Uma exposição: o inconsciente é Baltimore, ao amanhecer

Abril a Junho de 2018

(Texto escrito para a exposição “Faça você mesm_ – um guia de leitura – 1/20” – Rio de Janeiro/RJ – abril a junho de 2018)

 

 

Como mostrar a fratura exposta de um contemporâneo escondido sob roupagens que denegam a complexa estrutura inconsciente que nos rege? Uma exposição, hoje, deveria invocar o real fazendo um retorno à poética de maneira aguda.

 

Então, eu começaria com Jacques Lacan e uma imagem esplêndida e evanescente: “Quando preparava esta pequena fala para vocês, era cedo pela manhã. Podia ver Baltimore pela janela, e era um momento muito interessante porque ainda não era dia e um sinal luminoso me indicava a cada minuto a mudança do tempo; (...) tudo que podia ver (...) era o resultado de pensamentos (...) nos quais a função desempenhada pelos sujeitos não era completamente óbvia. Em qualquer caso, o dito Dasein, como definição do sujeito, se encontrava lá preferencialmente nesse espectador intermitente ou em desvanecimento. A melhor imagem para resumir o inconsciente é Baltimore, ao amanhecer”.

 

Lá pelos idos de 1966, na cidade portuária de Baltimore, Lacan enunciou poeticamente que “o inconsciente é Baltimore, ao amanhecer”. O uso dessa imagem parece conter a centelha flutuante de um tempo que já anunciava outras formas de visibilidade, uma maneira outra de articular imagem e palavra. Neste tempo onde tudo já foi exposto, há nela um enigma, um despertar marcado por um sentimento de perda e por uma ausência de si mesmo.

 

De Baltimore aos morros cariocas: qual seria a imagem do inconsciente?

 

Uma “definição poética do inconsciente”, uma “poética pulsional”, uma “heresia poética”, uma política – a política do inconsciente: esta que deve ser retomada na cidade, nos espaços expositivos, na vida. 

 

Na marca da forma perdida e nas ruínas arqueológicas, Freud encontrou um modo de apresentar o inconsciente como um sistema organizado, que comporta um silêncio, “uma reserva, um branco, uma margem de onde o texto poderia ser decifrado”. Com sua definição poética do inconsciente, Lacan se inscreve nessa perspectiva freudiana da referência à cidade. No entanto, elege uma cidade do Novo Mundo, ausente da cartografia clássica da psicanálise, e acentua sua relação com um tempo de menor profundidade, um tempo de superfície.

 

O inconsciente é Baltimore, ao amanhecer. 

 

Uma exposição seria uma convocação aos artistas para buscar, no abismo da imagem e do inominável, a palavra derradeira que adormece em nossos tempos. Para além da imagem, a Baltimore ao amanhecer de cada um.