Strange Fruit

(Boletim Extimidades – Escola Brasileira de Psicanálise – outubro - 2014

 

“Strange Fruit” é uma poética canção de protesto contra o racismo. Na voz de Billie Holiday, a canção adquiriu imensa força expressiva, afetando profundamente todos que a ouviam.

 

“Strange Fruit”, livro escrito pelo jornalista David Margolick, abre uma fresta para a realidade dos Estados Unidos nos anos 30 e 40: um país dividido entre negros e brancos. O livro - uma biografia da música - gira ao redor da estrondosa canção, cuja versão mais famosa é a de Billie Holiday que, com imensa ousadia, levou o tema do linchamento para dentro dos cafés e boates.

 

Composta como um poema, foi escrita por Abel Meeropol (um professor judeu de colégio do Bronx), sobre o linchamento de dois homens negros. Ele a publicou sob o pseudônimo de Lewis Allan e é uma música que confronta os Estados Unidos com seus fantasmas mais cruéis.

 

A menção aos linchamentos é contundente e a música é um documento histórico. O crítico de jazz Leonard Feather afirma que foi “o primeiro protesto relevante em letra e música, o primeiro clamor não emudecido contra o racismo”.

 

A própria Billie Holiday, em sua autobiografia, registrou o impacto ao relatar que, quando terminou de cantar a música pela primeira vez, se seguiu um silêncio total. Então, diz ela, “uma pessoa começou a aplaudir nervosamente e, de repente, todo mundo estava aplaudindo”.

 

“Fruta estranha” a que se referem título e letra é o corpo dos negros linchados e enforcados em alguma árvore, sangrando e balançando ao vento. Na tradução da letra, o verso final se apresenta assim: “Eis uma estranha e amarga fruta”, o que parece nos ensinar e muito sobre a ideia de segregação como uma via de eliminar o insuportável.

 

Silenciar o negro é uma tentativa desesperada de aniquilação de algo que evoca a diferença. Na “Proposição de 1967”, Lacan pontua que a destituição do sujeito é cruel, pois ela o reduz ao silêncio. É o que se observa. O segregado não se pronuncia, ele se torna vítima da máquina da discriminação. Máquina que o induz a não dizer de si mas, muito pelo contrário, a ser dito pelo Outro.

 

A voz de Billie Holiday é um grito, que ressoa e produz restos ruidosos. O negro não fala de sua miséria, ele a vive na pele, na dificuldade de se assumir, na recusa perante o real do corpo. É vítima da segregação racial instalada pela abjeção de um "coletivo" diante de um real que não suporta encarar.

 

Aqui se dá o encontro com a psicanálise: na função ética de abordar a vida naquilo que ela possui de complexo e desconcertante, fazer barra aos discursos de ódio que escolhem uma verdade totalitária e sem brechas para o sujeito. Função que consiste numa lenta ruptura, sempre renovada, com tudo aquilo que embarca e se fixa num discurso universal de valores.

 

A psicanálise pode surgir nessa cena, como portadora de um simbólico, que faz borda ao pior sem negar-lhe, porém, a existência. E, como discurso que abriga a diferença e o dissenso, pode nos salvar de nos tornarmos bestas feras aniquiladoras de qualquer traço de alteridade.

 

Ainda hoje ficamos perplexos diante da "estranha e amarga fruta". A tentativa de domesticação da diferença pela violência nos arremessa ao ponto abissal, chama à responsabilidade ética em escutar essa monstruosidade que vive à espreita, e com ela aprender.

 

A dimensão imaginária se nos aparece como algo sem saída, excesso que mata. Onde a angústia comparece como índice de que nem tudo no campo dos investimentos se desdobra em identificação, aparece o discurso hermético ao outro, como tentativa de controle de um resto não incorporável, disso que não entra na imagem especular e é causa de extrema angústia. Esse resto é um objeto que escapa à imagem: nem branco, nem negro.

 

O que os discursos de segregação trazem em seu bojo é o medo de se reconhecer como um outro de si, um estranho de si mesmo. O negro encarna, então, o lugar insuportável de portador de uma cor, que vem denunciar o traumático do corpo, a dimensão do outro.

 

Como na poesia de Rainer Maria Rilke em seu " The Notebooks of Malte Laurids Brigge": "Há uma criatura que é perfeitamente inofensiva; quando ela passa diante de seus olhos, você dificilmente a nota e imediatamente a esquece de novo. Mas, tão logo ela, de alguma maneira, invisivelmente, penetra seus ouvidos, ela começa a se desenvolver, ela choca, e são conhecidos casos em que ela penetrou no cérebro e floresceu devastadoramente, como os pneumococci nos cães nos conseguem entrar através do nariz... Essa criatura é Seu Próximo."

 

 

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