Buenas Artes

Revista B - junho de 2012

Pelos caminhos da arte latino-americana

 

Ernesto Neto O Bicho Suspenso na Paisagem 2011

Ernesto Neto O Bicho Suspenso na Paisagem 2011

 

Buenos Aires irradia arte e inovação. É o que confirma o lindo conjunto do FAENA ARTS CENTER. O local fica em Puerto Madero – região portuária recentemente revitalizada e transformada em bairro moderno, cheia de escritórios, restaurantes e lojas.

 

Sobe-se uma pequena escadaria, cruzam-se as portas da entrada de um grandioso salão – que, no começo do século XX era a sala das máquinas de um moinho – e se é surpreendido por O BICHO SUSPENSO NA PAISAGEM, obra de ERNESTO NETO especialmente montada para a inauguração do espaço: uma gigantesca rede suspensa, imensa tela feita de fios de polietileno pendurada no teto, recheada de bolas de plástico. Cordas – cinza, verde, rosa e amarelo – costuradas em crochê, formando um enorme túnel suspenso no ar. No “piso” do túnel, bolas de plástico cinza, como pedras. Do lado de fora, grandes pedras, estas de verdade, presas nas extremidades dos crochês. O visitante é convidado a adentrar no túnel e passear naquele estranho jardim e, ao andar “sobre-dentro” da obra, produzir ruídos instigantes, como uma chuva inesperada. O bicho suspenso – que teve a curadoria de Jessica Morgan, da Tate Modern Londres – é a única peça em exposição e ocupa todo o salão.

 

O trabalho de Ernesto Neto faz, do corpo, suporte e extensão do mundo que o descentraliza, questão principal da arte contemporânea. Leva, assim, a repensar o lugar e a dimensão do próprio gesto do artista, com todos os signos em rotação, como uma construção poética de Octavio Paz.

 

Ernesto Neto – O Bicho Suspenso na Paisagem 2011

Ernesto Neto – O Bicho Suspenso na Paisagem 2011

 

Nessa nova relação com o corpo e com a linguagem, o sujeito instaura novas demandas. O mal-estar contemporâneo, oriundo do descentramento desse sujeito, aponta para inúmeras direções e manifestações simbólicas, que abandonam uma vertente de representação estática e se encaminham para um “corpo-vertigem”, deslocado e em constante mudança. E é justamente este o corpo que caminha pelo bicho suspenso na paisagem e, no seu caminhar, modifica e dá vida à obra, muda e radicaliza formas e formatos, interferindo diretamente na instalação.

 

A produção de sentidos novos, recriação de mundos a partir da interferência do espectador com seu corpo, sempre esteve presente na obra de Ernesto Neto.

 

Jacques Lacan refere-se ao gesto como o passar de uma página, algo capaz de mudar o sujeito. O encontro com o corpo deambulante, na estrutura imensa de uma trilha de crochê suspensa no ar, oferece possibilidades de ressignificação do real e de encontro com o outro. Na arte, afinal, o sujeito se perfila como nada além de um efêmero efeito, surgindo num circuito que necessita do outro e só com ele se completa.

 

Entre as tramas de Ernesto Neto, encontramos esse sujeito que caminha, não mais diante de um olho fixo e estável numa organização perspectiva, e nem no espelhamento com o mundo, mas delineado num espaço de perda, lugar que representa a ausência em que estamos situados, que nos leva a dois ensinamentos de Freud: primeiro, o de que é ao próprio núcleo da constituição subjetiva – o Édipo, ficção que efetiva a perda, a dor, a castração – que se refere tal efeito; segundo, o de que se trata, quando somos tocados por uma obra, de uma verdadeira captura – ergreifung.

 

A obra seria, então, uma espécie de armadilha para o sujeito, uma captura deste que estaria, com sua dor e beleza, escondido de si mesmo. Captura do outro no eu, comemorando seu nascimento, sempre doloroso e traumático, mas efetivo. Quem apenas olha, não captura e nem é capturado. Deve-se entrar dentro dela, caminhar, ato que soa subversivo, que se torna um eterno mover-se num lugar incerto e móvel, paradigma a mostrar que não há ponto seguro de apreensão do inconsciente, que não é seu próprio centro, mas remete ao campo do Outro. Na tentativa de encontrar um ponto em que se possa apoiar com firmeza, nos perde-mos de nós mesmos, o corpo se torce e contorce, entra em fluxo com as teias de crochê e, desbussolado, caminha entre a floresta e a cidade.

 

MALBA

 

O MALBA – MUSEU DE ARTE LATINOAMERICANA DE BUENOS AIRES – é jovem, de arquitetura limpa. Com obras bastante impactantes e acervo diversificado, possui trabalhos de grandes artistas como os mexicanos Frida Kahlo e Diego Rivera, os uruguaios Joaquín Torres-García e Rafael Barradas, os argentinos Antonio Berni e Guillermo Kuitca e o brasileiro Candido Portinari.

 

Dentre muitas obras preciosas, merece menção o trabalho de GUILHERMO KUITCA, em que memória e perda se entrelaçam. Suas primeiras realizações demonstram influências recebidas do meio teatral – mapas, teatros, peças – além da literatura e da música popular.

 

Kuitca explora a linha de fuga entre os espaços público e privado, e revela sua memória pessoal e interesse pela arquitetura e topografia. Seus mapeamentos nascem de sua própria história, sob efeitos dos traumas do Holocausto, o que pode ser visto em Kristallnacht, grande pintura vertical de 1992. Melancolia, tristeza, perda, desejo, medo, são sentimentos que o artista embute de forma particular nos espaços que retrata.

 

Rafael Barradas – Quiosco de canaletas 1918

Rafael Barradas – Quiosco de canaletas 1918

 

Outro artista com muito a dizer é RAFAEL BARRADAS (1890/1929). O pintor uruguaio revela em suas telas a alma humana de figuras que exalam humanidade, em suas existências puras e simples. O homem que espera, talvez sem nem saber o que. Um olhar revelando alguma amargura. O esperar sem expectativa. Uma velha sensação sempre presente. Não há, aparentemente, maiores questionamentos. A vida está ali, tal e qual é vivida. Não há ideia nova. Não há algo diferente. E, estranhamente, tudo é novo e diferente a cada vez.

 

Em outra seara, esta mais política e questionadora, encontramos um grupo da arte político-social da América Latina: um argentino, um brasileiro e um mexicano – ANTONIO BERNI, CