prazeres de sua própria bestialidade, quanto a dor causada pelo efeito bumerangue dos seus sentimentos, indo até uma espécie de vazio pleno, como podemos perceber na obra “Rondeau for L” – uma massa de gesso arredondada e tosca, inerte, quase sem forma. Tem o tamanho aproximado de uma cabeça grande e sua solidez é apreciável. Vista de frente, a peça é uma toca com um buraco sombrio cavado no centro, seguindo uma lógica de um interior e um exterior estruturalmente envolvidos, mas também descontínuos: o interior não revela necessariamente a forma externa, e sendo assim, a toca poderia ser descrita como representação de subjetividade no processo de emergência, quando a interação entre o dentro e o fora está extremamente volátil, dinâmica e fluida – ou ainda rígida e defendida ao máximo.

 

Louise sonha de olhos abertos, sofre de insônia e desenha talismãs para afastar o perigo da sobreposição do real, produz através de uma tentativa desesperada de criar forma e significado, escancara esse real do corpo, sublima, penetra, atravessa e termina sua carreira com desenhos em guache vermelho de mulheres grávidas e partos, identificando-se com os fetos e voltando ao ponto de origem – vida e morte entrelaçadas, o sumo de uma matemática do absurdo, a tessitura dessa dialética espiral de prazer e sofrimento, aquilo que verdadeiramente há para se dizer do humano: nascemos e não há cura para isso, aqui estamos e dançamos desajeitados entre o primeiro e o derradeiro gritos.

 

A força da obra de Louise reside aí, nessa espécie de entre-lugar, e carrega a marca de uma poesia corajosa diante daquilo que nos assombra. Qualquer coisa que ela parece saber bem quando diz: ”I have been to hell and back. And let me tell you, it was wonderful” (Estive no inferno e voltei. E vou te contar, foi maravilhoso).