Luis Serguilha: um poeta do assombro e do real

(Revista Guará Linguagem e Literatura – publicação do curso de mestrado em Letras Literatura e Crítica Literária – PUC Goiás – agosto - 2016)

 

Na perspectiva do filósofo italiano Giorgio Agamben, em "O que é o contemporâneo", o poeta é aquele que fixa o olhar no seu tempo para nele perceber não apenas as luzes, mas o escuro. É aquele que suspende o passo, no gesto operado no poema. No ensaio "O fim do poema", Agambem revela o modo da poesia operar: à maneira do arado que faz a volta ao final do sulco.

 

Na poesia de Luis Serguilha, encontramos um poeta capaz de empreender uma poesia em suspensão, alinhado com o espaço-tempo da contemporaneidade, entrevendo limiares inapreensíveis da linguagem, como aquilo que Agamben chama de “um ainda não e um não mais”, vendo o escuro na luz, sinalizando as fraturas, habitando a linguagem com coragem, inscrevendo no mundo o assombroso vazio com uma poesia de invenção e experimentação, que recolhe pedaços do real e os faz retornar em epifanias.

 

É uma poesia que inventa um real e embaraça - como na escrita de James Joyce, a quem Jacques Lacan dedicou o Seminário 23: desdobrando e decompondo essa "escrita do nó", que se apresenta como um caroço, um osso, uma ponta de real, em torno do qual a linguagem circula.

 

Lacan se vale do texto de Joyce para mostrar que o escritor, com sua maneira própria de lidar com a escrita, faz surgir não mais o sintoma como formação do inconsciente que se oferece à decifração e que visa uma busca do sentido, mas a letra como cifra de gozo, o que leva o psicanalista a um ponto limítrofe: “O que Joyce adianta de modo especialmente artístico é o “sinthoma”, tal que nada se pode fazer para analisá-lo”.

 

É nesse espaço movediço e inanalisável que se dá o encontro com a poesia de Serguilha: uma topada numa pedra, na subversão da língua, numa permanente irrupção do inconsciente, efeito de escrita. Poesia que urde impasses e acontece na articulação enigmática entre corpo e sujeito, inaugurando mundos, mutilando signos, abrigando a estranheza. Nos rastros de sua poesia se formam espaços voláteis e formas inconclusas da subjetividade. Do desastre e do fracasso, ele descortina as fissuras, estilhaça a palavra, encontra potência nas ruínas e e roda cambaleante no labirinto do desejo.

 

É uma poesia que faz com que retornemos à produção das primeiras letras, ao primitivo que nos habita em vertigem, rememorando que o ato de escrever é a justaposição abismada de corpo, letra e sujeito. O corpo, tomado em sua precariedade, gera grafias que são vestígios subterrâneos do impossível. Em sua correnteza em fluxo errante, Serguilha conduz o leitor ao movimento incerto, à beleza difícil e que não se entrega de imediato. Nesse esbarrão é o nosso corpo que se desarticula numa experiência-limite, lançado na obscuridade do ritmo da poesia, correndo todos os riscos, entrando em contato com o abrupto, com a experiência fugidia e fragmentária de si. Nesse imprevisível de uma linguagem delirante e singular somos convocados como sujeitos.

 

Avançando na tradução dos silêncios do deserto e em queda clandestina, sua poesia une corpo e escrita, numa erótica particular, que sustenta o gesto que carrega em si seu próprio fim. Nesse movimento rarefeito está alocado o irrepresentável, o estatuto da escrita como puro gesto, como Roland Barthes entreviu ao ler os grafismos de Cy Twombly: rastros produzidos pela força que os dedos imprimem e pelos movimentos desenhados sobre a folha em branco.

 

Numa espécie de pintura inquieta, Luis Serguilha também desenha, à maneira de Cy Twombly, a tradução do silêncio, a margem que desliza fantasmagórica sob nossos corpos, as ondas que trespassam aquilo que está fora da representação. Mirando na morte e acertando o enigma que incide na vida, ele assume para si o suportar o exercício de andar por lacunas, numa espécie de transe onde a escrita se aloja, transbordando em vísceras, escorrendo pelas bordas na tentativa de contornar o vazio.

 

Ao escrever com um corpo anterior à escrita, a poesia de Serguilha chega de um além-mundo e nos arremessa nesse transe primitivo da palavra, no exílio de toda compreensão linear e direta. Em suas inervações fabulatórias, escancara um real que costuma viver na sombra, traz o sol para dentro da caverna, faz desmoronar sentidos em movimentos impensados. Se, como diz Barthes, na escrita há um corpo que se perde, para Luis Serguilha há não somente o corpo esfacelado pela linguagem, mas a colagem dos restos e dos escombros como modalidade escritural.

 

Nos interstícios de sua poesia, as palavras desabam num desfiladeiro discursivo, hesitantes e firmes na queda, construindo uma subjetividade que só se constrói no movimento do devir. Nessa modalidade escritural há a força do rumor e incomuns grandezas poéticas abrindo e suturando espaços subterrâneos, abrigando dualidades díspares como um andarilho das dobras, transcrevendo o horror da existência, provocando novas cartografias deslumbrantes e alquímicas.

 

Do abismo, sua poesia chega como um chamado, convocação à vida naquilo que ela porta de incompreensível. É poesia, é espanto regenerado, é literatura - como em Barthes, "essa esquiva, logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem".

 

 

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http://seer.pucgoias.edu.br/index.php/guara/issue/view/238

http://seer.pucgoias.edu.br/index.php/guara/article/view/4747