No lugar em que a vida pulsa

(Polichinello Revista Literária – outubro - 2014)

 

No lugar em que a vida pulsa, lugar afeito ao informe, ao incompleto, ao precário, uma escrita pode instalar-se. Entre o corpo e aquilo que não se pode representar, surge essa escrita, que é, segundo Jacques Lacan, uma “sulcagem” da imagem – rasura, corte, risco, tropeço no real, ponto de ruptura ou de transbordamento, mas também litoral de onde pode advir o sujeito como uma invenção a ser sustentada permanentemente. Através do corpo textual, esse sujeito acaba por inventar seu próprio corpo e, nesse movimento, constituirá sua verdade, sempre fictícia, mas que determinará sua diferença.

 

Marguerite Duras, a quem Lacan dedicou um texto, definiu no livro “Escrever” o que sempre foi para ela esse ato: “[Escrever] é isto que é desconhecido de si, de sua cabeça, de seu corpo. Nem mesmo é uma reflexão. Escrever é uma espécie de faculdade ao lado, paralela à pessoa, uma outra pessoa que surge e avança, invisível, dotada de pensamento, de cólera”. Nessa espécie de rasgo e de risco permanente, Duras nos remete ao pulsional como força que anima a sua escrita e que aponta para as relações entre corpo e linguagem. Na escrita se é outro, um outro de si que se evidencia a partir da impossibilidade de se dizer tudo. Ela escreve apesar do desespero, escreve com o desespero e bordeja o vazio, confirmando a afirmação de Lacan de que toda arte se caracteriza por um certo modo de organização em torno de um vazio

.

No Seminário dedicado a James Joyce, Lacan desdobra seu interesse pela escrita e o irrepresentável. A arte de Joyce, com sua escrita enigmática, fascina o psicanalista ao levá-lo a um ponto de embaraço. É a partir desse limite real que Lacan dá um passo a mais, apresentando uma nova concepção de sintoma – que grafa como sinthoma – numa conjunção entre letra e gozo. Seu fascínio por Joyce advém justamente do modo como o escritor utiliza a linguagem, construindo uma escrita em que o jogo de letras revela o lapso, o furo onde se funda a finalidade da escrita: escrever aquilo que não pode ser escrito.

 

As palavras em Joyce chegam como um impasse, naquilo que elas podem guardar de inquietação e vazio, de vida e morte, forjando o “objeto perdido”. A escrita se torna o buraco por onde o gozo escorre e pode se alojar, chuva da linguagem que captura o incapturável e cria uma marca, um rastro, um sulco. Escrita que é, portanto, letra – esse conceito que permite a Lacan sofisticar a noção de real e fortalecer a afirmação de que há uma língua particular para cada sujeito que escreve.

 

Por escrito a vida condensa-se, desfaz-se para refazer-se. Esgarçando a linguagem, levando-a ao limite, apreendendo-a como ponto de falha na língua, as palavras contornam esse nada do real. Para trazer isso à tona, é necessário um escritor ou um poeta, que possa atuar a partir de seu savoir faire com a língua e sustentar a escrita como escritura – lugar onde as palavras não são usadas como instrumento, mas postas em evidência (encenadas, teatralizadas).

 

A letra escreve a diferença e desfruta o que essa verdade tem de inacessível, apaga para melhor escrever, rasura sobre o que não está lá, cria a literatura. Como em Pascal Quignard, onde o literário é, antes de mais nada, coisa escrita. É escrita literária: aquilo que na/da linguagem não é discurso, mas silêncio e, como tal, resiste, rompe, desarticula o discurso e as significações comumente partilhadas.

 

Um escritor – que estabelece essa relação singular com a linguagem – sabe capturar o nome na ponta da língua, o momento em que a escrita se abre em buraco pelo qual escoa a representação do mundo. Nesse encontro com o vazio, a impotência da linguagem tem como efeito a própria escrita infinita de um corpo diante do irrepresentável com que se defronta. É dessa experiência extrema do sujeito falante que nasce a escrita como mise au silence.

 

Movido pelo que não é capaz de ser escrito, o escritor inscreve sua marca no mundo. Das ruínas e escombros ele extrai a beleza difícil e o imprevisto, a partir do que resta da linguagem esgarçada pelo que a excede, até chegar à fala do indizível.

 

Entre aquilo que se escreve – a ferro e fogo – e a vivência da coisa quase indizível, silenciosa entre nossos corpos, segredada aos nossos abismos, está o contato do homem com a linguagem: essa aberração que nos humaniza, esse despertador para o trágico. Nos resta assumir essa condição e desnaturalizar a existência, não resvalar no banal e encarar a natureza em sua beleza convulsiva a nos interrogar sempre. Escrever na urgência do estilete que rasga a carne, nessa estabilidade precária onde se encontra a palavra, avançando sem garantias, movendo no fracasso da língua a invenção singular que traz o impossível à tona, apreendendo – no silêncio entre uma e outra palavra – uma linguagem de sobrevivente, que emerge do encontro com a violência e o vazio do mundo, e faz da palavra uma forma de partilha do sensível, aquilo que Rancière afirma como o encontro com o irrepresentável que desconcerta todo o pensamento.

 

Talvez o poeta seja aquele que pressinta, desde sempre, que a palavra é impotente para responder a nossos questionamentos mais fundamentais sobre nós mesmos e para garantir uma comunicação sem resto, uma cópula perfeita com o outro. Desse pressentimento angustiado surge a poesia – tentativa de tocar um mais além da linguagem, acolhendo a intransponível e radical solidão de cada um.

 

Contornando a ferida aberta no próprio corpo está a palavra, limiar onde se atritam a medida e a desmedida. No devir do corpo e no corpo em devir, Marguerite Duras diz: “Escrever, é isso que se alcança. Isso ou nada”.

 

Tal como Primo Levi descreveu o indizível nos campos de concentração, sabendo que a língua comum não basta para dizer da experiência desmedida. Ou como Paul Celan, que inventou uma poesia à altura dessa não-metáfora absoluta que é Auschwitz, o infigurável da morte. Uma poesia que sabe da fragilidade humana e que abriga também o indizível, o irrepresentável, insistindo nessa tentativa tão precária quanto potente de tentar dizer algo que possa nos deslocar novamente para a vida.

 

Se Nietzsche instituiu o amor fati – esse amor ao destino – Lacan fala do c’est ça – é isso. Quando se chega ao “é isso” não há mais recuo diante do furo da linguagem. Ao contrário, está aí a função da letra que não se furta de evidenciar algo de radical na linguagem e de extrair da escrita suas consequências mais potentes implicadas no tratamento do impossível pelo contingente.

 

Amor fati – afirmar a vida naquilo que cabe à escrita literária: lá onde o inexprimível se revela, sustentar a violência da linguagem, mergulhar no vazio siderante da falta e no abismo, e fazer emergir daí o silêncio e um resto impossível de traduzir.

 

 

in

https://issuu.com/polichinello/docs/16_18set