Domingos Tótora - Poética do mobiliário

(Revista Clube Mais Arquitetura e Decoração - 2015)

 

Nascido em Maria da Fé, cidade do interior de Minas Gerais, Domingos Tótora cresceu cercado pelas belezas naturais. Seu trabalho, norteado por um profundo amor pelo local em que vive e pela relação com a natureza, circula o mundo, sempre com a marca da sensibilidade de alguém que sabe abrigar o local e o global no mesmo objeto, com recursos extraídos do próprio entorno e design que nada deixa a desejar.

 

Uma matéria-prima especial – o papelão reciclado – serve como baliza definidora para a ética/estética do trabalho de Domingos. Percebendo a grande quantidade de papelão que era jogada fora pelos supermercados, ele resolveu dar um fim a esse material, misturando o produto descartado a sacos de cimento vazios e transformando-o em massa. Na experimentação, o protótipo da peça é criado e, depois, levado à sua oficina, onde os objetos são produzidos por uma equipe de onze funcionários.

 

Com foco na sustentabilidade – desde a escolha do material até o uso de mão de obra local -, da reciclagem à fabricação pode-se perceber uma ligação com aquilo que ele considera essencial: o respeito pelo processo, da passagem de algo amorfo para o objeto de design: o papelão que se transforma e transforma o mundo.

 

Atravessado por uma natureza exuberante, cores, formas e texturas impressionantes, suas criações recebem as marcas desse contágio: vasos, mobiliários, fruteiras e outras peças absolutamente singulares, de onde transbordam essa convulsiva natureza. Recebedor de prêmios internacionais importantes, em 2011 Domingos Tótora foi considerado um dos melhores profissionais do ano pelo conceituado Design Museum de Londres.

 

O mineiro, além de esteta, é também referência em ecodesign. Para a curadora e pesquisadora Adélia Borges - que prefaciou o livro que recebeu seu nome, organizado por Maria Sonia Madureira de Pinho - Domingos Tótora é um designer completo. A especialista ressalta que o artista inventou a matéria prima com a qual trabalha, desenvolveu processos e métodos para usá-la e mantém produção intensa que, durante todo o tempo, dialoga com a sustentabilidade. Especialmente atento à ressonância social de seu projeto, ele valoriza sua parceria com artesãs de Maria da Fé, que deu origem a outras atividades na cidade. “É muito raro encontrar tudo isso num autor só. Suas peças tocam o coração e a alma. Estabelecem conexão além do uso puro e simples para permitir fruição estética, o que as posiciona no interstício entre o design e a arte”.

 

Tótora é um artista que sabe fazer brilhar as coisas do mundo, que deposita o olhar em cada sinuosidade, tonalidade e respiração para extrair daí uma invenção. Usa seu “savoir faire” mineiro com maestria, dando espaço ao mais singular da riqueza de Minas Gerais e promovendo a autoestima das pessoas de comunidades do seu entorno, fazendo com que a invenção e a criação tornem a vida mais pulsante.

 

O filósofo italiano Giorgio Agamben, num rompante de beleza descreveu muito bem um artista assim: “Artista ou poeta não é quem tem a potência ou a faculdade de criar e que, um belo dia, por meio de um ato de vontade ou obedecendo uma injunção divina, decide como o deus dos teólogos, não se sabe como e por quê, executar algo. Assim como o poeta e o pintor, também o carpinteiro, o sapateiro, o flautista, enfim, todo homem, não são os titulares transcendentes de uma capacidade de agir ou de produzir obras. Ao contrário, são viventes que no uso, e apenas no uso, de seus membros – como do mundo que os circunda – fazem experiência de si e constituem-se como formas de vida. A arte é apenas o modo no qual o anônimo que chamamos artista, mantendo-se em constante relação com uma prática, procura constituir a sua vida como uma forma de vida. A vida do pintor, do músico, do carpinteiro, nas quais, como em toda forma de vida, está em questão nada menos do que a sua felicidade. Gostaria de concluir com as palavras de um grande pintor de Scicli, que à pergunta “para o senhor, Piero Guccione, pintar é mais que viver?”, apenas respondeu: “Pintar é certamente para mim a única forma de vida, a única forma que tenho para defender-me da vida”.

