O espaço revirado e o sujeito

2017

  

(Texto publicado no catálogo da exposição “Encontros no espaço” – Belo Horizonte/MG )

 

 

A geometria nasce do reflexo do corpo projetado na minha mente.

Lygia Clark

 

 

Não há encontro no espaço que não seja revirado pelo olhar. Não há reta que não fale de um lugar hiperbólico, de um tremor curvo, de um louco e lírico território.

 

Com Freud aprendemos que não somos senhores de nossa própria casa. Não se trata, portanto, de tentar recuperar a fixidez.

 

Nos trabalhos escolhidos pela fina curadoria de Graça Ramos, o que está em jogo é a possibilidade de se conceber um espaço sem centro, espaço excêntrico onde o homem ganha em mobilidade o que perde em segurança. O espaço existe para o homem, sublinha El Lissitzky, o homem não existe para o espaço.

 

Os trabalhos de Adriana Vignoli, Lais Myrha e Francisco Kingler estabelecem relações arquitetônicas em que somos convidados a estar presentes de maneira singular, para além da contemplação que assegura um ponto estático diante de um objeto igualmente estático. São obras que distendem o espaço e nos obrigam a girar à sua volta, a penetrar seu campo de ação.

 

O espaço surge como uma partilha do sensível, como quer o filósofo Jacques Rancière: repartição do campo perceptivo entre sujeitos e lugares.

 

Reinvenção em que cada um toma parte. Divisão em que nascem o sujeito e o mundo, a partir da Catedral emborcada de Francisco Klinger – que desaloja e desconcerta – ou de Nada será como antes, que convoca a uma tomada de posição ética. Ou passando pelas casas de marimbondo de Adriana Vignoli, a conectar o primitivo ao tecnológico, por Onde a terra acaba – que evoca o arcaico para confabular um futuro ou, ainda, através do Pódio para ninguém de Lais Myrha, que assume a instabilidade em seu limite.

 

O diálogo que se estabelece entre as obras incorpora em seu centro a dimensão da precariedade e convoca o sujeito através de uma arquitetura que acontece entre um espaço vazio em gestos fundamentalmente plásticos que vivem entre as obras.

 

De matérias que ora transitam entre o delicado e o mais bruto, da cerâmica e do vidro, passando pela terra ao pó de cimento prensado, reconhecemos o artista como o catador de resíduos de quem fala Walter Benjamin: ele coleta aquilo que a sociedade despreza e desdenha, para mostrá-lo transformado.

 

Os encontros no espaço aqui propostos invocam as coisas, de modo a fazer delas um convite ao olhar – ou seja, ao afeto e ao pensamento sensível. E, se há um encontro, este se dá naquilo que, impalpável, é de saída comum aos homens, coletivo e, contudo, radicalmente singular: impróprio, próprio de cada um e propriedade de ninguém.

 

Cada artista faz de cada pequena coisa em sua solidão um novo mundo. Os artistas projetam estruturas que dizem de proporção, composição, modelagem e simetrias, ainda que seja para estraçalhar ideais de harmonia ou de equilíbrio – um dos nortes da curadoria de Graça Ramos.

 

Em Pódio para ninguém, de Lais Myrha, aestabilidade comparece prestes a ruir. O pódio precário é também um antimonumento que é, fundamentalmente, a possibilidade de queda do imaginário, a utilização de algo que força a passagem para outra coisa que possa dizer de uma última barreira a se franquear para atingir o Real – real, aqui, no radical sentido lacaniano de inapreensível. Jacques Lacan define a sublimação como uma elevação que visa um ponto de maior dignidade: elevar o objeto à dignidade da Coisa. O Pódio para ninguém é essa elevação que dispensa os efeitos da unidade e da boa forma, sempre calcados no Ideal. Não há mais o que esconder, é preciso mostrar as rachaduras estruturantes dos objetos, do espaço e do sujeito.

 

Vãos, de Adriana Vignoli, coloca em cena palavras eliminadas de uma língua indígena. No caso do Guarani, a artista acentua que o primeiro fonema suprimido foi o Y, por causa da dificuldade de pronúncia encontrada pelos europeus. Assim se estrutura seu trabalho: palavras erigidas a partir dessa unidade sonora são disparadas por um sensor acionado por laser por uma gota d’água, impulsionando uma conversa entre duas casas de marimbondo. As casas emitirão palavras em guarani, consideradas arqueologias culturais dessa sociedade. A cada gota que cai, uma casa emite um som.

