Che Vuoi?

(Revista Caliban – 15 de novembro - 2016)

 

Em 1966, ao publicar um de seus escritos com o nome de "Subversão do sujeito e dialética do desejo do inconsciente freudiano", o psicanalista francês Jacques Lacan recorreu a um pequeno e antigo conto para estudar a questão do sujeito e o lugar do demônio como voz do desejo. Na trilha de Sigmund Freud - que também buscou na literatura de Goethe uma referência para suas análises através de Fausto - Lacan tomou por referência uma pergunta feita pelo diabo, num texto de 1772 escrito por Jacques Cazotte, intitulado "O diabo amoroso". Numa época em que predominava a afirmação do empirismo, o livro surgiu como um ato de coragem e contraponto radical, como uma corrente subterrânea que evoca as águas do fantástico, onde o diabo, como lugar do desejo que interroga e acossa, aparece travestido em Biondetta, uma bela mulher por quem o protagonista se deixa seduzir.

 

A partir do conto de Jacques Cazotte - na tradução primorosa de Camilo Castelo Branco, contida no livro "O deus odioso, o diabo amoroso" de Márcio Peter de Souza Leite - uma linha orgânica enlaça uma possível ação das desleituras (estratégia proposta pelo educativo do Frestas) e essa estranha e enigmática pergunta lançada a partir do citado conto, considerado precursor na literatura fantástica, de onde Lacan extrai a famosa expressão "Che vuoi?"(Que queres?), que vem ensinar sobre o particular do desejo diante do universal da lei.

 

O texto, em que o diabo aparece como portador de um saber sobre o desejo, pode ser considerado uma obra iniciática mas, se o tomamos na dimensão de uma possível articulação entre educação e psicanálise, podemos entender aí algo que inscreve uma zona de interrupção aos sentidos prontos e sustenta uma indeterminação.

 

A partir de um educativo que insiste em aberturas, desleituras e no inexistente como insistência, nada mais legítimo do que convocar o desejo. E a noção de desejo para Lacan passa necessariamente pelo "Che vuoi" demoníaco do conto de Cazotte.

 

Chamaremos de desejo aquilo que pode fazer corte na indefinida continuidade do real - o desejo como uma espécie de rasgo por onde o sujeito se constitui ao escapar do discurso do Outro.

 

Lacan dizia que a única coisa da qual se pode ser culpado, pelo menos da perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo.

O desejo é sempre conflituoso, na medida em que seus primeiros objetos são proibidos. Daí decorre que todos os objetos substitutivos de nosso desejo comportem algo de conflituoso. Dito de outra forma, o desejo pode provocar angústia, pois todo desejo na sua origem comporta algo de recusado pelo sujeito.

Mas, então, por que Lacan diz que podemos ser culpados por ceder de nosso desejo, se nós próprios o recusamos em alguma medida?

É que de qualquer forma somos responsáveis por ele. Mesmo que de maneira inconsciente, somos responsáveis pelo nosso desejo.

A partir de Freud, o homem se vê diante do fato de que não é soberano dentro de sua própria casa, que não é dono de seus motivos mais profundos e de que pode se enganar quanto ao sentido de suas ações. Diante dessa realidade, qual a posição possível do homem diante da questão ética que, segundo Lacan trata do juízo que o homem faz de suas ações? Como vimos, obviamente, esse juízo não pode mais deixar de considerar a questão do desejo, mesmo que ele seja inconsciente. Daí, a questão ética que coloca Lacan: “Agiste conforme o desejo que te habita?”

Freud buscou no Fausto de Goethe uma fonte para transportar o conceito do diabo para o campo da metapsicologia como o porta-voz do desejo. Da mesma forma, o conto de Cazotte recebeu um tratamento por parte de Lacan que manteve, recorrendo ao texto, esse lugar do demônio como voz do desejo – o que já em sua origem se apresenta como conflito a ser sustentado.

 

Pensar a educação a partir da psicanálise é apostar na ética do desejo: implica aceitar a falta, a dimensão do inconsciente, o erro, as aberrações, os equívocos e, principalmente, as múltiplas possibilidades de significações e as frestas, lugares onde rupturas de sentidos podem ir acontecendo. A condição desejante não pode ser universalizada, mas pode ser transmitida por desleituras e não por sentidos prontos, na disposição de pensar o impensável e se movendo em territórios inacabados onde se pode abrigar o ruído e o dissenso. É aí que surge "O diabo amoroso"- o diabo como resistência e desejo, abertura para o exercício do pensar, como fricção que convoca ao encontro e à potência do permanente devir.

 

A história se passa, resumidamente, da seguinte maneira: "Soberano" (o mais velho do grupo, que podemos interpretar como sendo o professor), um personagem central, leva Álvaro (o protagonista, rapaz jovem, que pode ser visto como o aprendiz, o aluno) e outros colegas até as ruínas de um templo pagão, lugar sombrio e silencioso, a fim de conhecerem o Diabo. Lá, Soberano faz um círculo no chão (o "círculo mágico" de proteção, dentro do qual estariam protegidos de serem pegos pelo demônio) e o preenche com alguns caracteres. Forneceu-se então, a Álvaro, uma fórmula mágica pela qual se evocaria Belzebu - o diabo.

