Rodrigo Linhares - Deixar-se escapar pelo olho do mundo

Abril de 2018

 

(Texto escrito para a exposição de Rodrigo Linhares – Museu de Arte de Ribeirão Preto – Ribeirão Preto/SP – abril de 2018)

 

 

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,

e já quase adormecia, ouvi o que parecia

o som de alguém que batia levemente a meus umbrais.

Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais.”

 

(O corvo – Edgar Allan Poe – tradução de Fernando Pessoa)

 

 

 

Se há uma ideia de biográfico no trabalho de Rodrigo Linhares, ela é reinventada por jogos de visualidade e uma reinvenção de si, que articula em seu centro a dispersão do eu. Esse movimento acontece a partir da dimensão de um gesto que percorre sua obra, encontrando frestas no acaso para uma desfiguração poética e política.

 

Nesse processo se permite a abertura de um espaço autoral, numa gestualidade que convoca o que continua inexpresso em cada expressão. A presença do rosto indaga, como o filósofo Emmanuel Lévinas, sobre a questão da alteridade: é o mesmo rosto, mas o que se destaca é sempre outro rosto além da aparência, através de um grito, de uma deformação, de uma epifania ou mesmo do movimento de ocultamento da própria face.

 

Seus desenhos lavados buscam acolher o acaso na contingência dos espaços que vão acontecendo na desfiguração à beira do abismo, às margens de uma língua, na fricção do papel ou do próprio corpo que se contorce e se modifica no desfiladeiro do sentido, na dilaceração do espaço livre.

 

A questão da animalidade se efetua na intensidade experimentada no limite de uma violência e de uma transfiguração: o artista oferece seu corpo para se desdobrar em muitos outros de si, sobretudo na figura de um corvo que, na iminência de uma aparição, se presentifica nos gestos, na luz que vai encontrando contornos pela intensidade da água no desenho, esculpindo os subterrâneos de um corpo em transmutação eterna.

 

Como flashes, os desenhos provocam sobressaltos incômodos e o que se dá a ver é da ordem do acontecimento, precipitação que tremula na linha fina entre uma aparição e outra.

 

Alternando imagens de si que ora se misturam à figura de um corvo – que já se encontrava presente em exposição anterior em que Algorab fazia referência à nomenclatura, em árabe, de uma estrela localizada na constelação de Corvus – aqui ele se presentifica como a possibilidade de uma convocação, a exemplo do poema de Edgar Allan Poe, em que, certa noite, um sujeito recebe a visita de um corvo. Este só emite um som – “nevermore” – palavra enunciada ao fim de estrofe e que, a cada vez, ganha novo sentido. A repetição, longe de se tornar monótona, instaura uma progressão desnorteante cheia de consequências, assim como as imagens de Rodrigo Linhares, que habitam um espaço incerto, entre a clareza e a obscuridade, flertando com algo que não se oferta com facilidade, entre texturas inexatas, intimidade, ruído e silêncio, numa espécie de êxtase que confirma a sombra como presença da luz.

 

Se na presença da imaginação popular a figura do corvo se situa como representação do mau agouro, aqui há também o macabro em sua função de suscitação do desejo no sentido da recriação perpétua.

 

É preciso, então, que o artista se transfigure em corvo, arranque a própria pele transmutando o inumano e o indizível em qualquer coisa que pulse para que isto seja uma saída, uma forma de contornar o vazio, já que este não se evita. Assim como Poe, ele encontra a possibilidade sublimatória que o salva contingencialmente.

 

O corvo vai encontrando espaço por inquietude, abertura e estranhamento: a ave não revela nada menos, seja por equívoco ou desvio, que uma “verdade” fundamental, impossível de ser dita de outra maneira, ponto de contato entre os possíveis do imaginário e o impossível do real: no poder poético de um voo,  no apelo da imagem que é um convite para que  possamos sair de nós e nos movermos no abalo de garras, bicos, asas, olhares, fazendo ressoar a aparição da bruma, primeiro através de fotografias tiradas de maneira espontânea nos espaços de trabalho do artista, seguidas dos  desenhos que, depois de feitos, são lavados para encontrar o que ficou da pulsão, a mancha e a crepitação da imagem.

 

No exercício alquímico que captura o desastre na ordem do visível, o artista vai assumindo riscos, colocando sua imagem a delirar, saindo dos sulcos, abismando-se numa experiência de efeito intenso e desconcertante.

 

Há nessas obras uma abertura ao real que afirma uma beleza terrível como em Rainer Maria Rilke, para quem “o belo não é senão o início do terrível, que ainda suportamos, e admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos”.

 

Entre um desenho e outro, silêncio e tensão. Na fotografia central da exposição, um reviramento da imagem. No trânsito entre elementos, a criação de um efeito de dissonância no sentido da beleza que acaba revelando, não somente um novo espaço e novos corpos e signos mas, principalmente, os efeitos de algo que se deixou corromper. Daí o sentido de “beleza terrível” que comunica algo que a potencializa, e também a ultrapassa.

 

Em George Bataille, a beleza é um objeto que invariavelmente pede para ser profanado, deformado.  A beleza é a corrosão que vive entre o infernal e o sagrado, o benefício e o crime. A beleza não é anódina, ela porta algo de indomesticável e inconcebível.

 

Há muitas camadas e uma estranheza que problematiza a ideia de autorretrato. Aqui “o eu é sempre um outro”, uma outra coisa: dentro e fora, ausência e presença.

 

No texto sobre a caverna de Lascaux, Bataille afirma que o homem nasce de sua obra, mas também é atingido de morte por ela. Origem e morte se fundem num recomeço que se inaugura em cada desenho, entre aparição e desaparição. Rodrigo Linhares não se oblitera na própria imagem. Ao contrário, insiste numa dimensão selvagem e anárquica que sempre irrompe: desde a origem da obra – nas fotografias, passando pela lavagem dos desenhos – até a montagem das imagens no espaço, formando uma constelação em que se afirma, tanto a presença da coisa, como uma suspensão que imanta tudo ao redor e de onde a imagem retira sua própria potência.

 

O rosto aqui é a humanidade radical: diferença e semelhança, algo que daí se separa ou é arrancado num golpe que visa o negativo das coisas. Assim afirma o artista: “Não contorno a minha cabeça. Eu contorno o vazio em volta da minha cabeça”.

 

E é esta a negatividade que se afirma como um Santo Sudário, na experiência de uma marca indelével, como uma dança louca e trêmula, que captura em cada metamorfose o movimento ziguezagueante e instável da vida em sua fugacidade e inquietação.