Mana Bernardes - Jardim de sensibilidades

(Revista B - setembro de 2011)

 

Ela é carioca da gema, designer, poeta e artista múltipla inclassificável. Pesquisadora de materiais, entregue ao mistério, criadora de metodologias inovadoras, Mana Bernardes viaja pelo Brasil para dar consultorias. Multifacetada, faz objetos em série limitada e projetos visuais diversos. Está sempre envolvida com diferentes trabalhos em áreas distintas, encarnando com precisão a marca do contemporâneo e espraiando-se entre empreitadas absolutamente inventivas.

 

Mana criou uma linha de jóias construídas a partir de materiais e objetos inusitados: colheres plásticas de café, bolinhas de gude e sobras industriais - peças de design contemporâneo produzidas manualmente por artesãos treinados por ela. Sua produção se baseia nos princípios de comércio justo com o objetivo de fomentar educação, cultura e cidadania, além de gerar renda. Com materiais como garrafas PET, grampos de cabelo, sementes, retalhos, conchas partidas, escamas de peixe, Mana faz poesia dos restos, dando lugar especial aos resíduos e ao que se descarta, na confecção do que ela chama de "jóias cotidianas” – que, além de um nome é, também, uma função poética, função de que o cotidiano seja uma jóia. Do ordinário e de matérias dispensadas, ela fabrica jóias encantadoras e sustentáveis, encontradas em lojas de museus como o de Inhotim, MAM, MAR, no MoMa e em lojas bacanas de design.

 

Com muita pesquisa, criou um fecho de imã magnético que praticamente não tem peso. Ganhou prêmios de design com embalagens que anunciam a poética de suas jóias com uma frase impressa com sua peculiar caligrafia: "O poder de transformação é a jóia do ser humano". A produção de peças é feita manualmente e em pequena escala. O luxo está em combinar cortes precisos de garrafas descartáveis, cartões telefônicos, cilindros plásticos e lantejoulas, com pérolas ou ouro.

 

Mana é também uma grande poeta e artista plástica, circula entre incensados museus do exterior e as ruas populares do Rio de Janeiro, e percorre o país multiplicando em oficinas o seu trabalho. Formada em Arte-Terapia e usando sempre a poesia como base, desenvolveu uma metodologia - história de vida através do objeto, história do objeto através da vida – na qual cada participante é estimulado a trabalhar seu potencial criativo através de sua experiência de vida. Já deu aulas em ONGs com oficinas de cidadania e inclusão social.

 

Na moda, estampou com seus poemas uma coleção para a grife carioca de roupas UMA e assinou a linha Raízes, da Melissa - uma instalação feita com 300 sandálias da marca pensando a questão da sustentabilidade. Criou também a coleção de chinelos “Do Mundo”, com a marca Ipanema, 30% reciclada e 100% reciclável.

 

De uma parceria com a Tok&Stok, desenvolveu as linhas Flutuantes e Livro em Louças - peças sustentáveis em todo o seu processo. Frequentou 7 ateliês de fornecedores de louça e vidro para, depois, pensar no que iria produzir. Aprendeu a soprar vidro e a fazer massa para a porcelana. Para fazer copos, jarras, saladeiras e bowls, escolheu uma pequena empresa de vidro reciclado que até então, por ser artesanal demais, fazia uma única peça para a Tok&Stok. “O vidro que fica esverdeado era visto como um problema. Eu achei aquilo um trunfo. Fiz peças que têm a menor superfície de contato possível, por isso o nome”, explicou em entrevista ao jornal O Globo.

 

São cinco tipos de copos, saladeiras, cuias e potes de azeite e vinagre, peças onde Mana imprime seu alfabeto próprio. Para as louças, Mana escolheu modelos simples – “os mais comuns mesmo, a leiteira é de hospital da década de 50” – que faziam parte do acervo da loja e criou uma nova massa para os objetos, fosca por fora e brilhante por dentro, além de escrever poemas com a sua tipografia fantástica. São peças que fazem transbordar poesia no cotidiano, na extensão e espessura de suas letras, no ritmo e no movimento que Mana imprime em tudo que faz e, sobretudo, na delicadeza e no afeto que confere á linguagem verbal.

 

Deu a uma travessa um estatuto poético ao fazer, especialmente para a peça, o poema “Atravessadora de estranhezas”, revelando a estranheza que cabe nas coisas. Na leiteira, o leite parece derramar letras, trazendo a marca de nossa relação com a linguagem. O porta-copos vem com palavras minúsculas que podem ser lidas por cima da água quando o copo nele se apóia - transparência que faz revelar o luminoso dos pequenos gestos.

 

São peças que despertam uma relação que vai além do sensorial, pequenas esculturas para integrar momentos cotidianos. São itens oriundos de uma preocupação com um processo ecológico e sustentável, onde há também lugar para riscos, erros e correções - um trabalho que acontece num devir.

 

Um copo com uma frase ao fundo - "O Amor Depende Desse Oco - preenchido pelo líquido que nos nutre. Uma leiteira que parece derramar letras. Copos, cuias, saladeiras, jarras e tigelas, feitos com vidros reciclados que parecem flutuar. Porcelanas foscas e brancas, com poemas manuscritos ora em preto, ora em dourado, estampados em objetos que, juntos, formam uma espécie de livro. Impossível não se lembrar de Manoel de Barros, mestre da poesia cotidiana, que cria metáforas ousadas e singulares, e resgata o maravilhoso dos objetos do dia a dia.

