A função utópica da palavra

(Ensaio sobre “O arco e a lira” de Octavio Paz – Revista B on-line - 2013)

 

Subverter a linguagem, habitar o espanto, valorizar a função utópica da palavra: é assim que Octavio Paz nos apresenta a dimensão poética no belíssimo livro O ARCO E A LIRA. A poesia mostrada como um território onde se pode reconciliar vida e morte, dando potência de vida ao morrer e consciência da própria temporalidade ao viver.

 

É notável a articulação entre mito, poesia, temporalidade e história, num pensamento que busca, na tensão dos opostos, a chave-mestra da poesia que cria e recria a linguagem, reconfigurando, através dos múltiplos sentidos que emergem da palavra viva, uma ética e uma estética.

 

Um espaço vazio de uma significação pronta como o próprio núcleo do fazer poético: assim, a poesia – em seus limites, em suas possibilidades, na sua relação com o real – pode possibilitar esse trânsito entre a vida e a morte aberto ao enigma, ao imprevisto, ao inesperado. Como um monstro de feição janusiana – um deus de duas faces -, pode nos possibiltar uma passagem e abrir uma porta na dureza das coisas. Ao viver de sua ambivalência – metade luz, metade sombra, metade natureza, metade artifício, metade gente, metade coisa – a poesia pode instalar um sentido novo ao tempo. A arte de escrever um poema se torna um corpo-a-corpo com o tempo e o poema se torna o próprio tempo que sobrevive a si mesmo.

 

Para Lacan, o próprio homem é o significante da linguagem, aquele que traz o sentido à fala, não sendo esta atrelada ao significado, a uma representação direta da realidade. A realidade para a psicanálise é a psíquica, e não a factual. A linguagem, para a psicanálise, não é protótipo do mundo, mas um novo mundo, inconsciente, subjetivo.

 

Em Octávio Paz, essa compreensão se aplica à palavra poética. A linguagem, na poesia, rompe a sua qualidade comunicativa, deixando de servir apenas ao objetivo de representar a realidade, para expandir, transfigurar e transgredir qualquer aprisionamento da palavra. A condição da poesia é justamente o risco, o corte, o rasgo. Ela é um grito para além do sentido.

 

Paz aponta o poema “Un coup de dés”, de Mallarmé, como uma primeira tentativa de reconstruir uma figura do mundo a partir da dispersão dos fragmentos. Mallarmé inicia uma nova era na poesia moderna, em que o poema, ao mesmo tempo em que proclama a inutilidade e fracasso de qualquer intenção de fazer de si mesmo um duplo do universo, assume o temerário desafio de ser negação e afirmação do absoluto na linguagem.

 

O impossível de suportar, com Lacan, é o real – para o qual não existe significação. Real esse, tão próximo da poesia, que se utiliza da linguagem, mas sempre apontando para um registro não-verbal.

 

Mallarmé trata a palavra como matéria sem abolir o acaso. Através da poesia, em sua margem – borda, litoral – ele lidava com algo desse real lacaniano, algo que se apoia na letra, mas está para além dela, algo que transborda todos os sentidos prévios entre palavra e imagem, um resto que a palavra insiste em querer tocar.

 

No método criado pela psicanálise – a associação livre -, as palavras emergem como na poesia, rompendo o real, pulsionalizadas, vibrando. E o psicanalista, como o poeta, é instrumento da linguagem, que inicia o sujeito, nas artimanhas da linguagem inconsciente – este, fragmentado e disperso também.

 

Paz analisa o fazer poético em um tempo de desencantamento, no qual não é mais possível construir uma imagem do mundo orientada por pontos fixos. Entretanto, ele continua a apostar na poesia como forma de transcendência, de espaço de risco em que o encontro do homem com sua essência se torna possível, cabendo esclarecer que tal termo – essência – deva ser compreendido não em oposição à aparência ou existência, mas como um “fundamento” que se forja no existir e na constatação da própria temporalidade e contingência.

 

Temos, então, duas margens: de um lado, a linguagem da cultura (um acervo de possibilidades e combinações semânticas, estilísticas e sintáticas; a tradição literária e os modos de dizer) e, do outro, o silêncio, o inefável, o caos. A poesia será tão mais poética quanto mais permanecer nessa fissura instável, e intolerável, que é o espaço de uma violência contra a linguagem, violência que, como intuiu Bataille, é sagrada porque inútil, dispendiosa, excessiva, insignificante. Violenta porque investe contra os limites do interdito e abre espaço para uma festa transgressiva na linguagem. E religiosa porque pretende “saltar” para fora de si – da linguagem – em um movimento para a morte: para o silêncio do inefável.

 

Em um mundo sem pontos fixos , a poesia é palavra irmã do mito que retoma a tarefa de articular o inarticulado, recuperando uma experiência de sacralidade por meio da palavra.

 

E é em Octávio Paz que encontramos a afirmação do vivo da poesia:

 

O ato poético mostra que o fato de sermos mortais não passa de uma das faces de nossa condição. A outra é: sermos viventes. O nascer contém o morrer. O nascer, porém, deixa de ser sinônimo de carência e condenação; mal deixamos de nos perceber como contrários à morte e à vida. Este, o sentido último de poetizar.