Roberto Lúcio - O corpo e suas escrituras

2016

(Exposição “O corpo e suas escrituras” de Roberto Lúcio – Arteplural Galeria – Recife/PE – setembro de 2016)

  

É o corpo em vertigem que se apresenta nas fotografias convulsivas de Roberto Lúcio. O corpo que se deleita e transgride, que se esparrama por ser inesgotável e insaciável, que também se contrai e se contém num efeito de linguagem ou sob pequenos objetos a ele atrelados por uma fina película: gesto consagrado ao impossível, ato que  aponta para a possibilidade de uma experiência com a vida a se realizar fora do campo das injunções morais, mas na intensidade própria à convulsão e à vertigem, enxertando, na carne do outro, aquilo que há de mais heterogêneo, a mais excêntrica das paixões.

 

A obra de Roberto Lúcio é voltada ao impossível, à maneira de Georges Bataille, escritor francês que construiu um pensamento vigorosamente oposto às formas convencionais da existência.

 

Na narrativa de Roberto Lúcio encontramos a mesma potência dos escritos battalianos, que invocam a subversão das formas de vida ditadas pela convenção. Para Bataille, somente por meio de gestos extremos o homem pode ser arrancado do regime da racionalidade, unicamente pela violência a humanidade pode romper com os imperativos adaptativos que regulam a vida.

 

Roberto Lúcio caminha pelo território do feminino e pela indefinição engendrada no corpo de mulher, exaltando a autoridade da carne e das pulsões, demonstrando a artificialidade da razão em relação à força imperativa do deslimite. Sua obra revela imagens que se precipitam e atropelam nosso espírito, trazendo à flor da pele um arrepio diante de um elo estranho, enigmático, restabelecido pelas fotografias que lembram o que há de indócil numa mulher.

 

Seu trabalho se funda na experiência das intensidades do corpo. O que ele captura, com seu olhar agudo, são invasões da contingência na corporeidade que ele mesmo acaba por reinventar, ao sulcar na carne um traço sutil pela tinta que se mistura aos seios, por bolas de gude que sugerem um novo caminho, por pequenos objetos que parecem ser extraídos do cerne do enigma do corpo feminino.

 

São fotografias que revelam que invocar a vida é, também, flertar com a morte. Na dimensão turva do sexual ele escreve poemas cifrados no corpo de mulheres entregues ao olhar do outro, reavivando a máxima ética de Jacques Lacan: não ceda em seu desejo. Nessa tensão surge também a injunção de Bataille: pensar tudo a ponto de fazer tremer, de ir o mais longe possível – até onde os opostos coincidem, onde a dor infinita se transforma na alegria da mais elevada bem aventurança, onde a intensidade do gozo erótico encontra a morte, onde a santidade se sobrepõe à dissolução extrema.

 

Sua superfície é um corpo vivo, porém pulsante e oscilante, carregando a marca do impossível -  termo usado por Bataille para a experiência da transgressão, a qualificação de Lacan para o real. Essa ânsia de ir até o fim, até a vivência extrema do impossível como única maneira de ser autêntico, faz de Bataille o filósofo da paixão pelo real.

 

Nas fotografias de Roberto Lúcio, o elogio ao inaudito e às figuras do desmedido funcionam como ferramentas preciosas no combate a ser travado contra a crença que supõe haver, no interior da imagem, uma verdade mais essencial e mais plenamente acabada. Sua série de mulheres são animadas pela paixão de encontrar o impossível: o corpo entregue como folha em branco para poemas, obtendo da palavra - por meio de delicadas violações -  algo que não seria entregue voluntariamente. Ao tomar o corpo como livro, o artista obtém um reviramento daquilo que há de mais firme e estável, encontro com o êxtase que encarna, tentativa de encaminhamento da experiência humana para além dos limites da razão e dos saberes petrificados.

 

A série O corpo e suas escrituras sustenta, na linha fina do desejo do artista, o êxtase que arranca o corpo de sua submissão ao cálculo e à lei da utilidade, instalando um lampejo do impossível.  Nesta perspectiva, a paixão pelo excesso, revelada pela transgressão de suas fotografias, pode realizar-se em toda a sua intensidade, para além dos limites impostos pelos códigos comuns.

 

As fotografias numa série vertiginosa não cessam de apelar para a mobilização das forças extáticas (absortas, enlevadas) da embriaguez e das pulsões e de movimentarem em seu núcleo a fascinação pelo brilho de êxtase que possuem o sexo e a morte.

 

O artista caminha numa via de acesso ao deslimite, via que conduz à paradoxal experiência do impossível – cujo ponto de chegada é a poesia em sua intimidade imprevista entre a vida e a morte. No livro A História do Olho, Bataille diz da fascinação pelo olho-objeto e, também, por suas muitas variações metafóricas e, ainda, da história do amor pelo corpo e pelas coisas do mundo. Ou uma história do amor à carne que se edifica “à beira do inenarrável”. 

