Rian Fontenele - Com as mãos nuas, o gesto no vazio

2017

 

 

(Ensaio escrito para “Ausência – Memórias ancoradas”, livro do artista Rian Fontenele – Fortaleza/CE)

 

 

Rian Fontenele está em muitos lugares e, embora sustente como gesto ético de resistência a singular relação que mantém com a pintura, há, no espaço da diversidade de sua pesquisa, o reconhecimento de uma multiplicidade colocada em ato na revisão de escolhas e tentativas, na busca laboriosa que acontece numa dispersão – rigorosa e vigorosa.

 

O caminho que se apresenta sistematizado neste livro aberto ao mundo faz entrever uma escrita como a informada por Maurice Blanchot em L'Espace Littéraire: “Um livro, mesmo fragmentário, tem um centro que lhe convoca: não um centro fixo, mas que se desloca pela pressão do livro e pelas circunstâncias de sua composição. Centro fixo também, que se desloca, se isso for verdadeiro, permanecendo o mesmo e tornando-se cada vez mais central, mais despido, mais incerto e mais imperioso. Aquele que escreve o livro, escreve-o por desejo, por ignorância desse centro. O sentimento de tê-lo tocado pode muito bem não ser mais que a ilusão de tê-lo alcançado”.

 

Por analogia, parece jazer aí o essencial do movimento de produção de Rian Fontenele: a entrega a uma busca por vezes desconhecida. O caminho dessa busca, seu procedimento, não se poderia desenhar, assim, em um trajeto retilíneo. O percurso descontínuo – pela pintura, xilogravura, pirografia, bordado, poesia – assinala a inquietação errante de um artista que parece saber que não se trata de alcançar um ponto programado ou um objeto final, mas que é no processo mesmo que se permite a abertura de um espaço autoral, gestualidade que convoca o que Blanchot conclama como o que “continua inexpresso em cada expressão”, ou ainda, “dispor da linguagem sob o fascínio e neste permanecer em contato com o meio absoluto, onde a coisa torna-se imagem, onde a imagem, de alusão a uma figura, torna-se alusão àquilo que é sem figura e, de forma desenhada sobre a ausência, torna-se a informe presença dessa ausência”.

 

A dimensão da sua autoria se assinala, então, de forma a rasgar no mundo uma marca, herança da formação em Barcelona, onde estudou gravuras em metal e desenhos japoneses estilo ukiyo-e – retratos de um mundo que encontra a flutuação na imanência da vida, na beleza feminina, no teatro Kabuki, nas paisagens e nas imagens eróticas. Cada gravura japonesa leva como assinatura um ideograma, a assinatura como um carimbo que condensa em si um gesto de redução essencial: um traço, uma escritura.

 

É dessa herança e fazendo disso transmissão, que Rian assina sua obra: um carimbo, uma marca que conversa com todo o seu trabalho, com sua pesquisa e com a operação de riscar que – como escreveu o poeta e ensaísta Paul Valéry, dedicando-se ao tema no livro Degas dança desenho – revela como o corpo está implicado na operação de traçar: “O artista avança, recua, debruça-se, franze os olhos, comporta-se com todo o seu corpo como um acessório de seu olho, torna-se por inteiro órgão de mira, de pontaria, de regulagem, de focalização”.

 

O pintor “emprega seu corpo”, diz Paul Valéry. Assinatura e obra: síntese de uma pulsação que se espraia entre desenhos, pinturas, xilogravuras, estudos, esboços. Feixe de funções que, no trabalho de Rian, desdobram-se numa concepção singular para além de uma mecânica funcional. Trata-se, sobretudo, de um composto, de um entrelaçado, um agregado de visão e movimento: a linha não visa constituir um contorno ou uma forma acabada mas, antes, ela se agencia com o vazio.

O vazio é seu ponto de apoio e é assim que a pluralidade do trabalho de Rian é aqui compilado: trata-se de assinalar a trajetória de um campo de questões que ganha expressão e força em diferentes linguagens.

