Uma mulher e seu corpo

(Introdução de “Entre Lobo e Cão”, livro de Cláudia Roquette-Pinto - 2014)

 

Uma mulher e seu corpo: é nessa zona nebulosa e fugidia que os fragmentos da escrita de Cláudia Roquete-Pinto se inscrevem – numa insistência delicada e potente, no desafio de transpor, por meio da matéria textual, o que parece ser da ordem do inapreensível. Para tanto, ela mergulha na linguagem até perder o fôlego, suspende regras, leva a escritura a um limite de criação, assume o risco de fundar uma linguagem e um estilo – caminho em que poderia ser fácil perder-se –, no desejo de conseguir aproximar-se do feminino, do erotismo e do amor.

 

Impossível não acolher Vita, a encarnação do enigma do feminino, na ambivalência da escritura de um texto em constante destruição, onde se esconde/desvela o jogo do signo. O deciframento estilhaçado, o discurso sempre à deriva e a ausência de garantias, numa estruturação infinita pelo sensorial, espaço onde se redistribui a ordem da língua. De um mundo de palavras adormecidas na solidão seminal, surge a escrita que encanta e escapa dessa agonia muda: Claudia escreve numa teia tecida com letras entrelaçadas pelo desejo. Dessas entranhas inicia uma travessia.

 

Assim, Vita se introduz, transbordando uma vida do corpo, a se "desenfronhar daquilo a que se acostumara a chamar pelo seu próprio nome, a considerar território seu: a ideia de si mesma. Estar inteira em contato com as coisas, os poros todos acesos, os pelos em sentinela, na apreensão imediata de cada estímulo – apenas uma fagulha atrás do acontecimento. Por assim dizer, no olho da acontecência. Com a disposição e a destreza do índio à beira-rio, pegando o peixe pela sombra, a lança varando, mais do que o peixe, a hipótese do peixe. Com a paciência do hibisco, corola inteira desfraldada, vibrando no ar o pistilo, à espera do pouso errático da abelha, do beija-flor."

 

Manipulando a língua, reordenando a sintaxe, deslocando palavras, Vita se impõe líquida, escritura fluida que capta aquilo que possui o feminino de rarefeito, do pouco tangível. No dizer de Marguerite Duras, "a escritura fluida é uma escritura distraída, diria eu, uma escritura que corre, que quer apanhar as coisas mais do que dizê-las. A crista das palavras. A escritura progride sobre a crista, para ir depressa, não perder nada, que é o drama quando se escreve."

 

Experimentamos o território do feminino em vertigem, através de uma escrita que vai se colocando em jogo contínuo com as possibilidades expressivas da linguagem, mobilizando a escritura, e fazendo da literatura um meio de experimentação, em que é possível viver o risco da invenção. É nesse lugar limítrofe, nessa crista da linguagem, que a escritora nos permite vislumbrar figurações do feminino, ao fundar um texto de gozo, ao fazer os sentidos ecoarem pelas manobras linguageiras. Vita, ressoando nesse espaço de experimentação, avança sobre o que parece ser da ordem do indizível, subvertendo a linguagem, habitando o espanto, valorizando a função utópica da palavra e, nessa ambivalência - metade natureza, metade artifício, metade gente, metade coisa, entre o lobo e o cão - o real se impõe.

 

Trata-se do real do corpo, que atravessa Vita e, diante dele, ela só pode caminhar na margem da língua. Na psicanálise lacaniana, o real é o buraco que, para o ser falante, vem no lugar das leis que determinam a vida sexual animal. Vita era bicho, mas precisava falar. E falar é se deparar com o real, com essa impossibilidade de escrever a relação sexual, de se dizer tudo. Contrariamente à vida animal, plena e sem falhas, a vida humana é regida por um imaginário marcado pelo buraco, por um hiato real.

 

O real não é, então, o que nomeamos como realidade, mesmo que seja verdadeiro dizer que é por meio da realidade que o abordamos. Ao contrário, é o que escapa à realidade, o que não se inscreve no simbólico. O real nos envia ao traumático, ao inassimilável, ao impossível.

