Trauma e mal-estar na invenção de um contemporâneo na arte brasileira

A respeito de “O mal-estar na arte brasileira, texto de Christian Dunker – Revista Caliban - Outubro de 2016

O texto “O mal-estar na arte brasileira”, de Christian Dunker, abre a possibilidade de um diálogo fecundo entre a arte e a psicanálise, ao suscitar questões importantes como a dimensão do traumático na arte contemporânea brasileira, e o mal-estar enquanto índice de algo irrepresentável, ou, em última instância, inominável, de um acontecimento.

 

Se, por um lado, o título do texto pretende evocar 'uma' arte brasileira, por outro, talvez seja pertinente ressaltar que Dunker fala, especialmente, de artistas que se situam no contexto do que chamamos de “arte contemporânea”. Neste sentido, cabe, portanto, solicitar a pergunta que se faz no limiar da lição colocada pelo filósofo italiano Giorgio Agamben enquanto ponto de partida para se pensar “o que é o contemporâneo?”, qual seja: de quem e do que somos contemporâneos?

 

Agamben afirma que “pertence verdadeiramente ao seu tempo aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo”.

 

Em seu texto, Dunker nos convoca a procurar as raízes de nosso contemporâneo assinalando uma espécie de intransparência do contemporâneo em relação a si mesmo e destaca que devemos “renunciar ao mito de que pertencemos a nosso próprio tempo, pois no trauma estamos depois e antes de nós mesmos”.

 

A partir dessa valiosa contribuição, a ideia de “arte de hoje” atrelada à ideia de contemporâneo é profundamente desestabilizada e se coloca em tensão perpétua junto do real lacaniano: esse ponto incapturável de onde só se pode inventar algo enquanto letra, ou seja, na criação de um artifício para lidar com a impossibilidade de tudo dizer e tudo representar. E é justamente nessa injunção que a proposição com que Christian Dunker finaliza o texto, evocando o mal-estar como “o descompasso entre o Brasil e sua própria capacidade de representar-se para além de si mesmo”, traz inquietações e perguntas.

 

Há diversos artistas brasileiros que, acredito, mantém no centro de suas produções uma ideia de real como “instante ou acontecimento puro” ou do trauma como o imprevisto e como aquilo que se apresenta sempre como extemporâneo e intempestivo.

 

A título de exemplo e não de ilustração, trago para a discussão José Rufino, um artista que assume para si a tarefa de desbravar esse universo violado: neto de um senhor do engenho, faz uso de cartas, anotações, mobiliários do universo de sua infância em Areia, na Paraíba. Dessa marca cravada em seu corpo e das lembranças de seus pais que, ao contrário do avô, eram comunistas, o artista irá constituir seu trabalho. Ele encontra na dissonância de vozes que o fundaram como sujeito, o chão e o salto de onde irá assumir uma busca e uma invenção que não aplainam o turvo da existência.

 

Na contundente obra Plasmatio, Rufino resgata a memória dos desaparecidos durante a ditadura militar ao agrupar cartas e documentos de vítimas, doados ao artista por suas famílias, e sobre elas sobrepor os corpos desfigurados pela tortura, representados por um desenho feito com a técnica de Rorschach, numa espécie de sudário que preserva, em partes, o conteúdo das cartas, sem que possamos decifrar tudo aquilo que se encontra fraturado de partida. No entanto, a mortificação e o silenciamento impostos pela ditadura aparecem no que rompe o semblante e na invenção de um artifício como forma de lidar com o real.

 

No seminário sobre a ética da psicanálise, Jacques Lacan compreende a sublimação como uma tentativa de reorganizar algo em torno do vazio deixado pelo objeto perdido. Esse vazio é reconhecido pelo psicanalista como das Ding, a Coisa abordada por Freud no “Projeto para uma psicologia científica”. A Coisa é o que resiste a qualquer tentativa de significação ou de representação, é o lugar vazio. Ela é, em sua essência, irredutível a uma imagem. É, por assim dizer, a própria inexistência do objeto.

 

Rufino não evita o vazio. Ele o expõe de maneira lacaniana, ou seja, na contramão da ciência ou da religião que, segundo Lacan, preenchem esse vazio com o autoritarismo de seus discursos. A arte captura o objeto na medida em que não nega a Coisa. Isto quer dizer que é na arte que o objeto que falta pode existir. Em última instância, a obra de arte constrói uma borda em torno desse lugar vazio que é também definido como real.

 

É nessa “circunscrição da Coisa” que encontramos Plasmatio: uma instalação de diversos formatos, sempre amparada em móveis de escritório, carregando os últimos vestígios das vítimas, que não são expostas isoladamente, mas como totens monumentais amparados pelo próprio aparelho da burocracia oficial utilizada pelo sistema político e pela sociedade.

 

Indício do real ou objeto criado em torno do vazio: o artista não apaga a Coisa, ele a conserva no centro de sua criação. A mancha negra corporal na obra de José Rufino dá notícias de algo incapturável, que só se toca pelas bordas.

 

Avançando em seus estudos, Lacan aponta a arte como aquilo que permite o encontro com o real ou com a ferida aberta e pulsante da existência. Essa dimensão da ferida aparece em vários trabalhos de José Rufino. Num movimento que tenta capturar a espessura das coisas aparentemente inanimadas - malas, papéis antigos, cadeiras, gavetas ou pedras coletadas dos locais de atuação das ligas camponesas - como na obra Lexicon Silentii, o artista se lança ao gesto poético e político de tentar fazer falar os objetos a partir do contexto social e histórico de onde foram subtraídos.

 

O que se destaca em sua obra é uma espécie de grito mudo que segue provocando ruídos, grito ancestral que emana dos restos e rastros de objetos que abrigam em seu seio alguma coisa que não cessa de dar notícias sobre uma pulsação incomensurável que está no real, na violação e presença marcante de uma memória que, partindo de algo absolutamente singular caminha para um abcesso comum em carne viva. Do imaculado silêncio de pedras e objetos, Rufino faz aparecer a dimensão da mancha: ponto de presença daquilo que não é de todo figurável, que desestabiliza territórios e funda um gesto político que reinventa uma pátria.

 

 

 

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