 

O que, de fato, imediatamente acontece. O diabo aparece com uma cara horrível, no formato de uma cabeça de camelo e lhe pergunta, com voz estridente: Che vuoi? (Que queres?). Álvaro se apavora e indaga por que ele se apresenta "sob essa forma repugnante". O Diabo lembra que foi ele quem o chamou. Respondendo ao desejo do protagonista, que lhe ordena mudar de forma, o camelo se transforma em uma cachorrinha, depois em uma cantora e depois em uma bela, sensual e angelical ninfeta, a Biondetta, que passa a realizar todos os seus desejos. Imediatamente, as ruínas se transformam em um castelo. Qualquer vontade pode ser realizado por Belzebu.

 

O romance será marcado por essa dúvida atroz do protagonista: se Biondetta é ou não é o Diabo. Essa hesitação poderia ser entendida como “uma estratégia do desejo". A dúvida percorre a Educação em sua ambiguidade de se apresentar, ora na condição de Deus, que salva e redime, ora na condição do Diabo, que castiga e aniquila.

 

Álvaro não resiste e cede aos desejos de Biondetta de ter relações com ele. Ela pergunta se ele a ama e pede que diga a seguinte frase: "Eu te amo, Belzebu". Nesse momento, ela aparece novamente com a cara de camelo, a cara terrível que lhe pergunta: Che vuoi?

 

No conto há uma dualidade entre o saber (representado por Soberano, que ocupa um lugar de mestre-soberano) e o desejo (Biondetta). O desejo aparece entre os dois personagens como uma coisa escapável que, quando atingida, se transfigura. Assim, é possível pensar o diabo como portador de um saber. Saber o que não se pode saber, saber sobre a luz roubada aos céus da qual Lúcifer é seu portador, saber não sabido, saber do inconsciente.

 

Nesse momento tem início uma liberdade que não existia: a de se poder pensar o mal como necessário para a existência do bem. Liberdade da multiplicidade contra o império da significação única, o avesso daquilo que pode ser percebido em muitos educativos com uma leitura que se instala verticalmente e não dá espaço à subjetividade.

 

O diabo amoroso faz surgir, então, uma possessão educacional a partir do sujeito, de uma ideia de subjetividade, ele é esse que sustenta a radicalidade, que sustenta o avesso do discurso plano, que quer "formar sujeitos críticos e conscientes" - é aquele que chama a atenção para o que se resiste perceber, para aquilo que assombra. Um diabo que nos faz escapar de uma bondade essencial e destruir a própria visão de uma ascese educacional, de melhoria do homem, de redenção.

 

Em “Análise terminável e interminável”, Freud se refere a três profissões que considera impossíveis: governar, educar e psicanalizar. Elas representam, na teoria freudiana, diferentes maneiras de fazer laço, diferentes maneiras de contornar o impossível do mal-estar da linguagem, que não é capaz de dar conta de todo o real.

 

Se o trabalho do educativo está orientado por desleituras, podemos pensá-lo como movimento de acolhida desse não-todo que a linguagem comporta. Desleituras como leituras possíveis a desconstruir a linearidade das coisas, e como abrigo de todas as dimensões e nuances que estão em jogo no caminho do saber, como espaço para o infernal, para a desmesura, para mil fluxos e ambiguidades. Como um caminho que vai da impotência ao impossível freudiano.

 

O saber, aqui, não se mobiliza com a demanda do outro, mas com uma abertura para o desejo - esse que sabemos ser delirante, plural e nômade. Freud diz "do desejo de saber" como entrada ao sem sentido, que precisa se inventar e inventariar significações singulares e que não estão prontas. Essa diferença de postura, a partir também da figura do diabo amoroso, pode ser decisiva para se pensar um educativo como um esculpir de caminhos e não adaptação a um caminho.

 

A associação entre a história de Cazotte e a educação faz sentido quando percebemos que toda a trama do conto funciona no sentido de explorar o desejo de saber. Qual seria a natureza de tal desejo de saber, e o que ele implicaria? A educação, que não flerta com essa possibilidade do desejo, acena com a promessa de um saber que não quer saber, de onde se foge por meio do conhecer, porque o saber é diferente - significa se dar conta da falta, da impossibilidade de apreender tudo e abandonar a ideia de uma significação completa.

 

Fustigar a educação com o tridente afiado do diabo ou de seu martelo encantado, pode, no nosso entendimento, contribuir para potencializar o pensamento educacional - seja na dimensão da escola ou de um educativo. Cutucar o real lacaniano, entender que educar não é formar cidadãos conscientes, mas justamente acolher a dimensão inconsciente. Falar de um diabo amoroso pode ser uma estratégia ativa, que vivifica e potencializa o pensamento. O diabo amoroso como multiplicidade de significações implica na construção, customização e invenção de múltiplos estilos, na renúncia da alienação e na convivência entre diversos desejos. Ao promover desleituras tomamos o saber como uma barra à certa postura moral higienizadora que busca a beatitude, a docilidade e a conformidade.