 

Um aspecto que logo chama a atenção nos livros de Manoel são seus títulos inusitados. Como na obra de Mana, alguns expressam uma preocupação metalinguística já na nomeação da obra: “Compêndio para uso dos pássaros”, “Gramática expositiva do chão”, “Livro sobre nada”, “Tratado geral sobre a grandeza do ínfimo”. E é exatamente nessa poética de nomeação que Mana se insere, desde a criação do desenho estético das peças, até os nomes que dá para suas obras, junto com essa transformação das matérias-primas originais em algo totalmente diferenciado, sempre atenta a caminhos poéticos e responsáveis. Caminho que, curiosamente, já parecia traçado em seu nome, a marca de seu destino: Mana, no universo indígena, quer dizer “a magia contida nos objetos”.

 

A capa do novo disco de Marisa Monte – “Verdade Uma Ilusão” - tem a sua tipografia. Além de um projeto de poemas para a Natura, seu próximo empreendimento é uma linha de mobiliário de madeira, que fará em parceria com comunidades cariocas, com abertura de espaço para que os moradores façam uma coleção autoral em paralelo à dela. E assim ela segue, traçando mapas de potencialidades e cartografias do potencial de criação.

 

Mana é neta de Sérgio Bernardes, arquiteto extraordinário cuja vida é contada no documentário “Bernardes”, filme de Gustavo Gama Rodrigues e Paulo de Barros, recentemente lançado nos cinemas brasileiros e exibido no Festival É Tudo Verdade.

 

Seu pai, o cineasta Sérgio Bernardes Filho, também foi um homem de experimentações. Exilado na França, estudou teatro com Maurice Béjart e sempre fugiu do lugar comum. Aos 7 anos de idade, levada pelo pai, Mana passou 40 dias numa aldeia pataxó no sul da Bahia. Sobre a experiência, ela disse: "Mudei de percepção. Aprendi a utilizar materiais do entorno". Sua mãe é a poeta e educadora Rute Casoy. Nada mais natural que, filha de uma família libertária, Mana abrigasse em seus vivos olhos azuis uma constante inquietação e infinidade de desejos.

 

Generosa, Mana divide com o mundo sua capacidade de invenção, em ambientes pedagógicos onde incentiva nas pessoas a abertura para um momento de criação, para o ato onde cada um pode se individualizar e brilhar. E ela sabe como capturar essa erupção, essa coisa única que todo ser humano tem.

 

A artista transborda singularidade em manuscritos e experimentos visuais. O trabalho “Desembrulho Poético” acontece aí: não é apenas um produto, é um gesto, um refinadíssimo trabalho manual de alinhavar a escrita em uma costura de resultado poético. Pequenas narrativas e aforismos são bordados em um tecido especial, propiciando uma nova leitura e vivência da palavra. “São como invólucros e suportes para a ressonância poética de um texto, sua audição no tempo e no espaço presente”. O aspecto performático desses objetos poéticos desencadeia um experimento visual ao mesmo tempo contemporâneo e atemporal, por remeter a inscrições e pergaminhos, que são revisitados com o agudo olhar da designer.

 

Assim também é a poesia que se impregna no seu trabalho como um todo: uma possibilidade de deflagração da luz aprisionada em dimensões que se interpenetram e se cruzam todo o tempo. Assim são suas jóias, que ela define como um caminho e um processo que começou aos 7 anos de idade, e continuam se transformando em esculturas, instalações, trabalhos de educação, sempre a partir de um pensamento poético.

 

Difícil é categorizar o imenso universo por onde Mana Bernardes se esparrama. Uma coisa vai dando sentido à outra, iluminando-a e alimentando-a. Na poesia há algo que não se esgota no texto, uma plasticidade na caligrafia e um pensamento escultórico em fluxo continuo. Em papéis de luminosidade branca, as palavras fazem curvas e nos apresentam suas texturas, brilho e opacidades. Ultrapassando os limites do texto formal, Mana faz poesia do espanto e do assombro, nomeia cuidadosamente suas peças, obras e embalagens que também se tornam poemas circulando no mundo. Poemas flutuantes, poemas à deriva, costuras de linhas e linhas de costura tecidas no fio da existência de maneira afetiva e absurdamente inventiva numa leitura radical dessa mágica que emana dos objetos e do ordinário, resgatando as tradições mais amorosas como uma bordadeira de coisas belas, como uma costureira de mundos que antes pareciam incomunicáveis.

 

Mana " desenhescreve" não somente palavras mas, numa dança, o eco do gesto da mão - assim Arnaldo Antunes a define no livro "Mana e os manuscritos". Nesse resgate da sensibilidade somos arremessados para uma dança amorosa, que nos conecta ao essencial. Entramos nessa dança através do desenho de cada letra que imprime uma musicalidade, um ritmo, um desdobramento ao mundo. Palavras que saltam. Caligrafias, jóias. Cartografias do corpo encenado. Palavras que se moldam aos limites materiais de cada suporte escolhido num repertório vasto de intensidades. Mana dança e no eco do gesto de sua mão carrega a capacidade de perceber novas possibilidades simbólicas e estéticas. Transforma a arte em ferramenta de política de desenvolvimento social, transforma o mundo com seu bailado preciso e sensível.