Encontro com o precipício

2018

 

 (Ensaio sobre o poeta português Herberto Helder, publicado no jornal Estado de Minas, caderno Pensar – Belo Horizonte/MG – 5 de janeiro de 2018)

 

 

Como falar de um poeta tão obscuro e, ao mesmo tempo, de cortante clareza? Herberto Helder – nascido em 1930 na Madeira, uma ilha algures no Atlântico – é o maior poeta português desde Fernando Pessoa, da estirpe de Holderlin ou de Rilke, dono de uma poética violenta que extrai enigma das coisas elementares.

 

Um sujeito que recriou sua existência numa invenção poética da própria biografia, permanecendo nas zonas de um cotidiano de onde não foi afugentado o maravilhoso, na repentina desordem luminosa, numa espécie de motim com poemas assombrosos em que sustenta que “é preciso intoxicar-se com a paixão do perigo, desenvolver-se dentro dessa paixão”. Poemas que guardam em si a nobreza do indizível e os olhos de leoas maternas – essas insuportáveis coisas que nos contemplam.

 

Minha própria origem se mistura à poesia de um dos maiores poetas portugueses do século XX. Encontrei, no diálogo com meus antepassados, um poeta abissal que me segurou pelas mãos: “há que se pensar com delicadeza / imaginar com ferocidade”.

 

Em prosa ou em versos vigorosos e magníficos, Herberto Helder fala da ilha natal, das experiências-limite, das deambulações europeias, dos companheiros de jornada (Holderlin, Rimbaud, alguns surrealistas, alguns beats), mas está a falar sempre de outra coisa, contornando com delicadeza vulcânica aquilo que seria incontornável.

 

Trata-se de uma poesia articulada diretamente com sua jornada, desde as viagens da juventude até a vida adulta emissora do dissenso e na contramão do senso comum. Seu texto poético está abrigado em imagens oníricas de áspera beleza nos quais se consolida o verso livre e o experimentalismo. Mas, o que me arrastou para dentro da poesia de Herberto Helder foi a ideia de “ato biográfico” contrariando qualquer padronização ao acolher o inquietante de uma existência como ética.

 

Seu percurso nômade inclui ofícios como o de serralheiro, cozinheiro e meteorologista. A vida pulsante o leva a viajar por diversos países retornando a Lisboa em 1960 onde trabalha como redator, tradutor e bibliotecário. Nos anos 70 volta a viajar pela Europa já com seu nome sedimentado e com o mesmo prestígio do trio formado por Antonio Ramos Rosa, Sophia de Mello Breyner e Mario Cesariny, aos quais mais tarde se somaria Al Berto.

 

Não procurei por Herberto Helder. Foi uma topada corporal que estraçalhou meu mundo: ferida e curativo. Seu livro “O corpo, o luxo, a obra” abriu minha pele com o estilete da linguagem e encontrei em sua poesia a maneira pela qual decidi atravessar minha própria vida.

 

“A vida é um buraco negro com palavras ao redor” – falava ele da gênese, do abismo que há na matéria, no corpo, da loucura e da solidão numa poesia densa e brutal que paradoxalmente me fez enxergar na neblina.

 

Suas palavras chegaram como espasmo e abrigo, como convite hipnótico ao mergulho em minhas inquietações e perplexidades. Ao mesmo tempo que me colocava em movimento, não me oferecia solução alguma para as aporias do destino.

 

Embora exista essa indisfarçável presença biográfica, Herberto Helder foi um misantropo radical: não dava entrevistas, não recebia ninguém, recusou honrarias e prêmios. Sua vida foi destinada à poesia e o que interessava – dizia ele – estava ali, na sua maneira única e devotada de aproximar-se da realidade, através do poder da poesia de decompor a palavra do mundo.

 

Defensor de uma radicalização do discurso lírico, Herberto Helder subverte uma ideia de biografia como causa e efeito, contesta a cisão entre interior e exterior, fazendo de cada imagem que habita seus poemas uma possibilidade de deslizamento para outras imagens, numa exuberância textual onde cabem fragmentos diversos de vida, pulsação e anatomia.