 

No encontro com o outro sexo, nos deparamos com uma descontinuidade que angustia e abisma, com esse real que Jacques Lacan chama de "um resto de realidade", que vem designar um ponto que escapa ou resiste à simbolização. Desse impasse, atrito e dissimetria, surge o amor: uma disparidade que faz Vita "imaginar-se morando no corpo do outro. Vivendo a vida do outro."

 

No compasso, pulso corpóreo de Vita em seu encontro desenfreado com o outro, entre pausa e suspensão, há o prazer e o amor de maneira irrestrita e ilimitada, murmúrio da pele, selvageria dos ritmos respiratórios, onde a pulsão inscreve a pulsação e o mistério nascido do sopro do desejo.

 

A escrita de Claudia privilegia o aspecto dispersivo e evanescente da própria feminilidade, com suas falhas, fissuras, contradições, pontos doloridos. O feminino tantas vezes é também uma coisa dura, abcesso na carne, dedo na ferida, desencontro da forma e do mundo. Assim escreve-se Vita, encarnada em sua vida de bicho, sustentando um nada que é estilo, estilete que risca o corpo da linguagem, navalha na carne, que escarifica a pele em sua escrita de ruínas.

 

Lacan situa o gozo feminino para além da dimensão fálica. Um gozo não-todo, suplementar, como o que escorre de Vita, onde se tropeça com o real que não se liga a nada, que está excluído do sentido, que se situa no limite da experiência.

 

No encontro com o inominável, Vita experimenta uma angústia que faz cair todas as balizas subjetivas. Instala-se, então, uma experiência mística, uma hiância na ordem das coisas. A mulher não-toda demonstra o impossível que está fora da linguagem. Esse acesso que o feminino tem com relação a outro gozo é o acesso a uma satisfação que é infinita.

 

Dessa satisfação advém uma posição discursiva aberta ao feminino, uma abertura para a transgressão, tentativa de ir além dos limites da língua, do corpo e da narrativa, numa modalidade textual que se produz nas bordas do discurso, tangenciando um litoral e dando margem a um gozo que ultrapassa o sujeito e não o identifica.

 

O feminino se desnuda a partir daí como precipitação, arroubo, experiência fruitiva do absoluto, trasbordamento em relação aos limites impostos pela palavra, uma experiência mística que viria a indicar um modo particular de acesso à linguagem.

Lacan expõe o gozo em uma relação “êxtima” ao sujeito, neologismo que destaca que o gozo é, ao mesmo tempo, o mais estranho e o mais íntimo ao sujeito, por ser vivido sempre em falta. O gozo, então, só pode ser dito nas entrelinhas. E desse gozo podemos aferir - a partir de um acolhimento do feminino, experimentado em todo o corpo - algo que toma o corpo e o reinventa. Vita tem notícias desse gozo por aquilo que lhe escapa entre pelos e vísceras, em sua animalidade de gente, que precisa travar uma luta corporal com a linguagem, escrever abismos que não cessam de se escrever, tarefa perpétua frente ao impossível e imponderável, desmedida que se inscreve, como em Marguerite Duras: "Escreve. Não posso. Ninguém pode. É preciso dizer: não se pode. E se escreve. É o desconhecido que se porta em si: escrever, é isso que se alcança. Isso ou nada."

 

Claudia escreve, traz o impossível à língua, revela o que lhe excede, o que nela não se registra via simbolização, mas se apreende em seu silêncio, entre uma e outra palavra. A partir de sua ferida, do que traumatiza o corpo de sua língua, de uma plenitude que é precipitação, onde alguma coisa nos fulmina, uma agitação que chega sem esperar o consentimento e já é emoção, sentimento que movimenta violentamente a alma, e que chega entre os fragmentos, entre as rajadas de linguagem, que brotam no enfrentamento da desordem da língua: esse território de loucura e de excesso, diário contingencial de paixões, tentativa perturbadora de quem está submerso no texto, na linguagem, atenta às armadilhas do desejo e da escrita, já que a função da escritura é colocar a máscara e, ao mesmo tempo, apontá-la.

