O íntimo, a escrita, a arte

2015

 

(Exposição “Da escrita, delas, elas” – Museu da República – Rio de Janeiro/RJ – março de 2015)

 

 

Idiorritmia é o mais bonito conceito de Barthes.

 

"A que distância dos outros devo me manter, para construir com eles uma sociabilidade sem alienação, uma solidão sem exílio?"

 

Estamos na dimensão do íntimo, território em que se ancora o verso de Rimbaud, “eu é um outro”. Quanto mais nos aproximamos de um "si mesmo" buscando a verdade, mais nos deparamos com o fato de que “si mesmo” é “um outro”.

 

O máximo da intimidade é, segundo Jacques Lacan, a extimidade - um dentro que é fora, não estar em casa consigo mesmo, pois não há coincidência para consigo mesmo.

 

A extimidade questiona um ideal de identidade. Seu lugar é o sujeito - a pura diferença. Diferença que se imprime como escrita, apontando para uma não-equivalência e que carrega um poder de ruptura. Diferença que embaralha a evidência segundo a qual as coisas seriam simplesmente o que são - função da arte, por excelência.

 

A escrita de Maurice Blanchot traz em suas margens – nas entradas ou saídas – uma poderosa invocação ao íntimo. Ele abre seu “O Espaço Literário” com um texto de 1953, “A Solidão Essencial”, que se desenvolve delineando o ato de escrever como afirmação de um território do íntimo.

 

Nesse laço entre a escrita, a arte e o íntimo, uma inscrição vai se fazendo no vazio que porta o inominável, mas que, paradoxalmente, aponta nomes para as contingências. É um nó que articula três registros: da escrita podemos apreender a matéria da vida ligada ao traço mais singular; do artista extraímos sua vertigem única - esculpir o mundo; e elevamos os objetos à dignidade de Coisa, como na formulação de Lacan sobre a sublimação (Seminário “A ética da psicanálise”). Aí se enodam esses três pontos: abertura da irrealidade mais silenciosa e também torrente do exterior, ponto de contato entre os possíveis do imaginário e o impossível do real.

 

Didi-Huberman interroga, no texto “A semelhança interminável (vasta como a noite)”: o que isso implica para a linguagem e o pensamento? Que a aparição, via imagem, coloca a palavra “em estado de elevação”, como se a escrita poética devesse sua própria intensidade à repercussão de um ressoar que nos põe na intimidade do poder poético, o ponto de jorro no qual, falando dentro, ela já fala inteiramente fora. Nesse sentido, a imagem dará ao poema, ou à escrita poética “seu segredo e sua profunda, sua infinita reserva”.

 

Consubstancial a um estatuto de uma escritura poética, esteja ela atrelada ao objeto artístico ou à escrita propriamente dita, há um modo de se posicionar, uma forma de experiência sensível construída no segredado.

 

Elida Tessler em “Claviculário: palavras-chave e outros segredos” fala dessa experiência: “Há dois movimentos do pensamento que sustentam um segredo: o escondido e o enigmático. O escondido se mostra, se revela. O que é enigmático não tem como mostrar-se. Decifra-me ou te devoro. Aquilo que se esconde é diferente daquilo que não se sabe. Apresentar publicamente o resultado de uma produção é mostrar uma exposição. É construir um outro lugar. A arte pode criar lugares para as vertigens. Vertigens sutis, mas também aquelas do transtorno, da perturbação, da perfuração dos estados da alma”.

 

Nesse lugar que é mais litoral do que fronteira, no íntimo que se esboça, tanto na escrita quanto na arte, alguma escritura se escava na letra, construindo a singularidade possível de cada sujeito.

 

Lacan apresentou um conceito em “Outros escritos”, a Lituraterra - uma complexa formulação com a qual se pode pensar o território da intimidade a partir do estilo, do rearranjo dos restos fantasmáticos, como aquilo que cai da representação, que é ilegível, que não tem sentido nem significação, mas causa a escrita e a invenção artística e pode ser infinita.

 

Na força que se constrói no íntimo e onde se ancora a escrita e a arte, existe uma voz que não perde o cristal de seu som, sua pureza ancestral, seu silêncio estrutural, que faz ressoar a singularidade de um timbre ou o brilho de uma fina lâmina.

 

Aqui podemos situar a invenção artística como algo que passa pelos territórios opacos da intraduzibilidade, aquilo que resiste em passagens, barragens ou desfiladeiros da intimidade.

 

Arte-escrita, ou uma “escrita da arte” que nasce do real, como a travessia que Jean-Michel Rey no livro “O nascimento da poesia” descreve, ao relatar a travessia feita por Artaud ao transpor o burburinho das vozes que tentou traduzir, das vozes de que se apropriou, a partir das quais reconstruiu sua assinatura, dando-lhe outro estatuto.

 

Jacques Rancière diz, no livro “Política da literatura”, que a literatura é o nome de um novo regime da verdade. É o nome de uma verdade que é antes de tudo destruição da verossimilhança, uma verdade não verossímil.

