Rivane Neuenschwander- No lugar do fantasma

Revista Select 34 - Outono 2017

Rivane Neuenschwander nos dá acesso ao mais corajoso dos gestos num artista: assumir-se junto de sua obra numa deriva que implica a dimensão humana, como algo insular e precário e, também, heteróclita força que se dá no intrincamento entre sujeito e cultura, complexa teia de onde nasceu O nome do medo, trabalho apresentado pela primeira vez em 2015 na Whitechapel Galllery em Londres. O projeto refletia, desde então, sua pesquisa e interesse na psicanálise e a tentativa de entender como o medo pode ser traduzido por meio de palavras, desenhos e objetos.

 

O nome do medo foi realizado, primeiramente, com crianças de 7 a 9 anos. Agora é retomado no Brasil, a partir de uma série de oficinas realizadas com crianças de até 13 anos no Parque Lage e no Museu de Arte do Rio (MAR), sob curadoria de Lisette Lagnado, de onde se estabeleceu uma fecunda troca. Das oficinas surge a exposição no MAR, que apresenta os trabalhos transformados em capas – elemento da indumentária que povoa o imaginário infantil.

 

Traduzindo o material produzido nas oficinas, o fashion designer Guto Carvalhoneto foi convidado, junto com a artista, a desenvolver capas a partir dos desenhos feitos pelas crianças. As capas apresentam-se com a dupla função de abrigar e afugentar o medo, como possibilidade de uma relação ética, que se expande para além do museu. O que se encontrará é uma condensação das questões processuais e conceituais do projeto, uma aposta de nomeação que convoca o simbólico: gesto singular que reverbera no comum e toca esse sentimento que vive à beira do indizível.

 

As oficinas iniciaram com uma roda de conversa, acompanhada de uma projeção que trazia referências de capas usadas em diversas culturas. Esse primeiro momento motivou o debate entre as crianças e o surgimento de uma interrogação ética que norteou o trabalho: como narrar e habitar nossos medos?

 

A resposta é esboçada num processo que se apresenta como um ensaio através de filmes, desenhos, bordados e experiências partilhadas, com as crianças construindo um lugar a partir de referências da arte, como os parangolés de Hélio Oiticica, o manto de Arthur Bispo do Rosário, o Divisor de Lygia Pape ou, ainda, na projeção de imagens de uma máscara de Sophie Taueber-Arp, de 1916, ou da imagem de Joseph Beuys enfrentando um coiote numa performance de 1974.

 

Neuenschwander afirma que trazer ao Brasil um projeto dessa natureza guarda diferenças da experiência realizada em Londres, já que a temática do medo é sempre atravessada pelo social e pela maneira única como a criança responde por sua experiência de mundo, inscrevendo aí seu traço singular.

 

A capa interessa como escritura derivada do desenhar, rasgar, colar, manchar. Não se trata, portanto, nem na psicanálise e nem na arte, de interpretar o brincar, mas de fazer surgir a enunciação velada, uma espécie de função mediadora de algo que se coloca no lugar do fantasma. Para Lacan, o fantasma é justamente o que promove certo enquadramento da relação do sujeito com a realidade, com seus objetos. Nessa transmissão, a criança se apropria de seu mal-estarde modo a transformá-lo, borrando os discursos, refundando o jogo de ausência-presença do objeto. A capa surge, então, como uma solução provisória que possibilita uma passagem do pequeno sujeito, mergulhado num abismo ameaçador, ao apelo que reveste e faz cintilar a vida.