O que pode um fio

Revista Caliban - Janeiro de 2018

O fio estendido ao infinito do corpo. O fio da navalha. O fio nervoso que conduz a pulsação, uma forma de sustentar, de pairar sob e sobre o mundo.

 

A linha traçada no movimento do fio denuncia a existência de um corpo, elástico e humano, habitado pela linguagem. O fio conduz o corpo à terra e à animalidade. É, também, nossa morada primeira: um cordão que nos liga ao ancestral, que permite respirar e nutrir, que engendra a criação de si e do mundo.

 

No fiar incessante e perpétuo encontramos linhas de fugas tão radicais quanto singulares, composições de brechas que possibilitam o movimento por outros e novos territórios.

 

No ensaio “Metamorfoses do Corpo”, o filósofo português José Gil ensina que o corpo não mente, ele resiste a esse desejo maquínico de descrição científica. Não há corpo que não seja vivo e ocupado pelo espírito.

 

No interior do campo psicanalítico o corpo pode ser pensado a partir de três registros, que são também fios que conectam o imaginário: corpo marcado como imagem; o simbólico, corpo marcado pelo significante; e o real, corpo como sinônimo de gozo.

 

Para falar do fio é preciso acessar esse “saber não-sabido” do corpo como lugar de onde emana o frescor, território da invenção que faz contraposição aos espaços de desertificação em que não há a possibilidade de um fio simbólico que sustente e enlace.

 

Um fio é também a conexão mais profunda com um certo burburinho da infância, rumor que secreta um corpo. Lembro-me de, antes do domínio da palavra, desenhar uma centena de fios entre garatujas infantis como se fossem uma tentativa de acesso, que acontecesse pelo fio. Depois, recordo-me de conseguir escrever em linha reta algumas palavras, como se estas passassem a ser sustentadas por algum bordado invisível, por um traço que começava a irromper. Em torno do fio-corpo-terra reuni algumas observações e uma constelação de vozes surgiram dos afetos, dos fulgores, das paisagens.

 

Escrever o corpo, escrever com o corpo: a rigor, um não difere do outro. Ou melhor, estão imbricados: à violência de um, o outro sempre responde — como se fosse lançado um chamado. Assim como sopram os versos de Manoel de Barros: Eu escrevo com o corpo. Poesia não é para compreender, mas para incorporar.

 

É assim, incorporando as palavras no fio do sensível, no traçado difuso e obsceno da letra, que encontro os movimentos de artistas bordadores, artistas do fio, da linha, da ligação visível entre matérias vivas em comunicação permanente e também da ligação interminável que o invisível efetua e irradia.

 

Imediatamente a imagem de um surpreendente artista brasileiro se sobrepõe: Arthur Bispo do Rosário. Interno da Colônia Juliano Moreira, onde passou grande parte de sua vida até morrer, Bispo do Rosário dedicou-se, sob as ordens de Deus, à construção do mundo, através de um trabalho em artes plásticas em que faz-se evidente o extenuante exercício com o significante, com a grafia e com a letra. Com a escrita em seu ponto de furo. Bispo não fazia mais que bordar pequenas imagens e palavras, pequenas imagens recobertas por linhas e palavras, coisas ordinárias do mundo cotidiano que ele renomeava, redefinia, relançava a ponto de dicionário. Sobre uma telha recoberta de linha azul, escreveu: “telha — cobre vossa moradia”. Sobre um pedaço de muro coberto de cacos de vidro: “Assim eu devo construir o muro que fica no fundo da minha casa”.

 

Lembro de Ana Mendieta, artista que, com suas silhuetas, encontra um fio conector ao corpo, uma borda que reinventa seu lugar como mulher. Há Leonilson, que introduz o bordado em seu trabalho conjugando delicadeza e transgressão. Ligia Clark com sua baba antropofágica em que fios de linha se reviram num dentro e fora a reescrever o corpo, as tripas. Ana Maria Maiolino que, por um fio, se liga a sua mãe e filha: três gerações ligadas por um fio de macarrão marcando a questão da transmissão e da identidade italiana.

 

Encontro também, em minha escrita, um fio ainda trêmulo que balança o impronunciável. Escrever é bordar, reduzir a narrativa ao ponto poético da palavra, encontrar o buraco por onde pode-se renomear as coisas e, assim, acessá-las em sua corporeidade, em sua matéria bruta.

 

O que borda a letra na escrita ou num trabalho visual? A letra borda justamente o furo, o buraco que suporta toda e qualquer construção simbólica, todo e qualquer signo. Em certa medida, a letra funciona, portanto, como uma sutura do buraco, ao mesmo tempo em que, ao suturá-lo, marca uma inscrição, um traço, sulcagem da superfície/corpo sobre a qual se escreve e se inscreve um sujeito, um artista.

 

Além disso, é a letra que faz a borda, o litoral, como ensina Lacan em “Lituraterra”: a letra como um fio que conecta o corpo e a terra.

 

Maria Gabriela Llansol também tem algo a dizer. Ela chega a marcar sua narrativa pela inserção de um traço horizontal na página — “o lugar do leitor”, “o lugar da palavra que falta” — como a querer apontar para a presença de um corpo — o seu corpo — no branco da página, uma linha, um fio: Eu faço aquele traço como para querer mostrar, de uma maneira muito concreta, que eu sinto mesmo que o traço irrompe, que tudo está ligado a tudo e que sem o tudo anterior não existe o tudo seguinte. A meu ver, aquele traço desloca-me em uma direção em que eu vou ser tocada fisicamente, porque o traço é um traço físico.

 

O fio tomado aqui em suas diversas formas é uma linha que situa a existência em uma sequência de pontos, um emaranhado de contingências que se desdobram, se enovelam e sustentam também a desmedida do impossível. Diz Giles Deleuze: “Tudo é uma questão de linha” — percursos, desenhos, trajetos, experiências e mapas que criam e recriam o mundo.

 

Penso estar vivo aqui, neste espaço, um exercício de experimentação de novos modos de fazer e pensar, uma espécie de fio ético do qual não devemos nunca desviar, ligação aguda do corpo com a terra, do imanente com o transcendente, do ordinário com o extraordinário. E é bom lembrar da linha que fala da função do artista e que, como lembra Ana Mendieta, não é um dom, mas um compromisso.

 

 

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