O desejo como resposta ao fascismo

(Revista Polichinello 17: Por uma vida não fascista – agosto - 2016)

 

Foi Jacques Lacan quem afirmou, em “Subversão do sujeito e dialética do desejo”, que o desejo tem necessidade de transgressão. Seu pensamento confirma o que diz Bataille no magistral livro “O erotismo”: o interdito está aí para ser violado - o desejo, com suas diversas possibilidades de erotizar o mundo e desburocratizar os afetos, já se funda e traz em sua origem uma resposta ao fascismo.

 

A psicanálise surge na insurreição e na insubordinação à verdade pronta. Surge também como território que abriga aquilo que insiste na singularidade e não encontra adequação. E continua se sustentando na irreverência contínua às formas instituídas, confrontando o sujeito com a coragem de colocar o pé no seu litoral e, assim, produzir uma escrita que o singularize diante desse mar de certezas impostas. O sujeito da psicanálise é, portanto, esse ser que não se conforma com as burocracias instituídas, que precisa inventar um território radical e único, que rompe com os campos anestesiados pelo senso comum, pelas lógicas de poder e pelas práticas de exceção na contemporaneidade.

 

Porém, lá onde a vida biopolítica foi presa nas tramas da lei e nas transversalidades dos poderes, onde a diferença é vista como ameaça e, assim, evitada, podemos invocar as respostas pulsantes aos microfascismos: a psicanálise como prática do desejo; a poesia e a arte como formas de abrir frestas no discurso, maneiras ativas de criar descontinuidades, de se arriscar no abismo.

 

Não há revolta sem a alegria da invenção. Por isso, para Walter Benjamin, a verdadeira catástrofe é que as coisas continuem como antes. É na convocação que suporta o inacabado na contramão dos espaços de obediência e de servidão voluntária, que podemos manter a ideia de um amanhã como um informe.

 

A psicanálise produz um retorno do real que traumatiza o sistema instituído, já que dissolve o encantamento petrificante das ideologias do poder. Junto da arte e da poesia, se coloca em deriva na indeterminação do percurso, numa viagem sujeita a todas as surpresas.

 

Esse real que retorna é o que nos coloca diante do limite do dizível, do imponderável, do desassossego radical. É o que, ainda segundo Bataille, faz roçar o limite pela primeira vez ao excedê-lo, é a dimensão do impossível de onde se pode criar um possível na desmedida da transgressão.

 

Em geologia, transgressão é um movimento do mar que transbordanas áreas continentais vizinhas. Movimento de ultrapassagem, de excesso, aparente apagamento de um limite que, no entanto, está sempre lá. Força que pode, portanto, reinventar mundos e produzir novas configurações.

 

O pensamento poético é essa força que revigora a língua e toca nos limites do dizível. É um pensar contra o fascismo, que abre a couraça das estratégias de controle que visam aplainar a errância e a singularidade, que pretendem tomar a todos como o mesmo.

 

Para Bataille, a transgressão é, em primeiro lugar, uma violência contra a ordem do mundo - a ordem do trabalho e a ordem sexual - que presume uma conduta bem organizada e submetida a regras precisas. É o desejo de limites e de ir além dos limites: a transgressão ultrapassa e nunca para de recomeçar a ultrapassar.

 

No "Préface à la transgression", Foucault disse que a transgressão é um gesto que diz respeito ao limite, e é nessa linha delgada que se manifesta o relâmpago de sua passagem. Aos olhos de Lacan, a transgressão é como uma porta entreaberta, mas "ver uma porta entreaberta, não é atravessá-la".

 

Em suas diversas vertentes, o fascismo não vem dizer de um limite, mas de uma ideia totalitária, sem furos. Chega de cima para baixo como forma de dominação entre regulamentos, bulas, estatutos e manuais de instruções.

 

A transgressão trazida pela psicanálise, pela poesia, pela arte ou pelos discursos que abrigam em seu cerne a estranheza, a descoincidência e a não-paridade, carrega a potência do acontecimento onde eclode o sujeito como possibilidade de transformação, de descoberta de um outro modo de estar na linguagem ou de refazer a língua da vida.

 

A transgressão que a irrupção do desejo traz representa o imprevisto, a única possibilidade de sair do cálculo, da alienação. Para Lacan, a transgressão é um estratagema para poder gozar, mas com a condição de admitir a castração. É uma forma de aceitar um gozo que passa, ao mesmo tempo, pelo corpo e pela linguagem. É um gozo "insatisfeito", pronto a aceitar o oxímoro. Obscura claridade que instaura uma ação onde a vida se aproxima da poesia, fazendo ruir a ditadura do sentido numa poética do informe que pretende dissolver as estruturas cristalizadas, para proporcionar a irrupção do novo. Trata- se de uma recusa a uma prática da representação, em prol de um pensamento que tem por objetivo agir contra as formas fixas, submetendo-as a um processo de renovação.

 

Assim faz Artaud de forma brilhante, partindo de um corpo completamente esfacelado, alijado do discurso, submetido a torturas e constrangimentos de asilos psiquiátricos. Um corpo que será preciso reconstruir sobre novas bases, esvaziado de suas funções puramente orgânicas, para que possa receber e suportar a linguagem que é produtora do poeta, que se define para além da necessidade de sentido e do mesmo corpo para todos.

 

A psicanálise, a poesia e a arte, como barragem ao fascismo, encarnam o lugar de agentes de inquietação e de desagregação das formas. São maneiras de colocar em ação um pensamento poético, uma vez que apresentam o dissenso e furam a necessidade de representação imposta pelos regimes totalitários.

 

Didi-Huberman diz do poder violento da arte como uma "beleza estranha e única", já que as imagens artísticas carregam em si uma potência transformadora e inquietante que age sobre o campo do conhecimento, produzem efeitos de não-sentido e rompem com formas fixadas, colocando em xeque o pensamento único e acolhendo o enigma e o desassossego.

 

Em Octávio Paz, essa compreensão se aplica à palavra poética. A linguagem, na poesia, rompe a sua qualidade comunicativa, deixando de servir apenas ao objetivo de representar a realidade para expandir, transfigurar e transgredir qualquer aprisionamento da palavra.

 

Precisamos de um pensamento poético que possa produzir um fazer político no sentido pleno da palavra. A condição do pensamento poético é justamente o risco, o corte, o rasgo. Precisamos responder ao fascismo com esse grito para além do sentido que a psicanálise, a arte e poesia encarnam.

 

 

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(Revista Polichinello 17: Por uma vida não fascista – agosto