 

Em 1971 e 1972 viveu em Angola como repórter e sofreu um grave acidente de carro que marcou seu corpo e sua poesia. Nesse período escreveu crônicas e artigos que faziam um curioso contraponto à ideia de um poeta místico, misterioso.

 

Falo, então, de uma topada com um sujeito surpreendente, de uma espécie de encontro com alguém “solar-subterrâneo”, que condensava em sua escrita – na prosa ou na poesia – elementos místicos, outros profundamente mundanos, astrologia, alquimia e cítrica ironia assinalando o ponto fulcral das imagens e colocando o próprio corpo em risco para fazer poesia.

 

Herberto dizia: “A pessoa é uma frase: astro rude cruamente encordoado entre as omoplatas”. Ou: “Como se a tua frase fosse um buraco brilhando até os pulmões, com o sangue e a língua na minha garganta”.

 

Sustentando um anonimato provocatório num mundo de exposição massiva, paradoxalmente revelou na poesia detalhes de sua vida. Era uma escrita exercida como caligrafia extrema do mundo, um texto apocalipticamente corporal que rompeu com uma tradição bem comportada da poesia portuguesa.

 

Disse, sobre o tempo que viveu na África: “Vi leprosos. Fui tocado por leprosos. Vi a guerra, a morte frontal – a minha morte – e vi desertos. Vi-me a mim próprio subindo, numa metamorfose exasperada, dos precipícios do pavor até às estritas regras da vida”.

 

De maneira alquímica escreveu a vida com poemas caudalosos, criando uma sucessão de imagens implodindo no interior da realidade. Origem, silêncio, escrita feita para devorar a biografia, para ser antropófago, canibal de seu próprio coração, para conservar o tremor no abismo do mundo, para combater pela palavra “esta força inóspita que corrói por dentro e extravasa pelo mundo como uma calcinação”.

 

Nunca deu entrevistas. Numa auto-entrevista disse da solidão planetária de um poema, sobre as turvações da inocência, sobre uma espessura inesperada e ardentes perguntas sem resposta. É nesse terreno movediço que ele se movimenta e, sob tensão criativa, escreve fabulosamente o mistério do mundo, perscrutando o enigma da água, uma água vasta e nua, uma água maternal, terror sagrado, absurdo: “o terrível possui a sua doçura oblíqua, uma lírica sumptuosidade, uma exaltação muito pura”.

 

Ele riu de todas as pretensões exegéticas com lucidez aguda, encontrou sua assinatura, seu nome próprio na poesia como uma maneira de lidar com uma perturbação que contaminava cada instante de sua vida. Na década de 1960 viajou para França, Holanda e Bélgica, lugares que se tornaram cenários dos contos “Os passos em volta” (1963), se interessou pelos textos cosmogônicos de tribos indígenas brasileiras e por um modo de viver que diz ter aprendido quando morou na África e chamava de “primitivo e essencial”.

 

Seus poemas são casas à espera de serem habitadas, conciliação de coisas inconciliáveis, escrita de uma língua materna carregada de poderes magníficos e terroríficos. O mundo começa e termina na sua poesia, ele é o tradutor de um idioma perdido que se queima em seu próprio lume. Erguendo-se fora e contra o ruído do mundo, fez raras fotografias acentuando o caráter extremo da poesia e sua inutilidade que pulsa nos desfiladeiros das coisas todas.  Para o crítico Eduardo Paulo Coelho, “a única compreensão possível dos poemas de Herberto Helder é a dança da própria inteligibilidade que se faz palavra a palavra”.

