Sueli Ferrer - Lugares de menor resistência

2015

 

(Exposição “Lugar de menor resistência” de Sueli Ferrer – W Espaço de Arte – Ribeirão Preto/SP)

 

 

Percorremos a poética de um trabalho que preserva mundos, que reinventa ficções a partir de um espaço usado para encapsular o traço: o papel - envoltório que abriga diversas linguagens, inscrições e assombros.

 

De uma coleção de papéis e derivados, Sueli Ferrer desvenda a memória. São papéis diversos em seus desdobramentos: papel de seda, papel vegetal, papel jornal, de presente, envelopes, moldes, cadernos de costura, álbuns de fotografia, delicados papéis de arroz, antigos esboços de desenhos.

 

A busca por romper os limites do papel, mirando nos “lugares de menor resistência”, cria uma nova sintaxe visual. O essencial daquilo que está em jogo passa a ser esse território onde o furo na imagem se impõe como uma espécie de “espaço-entre”, isto é, algo que pode abarcar uma dimensão porosa, aberta ao imprevisto que pode advir do tempo e do espaço, evidenciando os “lugares de menor resistência” que foram marcados pelo uso, pela luz, pelos insetos, contaminados pela história.

 

A artista reúne uma infinidade de papéis que, muitas vezes, vêm de relações de afeto e/ou experiências vividas. Ela transforma o mundo à sua volta em um espaço próprio, cheio de encontros inesperados, objetos para colecionar e lugares para catalogar de novas formas. Observa detidamente aquilo que, para nós, parece invisível, e o transforma em foco de interesse por meio de diferentes operações. Ela o faz, por exemplo, quando se apropria do banal, do desgaste no papel, dos furos, das marcas do tempo e as ressignifica. Ou quando remove certos objetos de um contexto, ao qual supostamente pertencem, e os insere em um novo, alterando, por vezes, seu simbolismo.

 

Criando mundos desconhecidos, Sueli Ferrer desestabiliza o espectador e o posiciona em um novo lugar, com infinitos significados e diferentes experiências do “ver”. Sua aguda capacidade de observação cria verdadeiras poesias do cotidiano. Usando imagens tiradas de seu próprio mundo e do de seus familiares, a artista acaba por reescrever não somente sua história e a dos seus: ela destaca e expõe aquilo que deixamos passar – aquelas sutilezas que possuem potência para reinscrever e remarcar territórios.

 

Nessa intenção descortina-se uma vertigem de sensações fragmentadas, sobrepostas e justapostas e, assim como nas narrativas discursivas de seu trabalho, experimentamos, por meio das estratégias de corte e seleção, uma nova relação com o tempo e suas marcas indeléveis, marcas que carregam o perecer da matéria e a singularidade de uma inscrição.

 

O poeta e filósofo francês Gaston Bachelard disse que coisas materiais têm a capacidade de falar sobre quem somos, e é isso que parece se atualizar no trabalho da artista: uma espécie de escritura feita a partir de resíduos materiais; um lugar que se funda como um devaneio poético do próprio Bachelard; um ponto de ancoragem, a partir do qual o sentido derrapa e a linguagem se arranha entre livros e objetos. Papéis que poderiam ter sido descartados e, ao invés disso, foram cuidadosamente guardados por décadas – de 1980 a 2014 – deram origem ao projeto “História de Papel”, de onde se desdobram fulgores ao redor de tudo, tomados de maneiras distintas, seja pela cor, pela textura, gramatura, aparência, imagem ou significados outros.

 

Ao revisitar o material colecionado ao longo de anos, a artista observou as alterações sofridas pelos papéis, vulneráveis que são ao tempo, à luz, a fungos e insetos que pintam, desenham, recortam, criam degradês de sombras, escurecem, amarelam, furam e passam a ser a matéria prima e o próprio objeto de interesse ao evidenciar marcas que determinam a experiência da existência, experiência, aqui, no sentido evocado por Walter Benjamin, como algo que visa uma implosão do conceito corrente de história como uma sucessão de fatos lineares eleitos como história oficial.

 

Para Benjamin, a história é atravessada pelo singular numa retomada do passado e da tradição de uma forma renovada, não mais qualificada como reconstrução do passado, mas como uma fusão de horizontes entre todos os tempos, algo que só se mostra em sua fecunda abertura para a renovação da tradição.

