Escritas insignificantes

(Revista Caliban – 3 de janeiro - 2017)

 

Sentada à mesa, silencio para ouvir um som que secreta meu corpo: o atrito da ponta do lápis que risca a folha de papel. Como escrever sobre o insignificante sem esse gesto, a fricção com o papel?

 

Um traço irrompe. Dele, outra escrita surge numa nova paisagem, mantendo vivo o fulgor daquilo que se risca.

 

A ideia de escrita insignificante, aqui abordada a partir do convite do poeta Marcelo Reis de Mello – que reuniu em diálogo a arte, a poesia e a psicanálise – faz surgir ancoragens para o não acabado e o fragmentário que habitam uma obra e uma escrita.

 

É de imensa responsabilidade falar sobre o insignificante junto a quem conheça o traçado difuso e cintilante da letra. Estar junto de uma artista e um poeta exige participação ativa, abertura ampliada, vontade de engajamento numa busca misteriosa nas lacunas de uma escrita por onde entram vozes exteriores ao texto.

 

Em “Finita”, Maria Gabriela Llansol faz uso de espaços em branco, traços, silêncio, em alusão à ideia de escrita insignificante aqui invocada. Em Llansol o texto dobra, desdobra, duplica, mistura discursos numa construção labiríntica que concede voz ao inanimado e irradiação incessante. 

 

Na contingência de muitas escritas – do poeta, da artista, da psicanalista – a singularidade é impressa na diferença e também no encontro. Ao dizer de escritas insignificantes, podemos avançar além do mútuo e tocar o comum. 

 

Pensei, antes de começar a escrever: o que há aqui é um texto impossível – branco sobre branco – extenuante exercício com o significante, com a grafia e com a letra: escrita em seu ponto de furo.

 

Tremulante, busco escrever fora da impostura da língua, buscando o além da linguagem, o impronunciável, o real. Só assim – a partir da redução da narrativa ao ponto poético da palavra e da redução da palavra a seu ponto de letra – penso que se pode tocar uma materialidade evanescente, descascar as palavras e encontrar o caroço, o ponto de estilhaço e de poeira.

 

Sabemos, com Jacques Lacan, que a letra é ainda mais elementar que o significante, uma vez que ela se reporta ao escrito e ao que há de mais fundamental no escrito em sua redução ao puro traço, à pura inscrição, à sulcagem da superfície/corpo sobre o qual se escreve e inscreve um sujeito. Além disso, é a letra que faz a borda, o litoral – ensina “Lituraterra”, de Lacan.

 

E o que borda a letra? A letra borda justamente o furo, o buraco que suporta toda e qualquer construção simbólica, todo e qualquer signo. Em certa medida, a letra funcionaria, portanto, como uma sutura no buraco, ao mesmo tempo em que, ao suturá-lo, marca uma inscrição, um traço como um grampo no próprio lugar em que o afastamento se produziu.

 

Dizer de uma escrita insignificante parece ser uma condução da palavra até esse ponto de letra, até seu ponto de abreviatura ou mancha. O descascamento da palavra até sua consciência insuportável de silêncio: “o osso da ostra/a noite da ostra” como na poesia de Manoel de Barros. Ou ainda: “Sou a palavra ao ponto de entulho. Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las para o chão, corrompê-las”. 

 

Errar a língua, perverter a linguagem, injetar insanidade nos verbos para que transmitam aos nomes seus delírios e, exatamente aí, encontrar o indizível, o inominável, o real. 

 

Para além do significante – ou para aquém – o signo estanca o sentido em seu ponto de irredutibilidade: podemos dizer muito de um signo, mas não podemos dizer tudo. É onde reside seu ponto de insignificância, em que toda significação escoa. 

 

Aí também encontramos a arte, a poesia, a psicanálise: na palavra que ousa se desinvestir das camadas de sentido até o osso, como acontece na impossibilidade da escrita evocada por Marguerite Duras em “Escrever” que, na desmedida desse impossível, insiste em se escrever numa geografia onde as ranhuras desenham horizontes improváveis. 