 

A verdade da escrita e a verdade da arte - escritas feitas com o estilete na carne do mundo, encarnando uma revolução particular - uma verdade não-verossímil, que não vem também de um encadeamento previsível de causas e de efeitos, mas de uma relação que porta algo da verdade do íntimo. Essa verdade é aprendida como um salto, como a irrupção de uma outra lei, como acontece na arte e em sua relação com o objeto. Trata-se de uma intimidade que vai além do registro da privacidade, uma intimidade que é também estranheza.

 

A psicanalise e o laço com o estranho vem de longa data. Freud identificou o “Unheimliche” como aquilo que se vivencia sob várias formas de estranhamento, sobretudo em relação ao que não se controla e inquieta.  Poderíamos pensar aí a dimensão do íntimo como o real - esse “íntimo- estranho” ou “inquietante estranheza”.

 

Em “O Intruso”, Jean-Luc Nancy conta sobre uma intrusão no seu corpo a partir de uma cirurgia de coração. Escrever sobre o íntimo, a escrita e a arte, é lembrar que o íntimo só se faz a partir da entrada radical desse outro que perturba e desloca. Nada mais íntimo do que a chegada de um outro a se escrever no corpo, entre os encontros e desencontros de um real que o ultrapassa.

 

Falamos então de uma intimidade e de uma estrangeiridade que é o encontro com o estranho do corpo, do mundo externo, do outro. O estranho e o íntimo se enlaçam a partir de um primeiro encontro com esse real que irrompe e determina o que virá depois.

 

De uma fratura e da queda das certezas, de algo que desconcerta e desestabiliza, a partir de algo que se introduz à força, de surpresa ou por astúcia, em todo caso, sem direito, sem ter sido de saída admitido - é sob essa intimidade aterradora que se debruça a escrita e a arte, ou a escrita da arte. Nessa extimidade, criada por Lacan para indicar algo do sujeito que lhe é mais íntimo e mais singular, mas que está fora, no exterior. Trata-se de uma formulação paradoxal: aquilo que é mais interior, mais próximo, mais íntimo, está no exterior.

 

A primeira vez que Lacan usou esse parece ter sido em 1960, no “Seminário 7: a ética da psicanálise”. Ao falar sobre arte pré-histórica, o psicanalista apontou que é de se admirar que uma cavidade subterrânea com tão pouca iluminação e com tantos obstáculos à visualização, como a caverna, fosse escolhida como o lugar das primeiras produções artísticas. Disse, então, que algo que vinha sendo trabalhado ao longo desse seminário “como sendo esse lugar central, essa exterioridade íntima, essa extimidade”, pode ajudar a esclarecer a questão da arte nas cavernas.

 

Em “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud“, Lacan fala de uma “excentricidade radical de si em si mesmo com que o homem é confrontado”. Ou seja, o centro do homem, o mais íntimo de si mesmo, está exterior a ele.

 

Para Freud, o interior e profundo é chamado de “Unheimlich” - o estranho familiar usado no texto “O estranho”. A natureza íntima da extimidade de Lacan e a estranheza familiar de Freud carregam certa ambiguidade. Ambas parecem portar a noção de interior e exterior acontecendo juntos. Ambas são capazes de conjugar o fora e o dentro. Ambas apontam para algo da ordem do real. “Extimo” é o mais íntimo, o mais particular, o mais interior, mas que está fora. “Unheimlich” é aquilo que é estranho, estrangeiro e familiar ao mesmo tempo.

 

Arte é endereçamento, apela a um “nós” que excede qualquer desenho. É solidão e o fora da solidão, é a intimidade em fricção com a espessura do mundo, agenciamento do mais íntimo e também do mais comum. Como em Ranciére, “partage” – partilha composta de muitas nuances, partilha do sensível. 

 

O comum aparece nos interstícios do íntimo. Desde quando somos nomeados, o mais íntimo nos enlaça simbolicamente ao comum. E é também somente a partir do íntimo que podemos inventar um “nós” como ficção e como destino. Um “nós” atravessado pela radical alteridade do outro. A nomeação, o nome próprio é, então, uma extimidade também, uma intimidade espantada.

 

Barthes também ensina sobre a dimensão do íntimo: entre a solidão e a comunidade partilhamos as distâncias e apenas pela exposição e pelo encontro com a alteridade é que o íntimo acontece. Como em Bataille: uma comunidade sem comunidade, na partilha de um silêncio e de um inconfessável.

 

Escrita é endereçamento. Arte é endereçamento, pedido de partilha. E ambas trazem, de alguma maneira, a dimensão de um “nós” que implica e interroga.

 

O íntimo é a política que enlaça escrita e arte, uma viagem nas profundezas secretas que sustentam esse espaço, uma metapolítica, que decifra os vestígios e os signos que dão testemunho da verdade.

 

A arte e a escrita podem salvaguardar a dimensão do intimo. Íntimo que, aprendemos com Blanchot, é estética do fragmento em que cintilam e reverberam resíduos. Íntimo como efeito de um tipo de inscrição no mundo, de onde pode irromper a fricção que faz a existência vibrar, espaço dos fulgores, de contágio, de onde se escreve com o corpo as cintilâncias de uma intimidade esculpida no enigma.