 

Topar, então, sem aviso na língua e, como Herberto Helder, encontrar “a inocência como uma condição insubstituível do escândalo”, “respirar o ar proporcionado como pura levitação”. Escutar “as vozes demoníacas, o abismo junto à dança”, “a noite que vai se insinuando a toda altura e largura da luz”, cultivar “um estado clandestino na ditadura do mundo” e lembrar das respostas-mantras de Herberto Helder para si mesmo na auto-entrevista que é um poema: “a inocência deveria ter-nos oferecido uma vida estupenda”. “Na verdade a inocência não existe, não existe o demoníaco, senão como partes dinâmicas de um poder”.

 

E, ao final, reconhece estar metido numa espécie de guerra santa ao afirmar de maneira sagrada: “a minha inocência é assassina”.

 

Um poeta que desaparecia no interior de sua obra e fez de tudo para erradicar a ideia de coincidir consigo mesmo. Foi cortador de legumes numa casa de sopa, viajou pela Europa, foi guia de marinheiros em bairros de prostitutas em Amsterdã, empacotador de aparas de papel. Viveu em cada uma dessas atividades uma poesia contínua.

 

Não respondia aos apelos do culto, parecia caminhar por um tempo imemorial, fora da nossa cronologia, no tremor secreto da palavra. Sua posição perante à poesia é, também, sua posição perante o mundo. Ao perfazer um poema escrevia um corpo para si: “Acordo de madrugada para ouvir a trepidação que se comunica de membrana a membrana, da madeira à carne. Divago pela casa, embriagado pela minha própria hesitação, pela curiosidade e cuidado a mim mesmo, e a incerteza das minhas falas, movimentos da obscuridade para fora, para a luz, o que espelho verbal que me responde nos lampejos do rosto devolvido atonitamente. Tudo trabalha à minha volta, íntimo, carregado. A terra pulsa sob um arco extenuamente liso. Enfrento este sonho da terra. O meu poder é obscuro. Desalojo dos labirintos da ciência uma fala essencial, cultivada pela ingenuidade. Empunho essa arma inocente, com ela atravesso o meu ser dúbio, o vocabulário das contradições. Talvez eu mesmo comece aqui, neste momento ignorante, onde se faz uma claridade inexplicável”.

 

Seus últimos livros assinalam uma inflexão marcada por uma ainda mais nítida dimensão autobiográfica, em que retoma algo da tragédia que foi a perda da mãe aos 8 anos, que o poeta sintetiza com fina e brutal delicadeza nos versos de “O sorriso louco das mães” no livro “A colher na boca”: “no sorriso louco das mães batem as leves gotas de chuva”. A figura materna associada à beleza, à loucura e à morte é uma imagem recorrente em sua lírica.

 

Um ano antes de morrer escreveu “A morte sem mestre”, como se soubesse que aquelas seriam suas últimas palavras. Sua poesia, segundo o escritor português Antonio Cabrita, é um coração que tem que ser comido com a mão.

 

Ele soube encontrar a dimensão do sublime num arrebatamento em que o demasiado humano se projeta, numa escrita cósmica que vai buscar a luz no arcaico, nos antepassados, na história e na cultura, na mitologia e na religião.

 

A beleza extraordinária de seus textos é, em si mesma, um ato poético de transfiguração do mundo e uma abertura para que o sujeito em sua solidão existencial e anímica possa ter contato e dialogar com o transcendente.

 

Em sua poesia não há separação entre o belo e o terrível. “A morte sem mestre”, seu último livro, é um exercício dilacerante de extraordinária coragem. E, mesmo quando a morte se coloca cronologicamente próxima, ele se recusa a ser roubado por ela, prefere desnudá-la um tanto sordidamente através da gloriosa matéria humana do que sustentar o mito que a pretende neutralizar.

 

Para Octavio Paz, a obra do poeta é sua biografia e, portanto, nenhuma fotografia nos dará uma imagem tão fiel de Herberto quanto suas palavras. Assim ele escreve uma vida pela arte/na arte/na poesia. Talvez baste uma coisa mínima, viva, uma coisa sub-reptícia, um esbarrão incontornável, a dimensão trêmula de um poema que, segundo ele, “de fora parece um objeto, tem suas qualidades tangíveis, não é porém para ser visto, mas para manejar”.