 

A prática do artista não cessa de lembrar que a mestiçagem de substâncias – tão heterogêneas quanto o são a materialidade do corpo –, a imagem que deste se tem e o verbo nele enxertado, instituem entre corpo, imagem e palavra uma modulação potente que, em meio a tantos azuis, dos noturnos aos pálidos, dos negros a cinzas, aponta para algo que explode e levita em todos os seus processos.

Quando escava uma palavra na parede há algo de clareira e velamento: pele da alma, atividade silenciosa que se revela também na espera da secagem de um quadro, no som do ateliê, no gesto corajoso que contempla a noite, na luz que emana de uma gravura.

 

A obra de Rian não se entrega facilmente, exige contemplação. O mistério que ela porta contrasta com o conhecido do dia e porta a presença do inefável, reproduz-se em imagens envolvidas por uma bruma de “silêncio majestoso” – termo utilizado por Hannah Arendt para pensar o insondável da existência.

 

O rigor do artista comparece já desde os estudos e rascunhos. A presença do rosto nos esboços indaga, como o filósofo Emmanuel Lévinas, sobre uma ética a partir da alteridade, do rosto do outro como algo além da aparência, como uma epifania.

Suas pinturas são marcadas, também, pela presença de um lastro que opera pela síntese. A palavra articulada ao seu trabalho chega como convite à imagem: “a palavra tange a imagem em mim” – diz o artista.

 

E cada palavra nos faz mergulhar no silêncio, em um sutilíssimo lugar poético, no despojamento encerrado aí “com as mãos nuas” – como no poema de Orides Fontela, “mãos que desnudam a estrela essencial sem ter piedade do sangue”.

Mãos artesãs e alquimistas, que rasgam a palavra, a tela, costuram o pano, a linha, suturam o abismo, bordam utopias. Seus poemetos são janelas para imagens, passagens, possibilidades de não-artifício, ponto de real, núcleos de delicada resistência, presenças vibrantes no interior da obra, imagens-fulgor que se deslocam a partir de uma unidade mínima de vibração, alinhavando as bordas de um corpo em constante erosão e invadido por aquilo que a língua realiza.

 

Se a palavra é um eixo fundamental no seu trabalho, é no momento mesmo em que faz dela uma cena cintilante, em que a imagem resplandece, que o artista compõe figurações onde a luz difusa escorre em composições do vago e do preciso, espaços pelos quais o enigma se condensa e se derrama.

 

Neto e filho de artesãos, Rian encontra seu lugar movente na ideia de várias realidades concretas que se sustentam e se evocam ao mesmo tempo. Uma vida que se suspende para deixar passar outra vida que se desloca seguindo o ritmo do traço, da letra. Nesse alinhavo de tempos um ponto se destaca, um nó se desata e deixa ver – sobre o papel, na tela ou no corpo – a matéria silenciosa do poema. Seus poemetos tremulam na desmedida do impossível, entre a imagem e a palavra, no abandono da regra e confiando na ternura violenta da aparição.

 

Palavra como caminho para o corpo. Corpo que começa pelas mãos, que desenham com palavras, bordam no exercício dos dias dando a ver, no tecido do bordado, o corpo que se desfaz à medida que outro se faz – intrépido e corajoso – na grafia do invisível.

 

Por suas mãos somos conduzidos e seguimos os passos dos místicos, dos poetas, dos azuis que serpenteiam pelas margens do abismo, às margens de uma língua que risca um céu e toma os estilhaços da palavra, estilhaços de Paul Celan, fragmentos soltos, ideias sonhadas para compor algo que inflama a linguagem no desfiladeiro do sentido, no atrito do corpo que esbarra no céu da língua, na superfície da tela, na fricção do papel, na dilaceração do espaço livre.

 

Vestígio, sopro, diferença de intensidade experimentada numa queda, na dispersão, no gesto em que se perpetua a transmissão, na luz que rasga a madeira, na pintura iluminada pelo subterrâneo.

