Escrever/morrer/renascer

(Revista Caliban – 08 de novembro - 2016)

 

Em A transitoriedade, Freud escreveu que o luto pela perda de algo que amamos é um grande enigma, um desses fenômenos que em si não são explicados, mas a que se relacionam outras coisas obscuras.

 

Em geral, nossa atitude cultural-convencional diante da morte não é franca: por um lado, sustentamos que a “morte é o desfecho necessário de toda a vida” e, por outro, manifestamos a inconfundível tendência de denegar a morte, até que o insustentável acontece: uma mãe perde seu filho recém-nascido. Assustada, constato que essa mãe sou eu.

 

E, então, como sobreviver a partir daí? Como domar a loucura que invade a mãe abraçada ao homem que ama e pai de seu filho, que acaba de escutar uma sentença irreversível: “Seu filho faleceu”.

 

Reduzida ao mais profundo silêncio e ao incontornável, segurei-me naquilo que tinha de mais precioso para não cair no colapso total e dilacerante.

Desfazendo o quarto de meu filho – uma semana depois de sua partida – percebi ali a estranheza de um eco vindo de um cômodo vazio. Preencher tal vazio seria da ordem do impossível. Decidi então contorná-lo e me coloquei a escrever.

 

Todos os dias escrevia e silenciava para ouvir um certo burburinho, um rumor que me marcava o corpo. Assim travei uma batalha para extrair do real que estraçalhava e, daquela paisagem desolada, o afeto e o fulgor que ensinavam sobre o essencial de uma vida.

 

Escrever o corpo, escrever com o corpo. Consenti com este contágio e quis fazer um memorial para Caetano: Névoa e assobio – um livro surgido do abismo dessa experiência, um livro que ainda não se sabia livro, escrito ao longo do primeiro ano de sua partida.

 

Com uma dor lancinante, ao mesmo tempo em que vivia a maior tristeza de minha vida, encontrei aí, paradoxalmente, a entrada na mística: consenti com o não-sentido e com a força da experiência que me atravessava.

 

No belíssimo ensaio “Erótica do luto – no tempo da morte seca”, Jean Allouch afirma que existem casos em que a morte de um ser querido parece abrir essa via de acesso à impossibilidade do objeto, de tal forma que o morto advém como objeto impossível, enquanto o enlutado se vê transformado, brutal e repentinamente, em desejante. Foi assim que a escrita se colocou a mim: como uma espécie de fúria desejante.

 

Jacques Lacan destacou que a perda de um “ser essencial” abriria um “furo no real”, produzindo uma desordem tal em que nada menos que a totalidade de elementos significantes seria convocada para dar conta desse rombo aberto na existência.

 

Do encontro com a mística, pude encontrar uma agudeza e uma fineza que só a aceitação da perda poderiam fornecer. Pude então recolher do horror da morte o grão de luz que dá sentido a toda uma vida, promovendo pela escrita uma topada no extraordinário.

 

Maurice Blanchot diz: “O Diário representa a sequência dos pontos de referência que um escritor estabelece e fixa para reconhecer-se, quando pressente a metamorfose perigosa a que está exposto. É um caminho ainda viável, uma espécie de caminho de ronda que ladeia, vigia”.

 

 

É da impossibilidade da escrita que Marguerite Duras nos fala em Escrever. Mas é também da escrita da impossibilidade que sua escrita diz: “Não se pode. E se escreve”. É também do nada – o nada que se opõe ao desconhecido que a escrita é capaz de alcançar, mas também o nada em que o próprio desconhecido, a própria escrita, consistem – que essa escrita fará ecoar: “Isto ou nada”.

 

À experiência do nada, minha escrita cotidiana aliou uma outra experiência, tomada em sua radicalidade: o amor. Amar a escrita. Escrever o amor. Escrever o nada que o amor é. Escrever o absoluto de meu amor pelo meu filho.

 

Amar o nada em que consiste o escrever e perceber, como em Marguerite Duras, que a solidão não se encontra, se faz. “A solidão se faz sozinha. Eu a fiz. Porque resolvi que ali eu deveria ficar só, para escrever livros. Foi assim que aconteceu. Eu estava sozinha nesta casa. Eu me fechei – eu tive medo também, é claro. E depois eu amei esta casa. Esta se tornou a casa da escrita”.

 

Segui nesse labirinto, nessa bordadura do vazio, na gagueira cega, na oscilação à beira do abismo escrevendo diante da palavra que falta, tocando pela palavra a graça e o absurdo de algo que está fora eque escapa sempre.

Hoje, relendo meu livro, o texto me murmura algo para além de uma enunciação individual feita no escuro das madrugadas: essa escrita se configurou como uma travessia de estranha densidade poética – névoa e assobio – produzindo um curioso entrecruzamento diferente do que comumente se vê – a obra como um reflexo, um espelho da vida mas, antes, como o seu oposto: a vida como um texto, uma escritura.