 

No território trêmulo da sexualidade, a narrativa se desenrola perto do coração selvagem da vida. À maneira da escritura batailliana - dotada de extremo lirismo onde aquilo que poderia ser meramente a descrição de uma cena erótica resvala subitamente para a poesia - a obra de Roberto Lúcio também provoca uma ruptura momentânea da narratividade em nome da composição de certas imagens fulgurantes que embaralham os sentidos.

 

A fotografia aqui é, ela própria, fragmento de tempo, fragmento ilustrado de uma realidade condensada e inquietação e acolhimento de deslizamentos da pulsão. Para o filósofo Gilles Deleuze, não há diferença entre coisa, imagem e movimento. Nesse sentido, ver uma imagem, ainda que fotográfica, é transpor para a dimensão da vida sua realidade intrínseca, colocando a imagem em movimento.

 

Esse grão de estranheza que reside além da beleza e esse movimento que aponta para o êxtase, são as portas de entrada para a obra de Roberto Lúcio. Diante de O êxtase de Santa Teresa, escultura de Gian Lorenzo Bernini, disse Lacan: basta olhar para ela para saber que ela goza.

 

Embora seja uma experiência interna, o êxtase possui essa particularidade exterior: uma fisionomia. É um signo que joga com todos os efeitos de fundo e superfície. No extremo, também guarda parentesco com a nudez.

 

Toda nudez tem luz própria. Apesar de desgastada pela indústria do erotismo, a nudez nos desequilibra e mexe com os sentidos. Diante do nu ninguém é indiferente. O corpo nu, como o rosto extasiado, são telas de captura do olhar. Diante deles o olhar é acionado e, com este, todo o mecanismo do espírito. A diferença é que a nudez não tem rosto e o êxtase não tem corpo, a despeito de sua imagem corpórea. Não por acaso, Roberto Lúcio faz uso da estratégia de não revelar o rosto de cada mulher. Sua poética pode ser pensada nas arestas de uma estética em que se cruzam diversas táticas de revelação: mostra-se um recorte justamente para tensionar uma ideia de totalidade imaginária de corpo.

 

Na estratégia de um rosto que não se revela também encontramos a dimensão do suplício - a verdade do suplício encerra uma beleza terrível. Desde seus primeiros artigos sobre o sacrifício, na célebre revista Acéphale, até seus posteriores trabalhos sobre o tema, George Bataille parece considerá-lo sob uma ótica em que estaria presente um constante desejo de transfiguração estética, que o permitiria ver na realidade cruel do suplício uma atividade na qual o gozo do olhar participa, elevando-o a uma dimensão sublime.

 

Aquilo que Roberto Lúcio oculta é também fundamental em sua obra: aproximação aguda entre poesia, arte e erotismo, na presença de um véu que conduz o poético ao mesmo ponto que o impossível Se as lentes da arte deformam a vida é apenas para colocá-la sob foco, ou para criar suplementos sobre ela, como diria Deleuze, revelando o que há de sublime no banal, ou de transgressor numa frase, traço, pincelada ou impressão fotográfica. O arrebatamento é um estado que se atinge (ou antes, se é atingido por ele), com as pernas abertas ao mundo em pleno excesso que nos desconcerta e nos leva ao máximo da intensidade trágica, que é também a própria efervescência da vida: maldição e fulgurância.

 

No jogo duplo que se apresenta nesta série de fotografias - naquilo que se revela e no que se desvela - o que é dado a ver se perde na indefinição causada pelo estilhaçamento luminoso que se forma na retina, ou seja, se perde na indecibilidade do olhar mesmo. Por isso, o que se quer ver nunca está onde se olha. Em O corpo e suas escrituras, a visão é uma espécie de cegueira.

 

O que Sade sugere ao leitor em seus romances é mais ou menos isso: há coisas que exigem véus. Os véus são colocados exatamente para que se vejam as filigranas das relações.

 

Roberto Lúcio sabe depositar essa fina camada misteriosa sobre os corpos.

 

Em A Filosofia na Alcova, de Sade, Dolmancé se tranca com Augustin para realizar certas fantasias indescritíveis. Nesse instante eles se encontram numa zona de indiscernibilidade, onde o que importa é jogar com regras obscuras que escapam à lógica da visão.

 

Roberto Lúcio sabe capturar aquilo que desequilibra um corpo, aquilo que desestabiliza a imagem. Assim como Giorgio Agamben que, num contundente ensaio sobre a nudez, afirmou que é necessário recuperar a festa do pensamento pela inoperosidade: território da presença de um não-saber que ensina sobre a dimensão festiva e enigmática de um corpo, sobretudo de um corpo que se constrói ao redor do vazio.