Democracia: direito à palavra

constitucionalismo.com.br - Fevereiro de 2019

 

Convocada a escrever sobre democracia em uma época de clara derrocada simbólica, preciso remontar às origens gregas do termo que assinala o uso livre da palavra em dimensão pública. Acontece que, da Grécia até os dias atuais, muita coisa aconteceu e incidiu na cultura e no modo de apreensão e circulação da linguagem. Se para os gregos a possibilidade de ascender à palavra foi também a possibilidade de que cada sujeito – e não apenas os deuses – pudesse escrever seu destino, devemos agora pensar no lugar e no modo como a palavra é hoje tomada.

 

Como pensar sobre isso numa época em que o empuxo ao imaginário é avassalador, a ponto de as pessoas não mais conseguirem ler as imagens e o mundo, sem que o seja de maneira direta, sem a mediação de componentes que se dissolveram com a chegada das redes sociais que aplainam de maneira impressionante a dimensão da experiência? A psicanálise nasceu com a associação livre que em muito difere do falatório contemporâneo. No método psicanalítico, o conflito e a dor de existir são tratadas ao se dar densidade a cada palavra, devolvendo a espessura do mundo.

 

Por adotar a lei da palavra e dela fazer a sua lei, a psicanálise se mostra profundamente consoante ao segundo princípio da democracia: a isonomia, igualdade diante da lei. Quando pressupostos básicos são arrancados – liberdade, justiça, solidariedade, compaixão, humanidade – há, como na poesia de Paul Celan, um sequestro da palavra: “a poesia já não se impõe, expõe-se”.

 

Com as vísceras expostas devemos, mais do que nunca, convocar a poesia e a arte. Assim perguntou Paul Celan, em 1960, em uma carta a Hans Bender: “Como se fazem poemas?”. Freud estudou a questão ao buscar em escritores e artistas a ideia de sublimação. Ele investigava sobre o que leva alguns a escreverem poemas, como acontece essa poderosa transformação e quais seriam seus efeitos na cultura.

Diante do curto-circuito pulsional que faz com que o que se impõe sejam gozos auto-centrados, é preciso pensar o fundamental conceito freudiano de pulsão, limite entre o psíquico e o somático, passível de diferentes destinos. A pulsão é uma força que necessita ser submetida a um trabalho de ligação e simbolização para que possa se inscrever no psiquismo propriamente dito. A sublimação demonstra a enorme capacidade transformadora da pulsão e é a capacidade de alcançarmos certa sofisticação no campo da linguagem.

A poesia e a arte valeram-se do legado freudiano – em sua variedade e quantidade de material dedicado à cultura, bem como dos textos relativos à metapsicologia, que mostrou-se rica em ferramentas para a abordagem da arte. Mas como falar em poesia e em arte quando a palavra encontra-se asfixiada e a literalidade soterra qualquer possibilidade de dialetizar o mundo e as palavras? Baudelaire – que se exprimira muitas vezes por meio da forma, e para quem a dor ritmizada, articulada, preenche o espírito com uma alegria tranqüila – talvez hoje estivesse comprimido num mundo em que nada se articula, onde sequer o mal-estar pode encontrar ancoradouro. 

A democracia se esfacela quando se impõe um funcionamento de massa em que – diferente do coletivo, onde cada um pode colocar algo de si – há um achatamento do grão do dissenso que deve existir no seio de uma comunidade. E não há dúvidas de que, no país, neste momento, não somente a poesia e a arte, mas também a dimensão da palavra e da democracia encontram-se ameaçadas. Ameaçam tudo que faz viva a lei do desejo, tudo que difere do totalitarismo e anda às voltas com a falta. A psicanálise e a arte são expressões do inacabado – o que faz com que só existam em estado de constante mutação. Uma vez que não giram (apenas) em torno do falo, podem arriscar movimentos centrífugos em direção a não se sabe onde, na direção de uma desmesura. 

Na contramão do golpe que visa nos silenciar, resgatamos algo da democracia onde tudo parece opaco: vamos vivificar a palavra, colocar corpos e vozes nas ruas. Como críticos da cultura, psicanalistas, poetas, artistas, somos convocados a dizer e reavivar a força da palavra. Devemos começar do nada, da sucata, da lama, do lixo, do material em estado de putrefação – afinal de contas, este nunca foi um campo anódino e sempre nos pediu coragem extrema. Dar forma ao que não existe: criar algo capaz de revelar, em sua precariedade, os restos e dejetos da civilização, resgatar a palavra que cria laços, compromissos no espaço público e privado. Palavra que se diz livremente no um a um das singularidades, resistindo ao fracasso da democracia.

 

Lacan afirma que “o inconsciente é a política”. Na medida em que o inconsciente é o discurso do Outro, a política está inexoravelmente articulada ao laço social que se produz e se orienta no âmbito do discurso, que precede e acolhe o sujeito e os gozos que restam e participam dos compromissos sintomáticos.

 

A partir de uma experiência com o real elaboramos nossas respostas frente ao impossível. Foi Freud quem escreveu sobre os três impossíveis: governar, educar, psicanalisar. Somos engendrados nos impasses que a cultura tece e devemos convocar a palavra lá onde existe sua derrocada, para que se possa manter acesa a chama da democracia onde impera a selvageria nas relações público-privadas e nas instituições. E é preciso que possamos deixar assinalado, escrito e em evidência, um alto e sonoro “não” à injustiça, exploração e violação dos direitos humanos.

 

Vladimir Safatle defende a tese de que o poder age nos melancolizando e, através da melancolia, consegue nos assujeitar, produzindo e gerenciando nossos afetos.

 

Temos muito Brasil pela frente e sempre poderemos cantar junto à voz poderosa de Caetano Veloso: “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”.

 



Fonte: https://constitucionalismo.com.br/democracia-direito-a-palavra/