 

Essa escrita, feminina e guiada pelo enigma que se movia, foi atravessada por uma ética encontrada em Clarice Lispector: “Não quero ser autobiográfica. Quero ser bio”. Ou, de maneira distinta, em Maria Gabriela Llansol que parecia dizer: “Não quero ser autobiográfica. Quero ser grafia”.

 

No curso de um seminário de 1971, Jacques Lacan, inspirado pela leitura de James Joyce, indaga sobre os limites entre a Literatura e a Psicanálise e, a partir da escrita desse autor, cunha o termo lituraterra (lituraterre).

 

Fazendo um jogo quase que anagramático com literatura, Lacan propõe a noção de outro tipo de texto – aquele que Joyce terminara por alcançar, com sua língua própria –, que deslizaria da letter, letra, para a litter, lixo. Do radical latino litura – significando risco, alteração, mancha – e sua conjunção com terra, nasceria a lituraterra que Lacan visualizou na escrita de alguns escritores, como Joyce.

 

Curiosamente, em “Lituraterra” Lacan distingue com bastante precisão as noções de fronteira e litoral. Sob o impacto de uma viagem que acabara de fazer ao Japão, Lacan se apropria da imagem que, do alto do avião, entre as nuvens, se percebe: a planície siberiana, “verdadeiramente desolada, no sentido próprio, sem qualquer vegetação, a não ser reflexos”.

 

Uma imagem semelhante se oferecia a mim, naquele momento de minha vida: ali, nessa narrativa em que tudo participava da estranha paisagem da escrita, algo circunscrevia um espaço também desolado, sem qualquer vegetação, a não ser reflexos.

 

Ali, numa paisagem de restos de imagem, vazios de linguagem, desenhava-se um litoral, não uma fronteira entre a vida e a morte, pois uma fronteira – observa Lacan – é outra coisa.

 

Caminhei, assim, de volta à vida, reinvestindo aos poucos minha libido nas coisas, em direção aos litorais do mundo, nos limites tênues entre a vida e a morte, assimilando coragem da geografia rebelde que se apresentava no meu entorno. E, a partir daí, pude inventar não exatamente uma história – ou uma ficção, mas uma memória à margem da língua e no campo inundado antes pela dor. Pude me mover – agora, por encontros inesperados.

 

Catherine Millot, doutora em filosofia e psicanalista, que também escreveu obras autobiográficas a partir de sua análise descreve:

Trata-se da cessação da palavra interior. A escrita tem o lugar de mística nesse sentido porque promove o silêncio interior. O que pode haver de comum entre a escrita e a mística é a travessia da fronteira do sentido”.

 

É possível narrar o impensável de um trauma? Encontrar no tremor da existência o ponto onde a linguagem sai de si mesma, como fez Primo Levi?

 

Em “É isto um homem?”, seu primeiro livro, de 1947, ao pensar em Auschwitz, Primo Levi se defronta com o incompreensível. Não existem palavras que correspondam ao que viu e sentiu. Era exatamente assim que me sentia, diante do irrepresentável. Frente a uma experiência impossível de ser expressada em uma língua estável, escreve Primo Levi: “A nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, esta aniquilação de um homem”.

 

Jacques Aubert em “Um percurso da psicanálise à literatura”, traz seu contundente testemunho: “A morte aniquila o poder de representação das palavras. Revela sua insuficiência e impotência”. Para Aubert, após a experiência do trauma, o sujeito experimenta “uma catástrofe significante sem precedentes”. A linguagem entra em pane.

 

Então, por isso digo: foi preciso escrever com a linguagem saindo de mim. Distante de qualquer discurso de superação, trata-se de fazer com o insuperável, escrever com aquilo que não se pode escrever, estando à altura dessa convocação ética e sagrada.

 

Ao escrever, pude me situar além daquilo que não pode ser dito, como Catherine Millot ainda afirma: “É certo que o que gera a escrita é uma conversa interior, mas na hora em que a letra se coloca ali é como se fosse a cessação da fala interior. A letra escreve sozinha”.

 

Dos fragmentos cotidianos – espécies de murmúrios que capturavam a um só tempo o detalhe, o absurdo e o destino – pude balbuciar meu espanto e o intransponível dessa perda.

 

Escrever foi a única via possível de abrigar as intransponíveis zonas de opacidade e de, ainda assim, seguir.

Lembro-me de um sonho relatado por Primo Levi, em que ele diz desse grande nada: “Estou sozinho no centro de um nada cinzento e perturbador”. O sonho termina quando uma voz bem conhecida pronuncia uma única e terrível palavra: “Levanta-te”.

 

Também pude encontrar um lugar para isso que se apresentava como indizível. Pude me situar nesse choque entre a linguagem e o vazio e, ainda que não houvesse palavra correspondente, pude tatear com as mãos o mistério de uma vida.

 

Difícil transmitir uma experiência de travessia pela neblina, no campo da letra onde, como diz Catherine Millot: “Escreve-se o que não pode ser dito”. Para encerrar, recorro então à poesia de Herberto Helder: Já sei que a minha força está em saber manejar a minha fraqueza. Sou hoje uma espécie de campeão nesta estranha ginástica. Estou em ressurreição lenta”.

 

 

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