 

Claudia percorre o vazio das coisas do mundo em via de nascer. Suporta a literatura em seus desmoronamentos como um alarme para uma poética de desaprender, de regredir a palavra ao seu começo, à sua face sem nome, que desemboca nesse umbigo da escrita em que toda a significação se estanca e de onde se avança apenas pela ficção e pelo exílio.

 

"A Mulher não existe". É preciso então inventá-la. Com tal declaração, Lacan vem dizer da ausência de um significante no inconsciente que nos fale do feminino. Destaca, ainda, que "o feminino define-se, então, por uma não-presença" - penumbra do vazio, que na escrita de Claudia mostra-se na ardência do texto que move a língua, na destituição da pretensão de alcançar o todo, abertura para a possibilidade de uma escrita que se situa numa zona fronteiriça onde se desenha outra feminilidade, no corpo-que-vai-além, na matéria dura do encontro com a diferença que faz ressoar a pergunta: quem é o outro para a mulher?

 

A mulher é sempre uma outra para si mesma, quando não muitas. Essa outra não se captura pela via imaginária, é enigma incidindo no corpo, que transborda no gozo enigmático, louco, tal como o encontrado nos místicos, que não tem significante para conter um universo. Trata-se mais de um além do discurso, que tenta dizer o indizível, buscando confrontar a palavra com a coisa, roçando os limites, como no dizer de Roland Barthes: "Meu corpo nunca será o teu. Meu corpo nunca será, tampouco, totalmente meu.”

 

Escreve Vita: no lugar da impossibilidade de uma escrita, a escrita de uma impossibilidade, que faz lembrar que somos todos perturbados por uma marca fundante, somos seres de linguagem. A cultura é um desvio da natureza e a sexualidade é o traço desse desvio. Renunciamos às nossas perversões, contudo podemos revivê-las por meio da arte, onde entre belezas e assombros entendemos que o belo é senão o grau do terrível que ainda suportamos e admiramos porque, impassível, não nos destrói, como vem anunciar a poesia de Rainer Maria Rilke. Há coisas terrivelmente belas: gerar um fruto antes mesmo de amanhecer, desdobrar-se em outras, dissecar inventários de mundos imaginários, suportar heranças sem se deixar devastar, inventar solo fértil onde também há horror, tomar a poesia como companheira de travessia da fantasia, tocar o real e sobreviver ao nada. Todas elas, coisas terrivelmente belas.

 

Terrivelmente bela, também, é a escrita de Claudia, que tem a coragem de abordar o amor no que ele tem de estranheza, de sexual, de impossível. Se há algo que se sabe é que não se toca impunemente um outro corpo - litoral que margeia o encontro, imensidão brumosa da alteridade. E Vita vai se fazendo mulher através das nuances dos signos amorosos, se contorcendo entre o corpo de palavras sinuosas e à deriva, tateando seus buracos. Insinuante, visceral e reveladora, na voracidade de descobrir seus avessos, vai inscrevendo-se nos estilhaços de um romance transgressivo. E, sabemos, a única experiência potente é a experiência da transgressão - aquela que extrapola a natureza e toca o desejo, que inventa sentidos novos para o que está dado, a experiência que faz de você um outro, um estrangeiro, que desnaturaliza o olhar e rompe com as certezas. Qualquer coisa como acumular nuvens numa gaveta, guardar segredos dentro dos olhos, engravidar de brisas, tocar a bruma dentro do sol, virar a carne do avesso, escutar montanhas, pendurar lençóis do amanhã, decifrar as palavras desenhadas no bolor esverdeado, impregnar os muros de lembrança, esquecer dos bons modos, transar com o vocabulário, ter um filho do acaso - e respirar ali a deliciosa maresia infinita da singularidade máxima, daquilo que não se partilha e é mar, amor, revolução e radical invenção de si - destino da cartografia particular de Vita.

 

Mapas que Cláudia Roquette Pinto imprimiu em colagens que se configuram também como texto central, narrativa em atrito com as palavras. Corpo e escrita em rastros voláteis, porém potentes, suas colagens compõem um profundo diálogo com a aventura de Vita, um conjunto de cenas eróticas repletas de força. Trata-se de uma justaposição de imagens que condensam experiência, corpo, escrita e sujeito. São recortes feitos a partir do banal, de objetos prosaicos, cotidianos. Vertigem que brota extrema na precariedade, gerando grafias que são vestígios da própria descoberta sexual de Vita.