 

São tempos em que é preciso resistir, convocar a palavra gaga, invocar o texto que murmura algo do enigma na estridência de obviedades. Responder sobre o que é a escrita é cair numa babel alegre e confusa coabitando tantas linguagens possíveis da insignificância, sustentando o mínimo, uma literatura menor, na forma apontada em Deleuze ao abordar a desterritorialização de uma linguagem supostamente maior.

 

Escrevo e encontro nesse hiato entre o traço e o som da palavra, a dimensão da voz que tropeça: um caos barulhento e polifônico, mistura de vozes e silêncio, a página em branco, um sussurro, um não-todo que erige uma voz titubeante. 

 

Da voz escrita irrompe a transparência do cristal da língua: letra, gozo, escritura, significante. Tudo que tento esboçar aqui talvez não seja propriamente literatura mas, à sua maneira idiossincrática e singular, toca a “lituraterra”: uma maneira de desvio à impostura da língua e de se colocar em estado de perda, numa relação de crise com a linguagem.

 

Em Llansol, a presença da escrita porta uma dimensão corporal, não só naquilo que seu texto diz, mas na maneira como o faz. Ao dividir o texto de maneira inusitada, intervalando-o, irregularmente, com inesperados espaços em brancos, ao promover mudanças de tipos de letra (de cursivo para o itálico e vice-versa) sem qualquer intermediação que possa prevenir o leitor, e sobretudo, ao sulcar a página com um traço horizontal que interrompe a narrativa, suspende o sentido e atravessa literalmente o texto.

 

O que é a escrita? Sulcar uma superfície sólida como as paredes de uma caverna ou, mais tarde, o papel, e reconhecer que nesse trajeto se desenha todo um percurso da grafia, ou mais propriamente da letra: do estilete à pena, da pena à caneta, da letra cursiva à letra de forma, do manuscrito à tipografia e à imprensa. 

 

Essa sulcagem é assinalada em “Uma nota sobre o bloco mágico”, por Freud. Em “Lituraterra”, Lacan a traz como a dimensão de uma rasura. E como uma litografia anterior às palavras - metafonética, não-linguística e a-lógica - por Derrida. 

 

Escrevo sobre o gesto que nos une na linha cortante, no convite ao silêncio, na “acomodação dos restos”.

 

Sulco, rasura, litura, littera: debruçando-se na escrita de James Joyce, Lacan fez esse jogo quase anagramático com literatura, ao destacar um texto radical que o escritor termina por alcançar com sua língua própria que desliza da letter - letra para litter: lixo. Do radical latino litura - significando risco, alteração, mancha e sua conjunção com terra - nasceria a lituraterra. 

 

Curiosamente, em “Lituraterra” Lacan distinguiu com bastante precisão as noções de fronteira e litoral. Sob o impacto de uma viagem que acabara de fazer ao Japão, Lacan se apropria da imagem que do alto do avião, entre as nuvens, se percebe: a planície siberiana, verdadeiramente desolada, no sentido próprio, sem qualquer vegetação, a não ser reflexos.

 

Estranha paisagem da escrita que, em sua dimensão de litoral, pode aproximar territórios distintos como areia e mar e proporcionar encontros potentes e inesperados que navegam por escritas que não se encarceram na moldura da verossimilhança.

 

Como gesto de resistência, a escrita sobrevive: acolhendo o indizível e o impronunciável, mas não deixando de operar também sua ultrapassagem com seu armazém de sinais - como descrito nos diários de Llansol, que celebra o encontro com outros seres, outras vozes e escritas. 

 

Na noite algo acontece: uma batalha contra a impostura da língua, uma caminhada singela, sutil e densa, uma aposta numa pequena revolução – que, se não anuncia a manhã, pode sustentar a enunciação como última saída ao massacre imaginário e político a que estamos submetidos. 

 

Assim germinamos: da impotência ao impossível. 

 

(Texto produzido a partir do convite do poeta Marcelo Reis de Mello, para uma conversa com a artista Joana César e com o poeta Rafael Zacca no evento “A mesa”, sobre escritas insignificantes)

 

 

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