 

Da herança familiar Sueli Ferrer reconstrói sua história, atravessada por outras histórias – contidas e silenciadas – contadas por papéis amarelados, manchados, rasgados, desbotados ou ultrapassados em suas funções. Ela se apropria do que existe, mas é relegado ao esquecimento, à destruição e ao desdém. Revisita vestígios criando novas camadas da experiência e da história, caminha por um sítio onde pode localizar o vazio. Escreve uma nova ficção de si: efeito chamado escritura, uma margem possível.

 

O papel é tomado em várias nuances e possibilidades, como esse lugar mítico, originário, e as marcas do tempo aparecem denunciando que também somos feitos do precário, das ruínas, do fragmentário, daquilo que se desgasta e perde a forma.

 

Pensar a memória assim é pensar com Baudelaire, para quem a memória é o grande critério da arte. Para o poeta francês, toda obra deve incorporar e evocar a memória de seus precedentes, o que é confirmado no trabalho de Sueli Ferrer – pelo componente afetivo, na procedência dos papéis, nas cores que o tempo, a luz e o uso produziram. Na inscrição da memória que mancha, rasga, amarela, dobra, amassa. Na poética de mirar a sutileza, na transparência dos papéis sem cor, no valor cromático produzido em degradê. Na pureza de brancos e neutros que compuseram algumas obras, como os livros de histórias envelhecidas, veladas, apagadas. Em colagens e objetos, frutos da experiência sensível de uma artista que não recua diante dessa espécie de herança sustentada nos lugares que essa menor resistência torna evidentes.

 

Desses resíduos e vestígios, desse rearranjo de mundo, as experiências estéticas e sensíveis que o trabalho desencadeia são viagens que arejam a vida, criam folgas, falhas e brechas. São linhas de fuga que põem em curso outras rotas, que tornam possível outra nova existência.

 

Deslocar – ou deslocar-se – é um procedimento usual da artista. Ou, melhor, de um modo artístico de viver, no sentido da recomendação feita por Nietzsche de tratar a própria vida como obra de arte, como experimento estético. Para o filósofo, a história é o oposto da arte. Ele trata a memória não como relíquia investida de sagrado, mas como algo absurdamente humano - assim como evocado no trabalho da artista. Por isto, as operações criativas evidenciadas nas obras da exposição Lugares de Menor Resistência abrigam, em seus procedimentos inventivos, deslocamentos que corrompem, usurpam, arrombam ou, simplesmente, ignoram a memória linear e instauram uma maneira fluida, porosa, instável, que pode vislumbrar pequenas vibrações nas arestas do real – esse espaço em ruínas onde tudo se contamina e se deteriora.

 

A pesquisa da artista considera que a imagem, enquanto linguagem, não é transparente. Assim, ela não busca sentidos secretos, mas indícios que estão na superfície. Ela produz conhecimento partindo da imagem como detentora de uma espessura semântica, que lhe confere materialidade própria e significativa, concebendo-a em sua potencialidade discursiva.

 

Sueli Ferrer sobrepõe fragmentos de papel, fazendo resultar uma camada espessa de “enunciados imagéticos” que se interpõe engendrando memória e esquecimento. Em seu projeto, vemos a busca incessante e desejante de trabalhar o papel em estado poético. A linguagem - e o suporte em estado processual, em ação permanente em todo o processo da obra – é composta tanto por elementos físicos e tangíveis, quanto por ações experimentáveis, pelo metafísico e pelo conceito que dela emana, e cria, dessa forma, uma poética singular pelos significados latentes: materiais feitos para circulação e com pouco tempo de vida são transformados em objetos perenes. Diz a artista: “Todos apareceram casualmente na minha frente. Fico sempre pensando em como ordená-los de uma nova forma”.

 

Na produção de objetos que tratam de histórias esquecidas, veladas, marcadas, esmaecidas, guardadas e outros, o que não passaria de sucata, material de descarte pelo desuso e inutilidade, transforma-se em matéria de reflexão e de reinvenção de si. Papéis e histórias se confundem, na criação de outras novas histórias. O papel em branco é campo de muitas possibilidades de reescrita, para além da herança familiar. É como na sentença que Freud empresta de Goethe: “Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu”.

 

No sentido mais benjaminiano, Sueli Ferrer é uma artista alegorista. Seu trabalho tem como ponto de sustentação a “tarefa de pentear a história a contrapelo”. Um contar e reescrever a história sobre o referencial das ruínas, de uma certa catástrofe que denuncia e coloca em evidência o que nos fura como humanos. É o nosso próprio corpo que se desdobra em seus papéis. E a artista o faz com delicadeza rara, buscando seus próprios “lugares de menor resistência” para reescrever as utopias silenciadas e construir um sentido ético e estético dessa memória soterrada.