 

Em Onde a terra acaba Vignoli retoma a ideia de extinção. Uma materialidade forja a poética de coisas autônomas e utópicas: tempo, paisagem, arquitetura. No limite, a artista parece saber que não há lugar possível, o importante é deambular pelas margens, se perder nos labirintos ou, no dizer de Hélio Oiticica, “não ocupar um lugar específico no espaço ou tempo”. Vale lembrar que o título da obra remete ao inconcluso filme de mesmo nome, “Onde a Terra Acaba”, de Mário Peixoto.

 

É desses deslocamentos e de uma maneira singular de se relacionar com a densidade do entorno que os encontros acontecem. No entrecruzamento de diferentes formas, as obras destacadas pela curadoria de Graça Ramos encenam questões da ocupação dos espaços, da materialidade que oscila entre o mais resistente e o delicado, flertando com dimensões da técnica numa proposição poética em que o sujeito não se aprisiona numa arquitetura fixa, mas surge efêmero em meio às criações, penetrando o espaço e, ao mesmo tempo, tentando dele escapar, errante entre diversas materialidades.

 

Para caminhar entre as obras podemos invocar uma narrativa que passa inevitavelmente pela possibilidade de errância, como a brilhante pesquisa de Paola Berenstein sobre errantes e nômades urbanos, em que encontramos artistas, escritores ou pensadores que praticaram errâncias urbanas e, através de suas obras ou escritos, é possível apreender a existência de outra maneira, partindo do princípio de que os errantes questionam a construção dos espaços de forma crítica.

 

E aqui encontramos a Catedral emborcada ou história das mulheres enjauladas e, de alguma forma, Nada será como antes, outro trabalho de Francisco Klinger. São obras que tratam das imanências da vida e da arte, capturando o espectador, furtando-lhe os sentidos, instalando o estranhamento e uma dimensão da estrangeiridade que o próprio artista carrega na sua história, contaminada pelas visões do homem amazônico. Na mistura de experiências no Brasil, Alemanha e Colômbia, na luta para desvelar sensibilidades sufocadas pelos avanços tecnológicos e industriais, a criação se faz nos vazios ou nas entrelinhas que compõem ou aprisionam suas estruturas encarceradas, recorrentes no seu trabalho escultórico e instalações.

 

 Em Francisco Klinger encontramos reminiscências da história colonial brasileira. Em Nada será como antes há umacomposição que evoca também a arquitetura de Belém do Pará. Algo que caminha por trilhas marginais, por um discurso que esburaca o mundo e trata da temática da exclusão e do horror ao feminino na forma da exclusão da diferença, abrindo uma questão politica e de gênero, motiva Catedral emborcada ou história das mulheres enjauladas, referência ao trabalho de mulheres observadas em Bogotá, prostitutas, presas, exploradas e mantidas em cubículos.

 

É daí, talvez, que pode advir também a força da relação entre a psicanálise e as artes visuais. Um chamado ao sujeito, que Lacan considerou como a máxima freudiana e que resumia toda a ética da psicanálise: onde isso estava, deve o sujeito advir. E o sujeito só pode advir em uma certa experiência de modificação do espaço e do lugar que ele aí experimenta e que corresponde, também, a uma passagem do eu ao sujeito, do imaginário ao real. Toda vez que o sujeito advém, lá onde isso estava há, simultaneamente, desconstrução do espaço imaginário e de seu correspondente subjetivo: o eu. O que irrompe aí é a produção de um efeito de sujeito causado pela presença dessas obras.

 

O denominador comum entre essas pesquisas artísticas é a possibilidade, de maneira diversa, de se analisar e estudar o espaço, através de experiências contundentes, como as de Flavio de Carvalho, de investigação do espaço que apontam para a possibilidade daquilo que se insinua através de outra forma de apreensão dos territórios, o que pode levar a uma reinvenção poética, sensorial e, no limite, até mesmo libidinosa ou erótica, dos lugares.

 

Os diálogos que aqui se estabelecem são verdadeiros encontros que abrigam a possibilidade do dissenso e da fricção, que reconectam o tempo e a espacialidade com uma arqueologia que se dá através da própria experiência física corporal e sensorial. É algo simples, primitivo, arcaico, porém uma imprescindível dimensão que foi assolada por um tecnicismo e por uma ideia de futuro que impossibilita a partilha e a comunidade por vir, tal como pensada por Giorgio Agamben, no sentido de romper com uma simetria essencial entre origem e destino. Em outras palavras, não há meta a ser alcançada, tampouco nenhuma origem perdida a ser restituída. A vida nova que pode surgir daínão é a soma dos atributos e sim, com efeito, uma inoperância histórica. Não tendo uma essência nem sendo um valor supremo, a comunidade se realizaria não na busca de algo que lhe é próprio mas, ao contrário, na sua impropriedade.