Resgatar a função utópica da palavra: a história que a história não conta

Revista Caliban - Revista Constitucionalismo - Março de 2019

 

Ainda sob a intensa alegria vivida com o desfile da Estação Primeira de Mangueira, acompanhei a apuração dos resultados do carnaval carioca em estado de puro arrebatamento. Além de ter minha própria história reescrita ali, foram também reavivadas minha relação de êxtase com o samba e com a escola, através das lembranças diversas das manhãs de sábado em que, junto com meu pai, escutava os discos de samba-enredo. Localizando a história da escola em cada letra, aconteceu algo improvável e da ordem do milagre: do singular ao comum, as multidões se tornaram todas verde-rosa. A bandeira, ufanista símbolo verde e amarelo nos foi devolvida: no lugar de ordem e progresso a invocação de todas as vozes inaugurais: índios, pretos e pobres numa bandeira com cores mangueirenses.

 

Uma subversão da linguagem passou a habitar o espanto de nossos corpos, valorizando a função utópica da palavra num samba que é poema, que traz em seu seio versos apagados dos livros.

 

No belíssimo livro O Arco e a Lira, Octavio Paz nos apresenta à dimensão poética do mundo, com a poesia mostrada como um território em que se pode reconciliar vida e morte, dando potência de vida ao morrer e consciência da própria temporalidade ao viver. É notável também a articulação entre mito, poesia, temporalidade e história num samba que lembra os anos de chumbo, de Marias e Marielles, de mulheres, tamoios, mulatos e de um país que não está no retrato, criando e recriando a linguagem, reconfigurando, através dos múltiplos sentidos que emergem da palavra viva, uma ética e uma estética.

 

“O avesso do mesmo lugar” como o próprio núcleo do fazer poético: em seus limites, em suas possibilidades, na sua relação com o real – possibilitando o trânsito entre a vida e a morte, escrevendo uma nova história aberta ao enigma, ao imprevisto, ao inesperado. A poesia e a coragem que possibilita uma passagem e uma abertura na dureza das coisas, um samba que é poema e oração: escrita de um passado que não cessa de se escrever com suas feridas e abismos. Na teia simbólica de uma alegria conquistada na luta, um samba nos indica o caminho da coragem e a poesia instala um sentido novo ao tempo: “Brasil, chegou a vez” de ouvir a escrita de um silêncio, de encarnar todos os corpos que escreveram o país e que sobrevivem às invasões, saques, violências e silenciamentos.

 

A maneira como o samba nos convida a escutar – Brasil, meu nego, deixa eu te contar – é uma maneira de tocar um senso de coletividade novo, que expande, transfigura e transgride qualquer aprisionamento da palavra. A palavra circula, a palavra passa a ser de todos. “Brasil, o teu nome é Dandara”: um grito para além do sentido, a possibilidade de muitos outros nomes ainda serem escritos.

 

O risco, o corte, o rasgo.

 

De um país destroçado surge um poema. Através da poesia, em sua margem – borda, litoral – algo que se apoia na letra, mas está para além dela, algo que transborda todos os sentidos prévios entre palavra e imagem, um resto que a palavra insiste em querer tocar: a ausência ou aguda presença de Marielle que emerge exata e viva, pulsante, vibrante e resistindo à morte em um tempo de desencanto.

 

Um samba que sabe fazer da incerteza e do tremor uma aposta, uma forma de transcendência, um espaço de risco em que o encontro dos corpos com o incomensurável se torna possível, como um “fundamento” que se forja no existir e na constatação da própria temporalidade e contingência.

 

Resgatado um sentido profundo de resistência: não declinar nunca de uma voz e de uma dicção próprias e, permanecendo nessa fissura instável, inventar um mundo para além do intolerável.

 

A história que a história não conta foi reescrita com a força tão delicada quanto violenta de uma volta na linguagem, um momento sagrado como intuiu Bataille, porque inútil, dispendioso, excessivo. Uma celebração da vida que investe contra os limites do interdito e abre espaço para uma festa transgressiva na linguagem que pretende “saltar” para fora de si –e incluir tanto todos os batuques e sons silenciados quanto o silêncio do inefável diante da existência.

 

Em um mundo sem pontos fixos, despedaçado, Octavio Paz disse que poesia é palavra irmã do mito que retoma a tarefa de articular o inarticulado, recuperando uma experiência de sacralidade por meio da palavra. Num Brasil estraçalhado reencontramos a afirmação do vivo da dimensão poética: “O ato poético mostra que o fato de sermos mortais não passa de uma das faces de nossa condição. A outra é: sermos viventes”.

 

E essa liberdade radical não veio do céu, nem das mãos de Isabel: houve quem por ela desse a vida. Que possamos, de fato, a partir de agora, tirar a poeira dos porões e abrir-alas a nossos heróis de barracões.

 



Fonte: https://constitucionalismo.com.br/a-historia-que-a-historia-nao-conta/