 

Colagens de velhas revistas, evocando um universo feminino submetido à lógica fálica, gravuras imprestáveis, tesoura e cola. Cláudia, no entanto, subverte os signos. Entre saca-rolhas e desentupidores, forja seu coeficiente de “beleza” que dependerá, em cada colagem, da distância ou disparidade entre os elementos fortuitamente aproximados.

 

São homens negros em posição de dominação, estética politicamente incorreta, onde o domiciliar e o fantástico se cruzam, como evoca o título do livro - "Entre o cão e o lobo" - indicando um lugar fronteiriço entre o familiar e o estranho - o “uheilimch”, obtido a partir da apropriação de recortes heteróclitos, composto alquímico de dois ou vários elementos heterogêneos causando o desregramento de todos os sentidos, numa inquietante estranheza, termo que resulta de um artigo de Freud com o mesmo nome (“Das Unheimliche”, 1919), que é o contrário de “heimlich”, conhecido, familiar, caseiro, habitual, íntimo, ligado ao Heim - lar, lugar aconchegante - e a Heimat - terra natal. “Das Unheimliche” é o não conhecido, que provoca uma sensação difusa de fascinação e de horror.

 

Caminhamos, então, na sensação do "íntimo-estranho" atravessados também pela habilidade poética na invenção dos títulos de suas obras: Black Jesus, Abolicion, Di Menor, Na Colônia, Minotauro. Seguimos entre feras submissas que encarnam o paradoxo do desejo humano, entre ferimentos e feitos heroicos, numa desconstrução constante de alegorias do feminino, em que as colagens funcionam como um “poema duplo”, ao abordar nos títulos a palavra em seus mistérios, sendo inútil recorrer à imagem para clarificar o sentido, pois o que a artista visa é o estilhaçamento do sentido, desarticulando os elementos, abrindo espaço para o imprevisto, para a precipitação e para a desordem que provocam uma tensão na percepção que oscila entre o absurdo e o verossímil.

 

Estabelecendo uma relação orgânica entre as linguagens verbal e visual, as colagens de Claudia funcionam como um campo aberto a múltiplas narrativas fragmentárias e complexas - assim como sua escrita imprevisível e obscena - naquilo que há de mais aterrador na feminilidade: maldição e salvação, a coragem de tirar o véu daquilo que se encontra fora da cena, ser mulher e residir nessa espécie de não lugar. Ou, melhor dizendo, podendo sustentar a atopia que se encerra como aquilo ou aquela que não tem lugar fixo, que resiste à classificação: um erotismo radical e vivido na beira do abismo, no caminho do risco, do fio tênue, da oscilação e da violação contínua, almas estendidas em suas verdades e em seus assombros, carne em transe erótico.

 

Um cortar e colar que vem revelar a ausência luminosa que guarda um elo com a morte, mas que também é vida, ponto onde o desencontro pode ser invenção - da impotência ao impossível - topos particular tanto do lugar quanto do discurso. Nos dicionários gregos, a palavra atopia articula-se semanticamente a “coisa extraordinária”, “raridade”, “novidade”, “estranheza”. Tudo que aponta para um desvio e uma diferença em relação ao mesmo, uma singularidade que se furta à classificação ou à categorização. Barthes usou a palavra para qualificar não apenas o que escapa à descrição e à definição, mas aquilo ou aquele que tem uma “originalidade sempre imprevista” e se afirma como exceção e paradoxo.

 

No paradoxo do êxtase bataillano, o sujeito deve estar ali onde não pode estar, ou ele deve faltar ali onde deve estar presente. Nas colagens de uma artista, que insiste em escrever aquilo que não cessa de se escrever, há um saber construído a partir de seu próprio enigma diante da feminilidade. Tomando posse das palavras de Maurice Blanchot: "Quando tudo foi dito, resta por dizer o desastre, ruína da palavra, desabamento pela escrita, murmúrio que sussura, o que resta sem resto."