 

Suas xilogravuras, desenhos e pinturas nunca apresentam o fato consumado, mas a interrogação, a iminência de uma aparição, de algo da ordem do acontecimento. No entanto, especialmente as xilogravuras, nos atingem de imediato, como flashes fotográficos. Provocam um sobressalto incômodo, habitam um espaço incerto. Clareza e obscuridade, flerte com o abismal que não se oferta com facilidade, pois não há sedução fácil e estéril, mas uma mística tecida na experiência do íntimo e no silêncio, no êxtase que confirma a sombra como presença de luz, como na obra Elogio da Sombra,de Junichiro Tanizaki, no qual o branco serve para distanciar as coisas da sua natureza, num ritual de representação para que o real permaneça na sombra. O livro é também uma crítica a uma perspectiva de imagem ocidental ao “abuso de iluminação que esconde até a lua”, como afirma o escritor.

 

Algo de incontornável no sentido do desejo, a ancestralidade das coisas e dos corpos, o encontro inesperado do diverso. Muitas séries de Rian ganham nomes e contornos oriundos da poesia, como Estilhaços de Celan em que o artista performa um certo enfrentamento da condição de silêncio e de obscuridade, rompendo, a um só tempo, com um certo modo de criar, como na própria obra de Celan, na qual dizer e calar seriam, antes, os termos de articulação de uma relação que instaura o espaço poético e obscuro. 

 

Toda a obra de Rian se apresenta também como uma língua desconhecida, em que ele tenta apreender, a seu modo, sua respiração, sua dicção, ou como diz Roland Barthes, “sua aeração emotiva”, seu gesto próprio, a figuração esburacada pelo vazio. No entanto, em sua produção há algo de frescor, de leveza, de interstício, de aéreo, um trabalho de linguagem profundo de rasura dos códigos, nos quais cada signo é fundação de um novo mundo.

 

O gesto do artista é firme, mas não agressivo, no sentido da expressão nervosa de um corpo que subitamente pulsa. Rian captura a espontaneidade do primeiro gesto, que não pode, contudo, ser confundida com o gesto fácil, meramente impulsivo. É um gesto exato que incorpora o acaso. Sua mão, ainda que segura, lava a pintura e assume o perigo de perder a figura, ou seja, de fazer desandar sua estrutura. De seu gesto resulta um trabalho que oferece à visão o que ficou da pulsão. É, em síntese, um gesto que, investido de todo o seu corpo, deixa como rastro uma sutil e complexa operação da mão que, no mesmo movimento, se desvia do traço das convenções e busca uma nudez em que não há marca de fatura que indique hesitação ou arrependimento. Se há uma nudez ela comparece pelos vestígios.

 

Na incorporação do acaso à obra, lavando os corpos e deixando viver quase uma mancha como resto de uma paixão que não se oferta como resultado final, mas como precipitação, na rarefação de traços trôpegos em amplas superfícies, delicadeza e elegância que convivem em agudo atrito com alguma rusticidade e inacabamento, através de gestos que introduzem um desastre na ordem do visível, uma desfiguração, uma crepitação.

 

Rian é um artista que coloca a língua e a imagem a delirar ou, no dizer de Gilles Deleuze, “a sair dos sulcos, a abismar-se”, fazendo com que as coisas percam seu contorno, afundem, misturem-se, dilacerem-se. Os gestos que engendram todas essas obras não querem captar nada além do improvável. São exercícios de puro dispêndio, no sentido mais agudamente batailliano, operando assim uma crítica à produtividade, à adequação entre meios e fins. Seu poder de negatividade manifesta-se na ênfase no vazio, no silêncio, no infinito dos azuis, no alumbramento que é também assombro e tremor. O vazio, então, nos conduz atentos por um trajeto artístico singular, tecido na transmissão de uma humanidade que é a dimensão fulcral de uma obra que vive e ressoa dentro e fora da clareira, possibilitando o trânsito entre diferentes formas de linguagem, em um exercício alquímico em que se toca a matéria e a imanência das coisas e delas se extrai sua vibração íntima, a chama cintilante e furiosa do desejo.