 

Domingos se inscreve no mundo como artista e, na beleza de pensar a arte como aquilo que temos para nos defender da vida, leva junto outras pessoas, no sentido mais bonito e profundo que pode existir nisso.

 

Da arte que extrai a maravilha da matéria bruta, do peso e solidez de massa de papel surgida de descarte de papelão, da experimentação de volumes e superfícies. De tudo isso dá-se o encontro com uma poética singular talhada no assombro que a vida rural impõe. Cores vivas e terrosas, brisas da Serra da Mantiqueira, emoções cravadas em cada peça: uma mesa-água que escorre pelos olhos – ponto de mirada da vertigem que nos finca ao chão vermelho; pedras quase fluidas; afeto e funcionalidade na linguagem de um orgânico que sabe capturar o insondável das coisas e abrigá-lo no cotidiano, em fruteiras, esculturas para sentar e centros de mesa escultóricos.

 

A tônica da vida de Domingos parece ser esculpir o mundo.

 

Antes de conquistar fãs nacionais, o artista estreou na Maison et Objet de 2005, na França. Ganhou prêmios em Madri (2010) e Londres (2011). Em 2014 expôs em Berlim e Lisboa, ao lado de outros designers.

 

Em peças resistentes e de extremo apelo tátil – cantoneiras, bancos, aparadores, estantes, poltronas, estatuetas, molduras para quadros, entre tantos outros – desenham-se sinuosas formas em tonalidades terrosas. Como um alquimista, transforma caixotes de papelão que encontra na rua em objetos mágicos que abrigam a ressonância social de seu trabalho. Fundou o “Gente de Fibra”, grupo de artesãs de Maria da Fé que trabalha com fibra de bananeira, e que ainda conta com seu apoio mas, hoje, caminha sozinho.

 

Domingos Tótora – o contemporâneo que vem do interior de Minas e mistura saberes do design e da arte – documentou seu processo em um belíssimo livro, publicado pela editora carioca Papel & Tinta, com fotos tiradas pelo próprio artista, selecionadas de um extenso acervo feito no cotidiano de seu ateliê.

 

Em Maria da Fé – cidade mineira de 15 mil habitantes, no alto da Serra da Mantiqueira – são produzidas peças de extrema beleza que, apesar de passarem por um rigoroso processo, não perdem a leveza. Morar e trabalhar num local assim, com qualidade de vida e tempo para criar, são fatos que têm consequências nos objetos que lá surgem. Bom exemplo disso é a mesa “Água”. Depois de moldar as esculturas com jeito de pedra, o artista teve a ideia de transformá-las em base para o móvel. A forma surgiu antes da função. A fluidez poética escorre da mesa.

 

Domingos Tótora, afinal, parece sustentar seus devaneios, assim como o teórico francês Gaston Bachelard, sob o signo dos quatro elementos (água, terra, fogo e ar): uma escuta fina dos objetos, não apenas na sua imagem, mas na sua própria materialidade.

 

Da fecunda contribuição de Bachelard – que faz caber na vida a dimensão do sonho e do devaneio – surgiram os famosos aforismos bachelardianos: “a felicidade concebida como repouso”, “o repouso como uma vibração feliz”, “a matéria como um grupo de ressonâncias”, “o martelo operário como a maior conquista moral conseguida pelo homem”, “admira primeiro, compreenderás depois”, “a saúde de nosso espírito está em nossas mãos”. São aforismos que remetem imediatamente ao trabalho de Domingos Tótora, que também encarna em sua filosofia de vida uma espécie de devir, onde o tempo é respeitado na calma das horas, onde as cintilâncias da natureza operam milagres de transformação, onde o ato escreve na sulcagem da terra um mundo inteiro de sensações e fantasias poéticas.