 

Em termos psicanalíticos, nos defrontamos com uma alienação fundamental do homem frente à ignorância dos seus próprios desejos, que o coloca numa condição de condenado, a desejar muitas vezes o que não quer, ou a querer o que não deseja. Opacidade que, para Lacan, faz a real substância do desejo. Daí a pergunta dirigida ao Outro: Che vuoi?

 

Pergunta que vivifica o desejo e impede de se mortificar a multiplicidade de saberes possíveis que acontecem em diversos planos num trabalho educativo. O estilo infernal entra aqui como um estilo da diferença, que teria a função de promover a desterritorialização do pensamento da educação, fazê-lo ingressar na criação de uma nova educação. Criar estilos e estilísticas próprias, suportar os efeitos disso, virar do avesso, experimentar tudo o que é estranho e problemático no pensamento educacional - tudo o que, até agora, foi banido pela moral, ressentimento, niilismo cristão, fé no ideal, mesmo sabendo que pensar o inferno em um educativo é um exercício perigoso, porque é seguir a linha de fuga do vôo da bruxa, do passeio do vampiro, do andar sem rumo do centauro, do vagar infinito de todas as individualidades estranhas que povoam o mundo.

 

Um educativo em diálogo com um diabo amoroso pode inventar caminhos e pensar o impensável e o intratável, deixando florescer uma função como reflexão e não como lugar transmissor de saber, pode se libertar do culto à totalidade, bem como do maniqueísmo certo/errado, bem/mal, morte/vida. Pode fugir do pensamento único para tornar as singularidades possíveis, afirmar o múltiplo, multiplicar os devires, acolher o equívoco e a dimensão do inconsciente, reconhecendo a existência de uma falta impossível de tamponar. Tomado por esses pensamentos, surge uma educação inquietante e aberta ao inacabado, onde múltiplas significações podem emergir, fazendo com que certezas e verdades decaiam em um exercício interminável.

 

"O desejo do homem é o desejo do Outro", disse Lacan em vários momentos de seu ensino. No Seminário 8, sobre a transferência, isso é posto da seguinte forma: "O desejo, em sua raiz e essência, é o desejo do Outro".

 

O que quer dizer que é o desejo que nos faz encontrar com a dimensão da alteridade. Por isso mesmo, quando o sujeito se pergunta por seu desejo, o diabo amoroso usa a segunda pessoa.

 

"Che vuoi?", indagação feita pela cabeça de camelo - horrenda representação do diabo - é a questão que lança o sujeito pela via do desejo. O personagem do conto invoca o diabo em busca de respostas, mas este lança uma questão. Ao desejar, o sujeito se experimenta como Outro, sujeito desejante.

 

A pergunta faz o sujeito se confrontar com seu próprio desejo. No Seminário 7, sobre a ética, Lacan pergunta: "Agiste conforme o desejo que te habitas?"(8).

 

Lacan quebra a lógica inexorável de um automatismo que comanda tudo, no sentido em que, quando o sujeito fala, ele é, sem que ele mesmo saiba, meramente “falado”, ele não é o mestre em sua própria casa. O que, então, é o grande Outro? O mecanismo anônimo da ordem simbólica, ou o outro sujeito em sua alteridade radical, um sujeito de quem eu estou eternamente separado pelo “muro de linguagem?"

 

O caso exemplar é a divindade: o que nós chamamos “Deus” não é o grande Outro personificado, endereçando-se a nós como uma pessoa acachapante, um sujeito além de todos os sujeitos? O que temos aqui é um estranho sujeito que não é outro ser humano, mas o sujeito que se situa acima da interação dos indivíduos reais humanos – e o terrificante enigma é, claro, o que esse impenetrável sujeito quer de nós. Para Lacan, não temos que evocar Deus para experimentar essa dimensão abissal. Ela está presente no próprio ser humano. Invoca- se Deus lá onde não se quer pagar o preço do desejo.

 

A pergunta do Outro – que retorna ao sujeito do lugar do qual ele espera uma resposta de oráculo e que toma a forma semelhante a de um “Che vuoi?” - é a pergunta que melhor conduz o sujeito ao caminho de seu próprio desejo.

 

O sujeito deseja apenas na medida em que ele experimenta o Outro. O Outro não apenas se endereça a mim com um enigmático desejo, ele também me confronta com o fato de que eu mesmo não sei o que realmente desejo, com o enigma de meu próprio desejo.

 

Um cerne traumático estranho persiste: o próximo permanece em uma inerte e  impenetrável presença. Por essa razão, o “Che vuoi?” de Lacan não é simplesmente um questionamento como “O que queres?”, mas, mais ainda, um questionamento como “O que está inquietando você?

 

"Che vuoi" pode trazer ao educativo a vivência dos contrários, a impossibilidade do encontro pleno. Desejar é um verbo intransitivo - o sujeito deseja, mas não deseja algo propriamente. Das frestas que se rasgam, há um desejo de que o próprio desejo continue aceso, de que sua curiosidade se mantenha desperta. E então temos aqui um educativo que permite desejar intransitivamente e sustentar a inquietude inevitável que a arte traz.

 

 

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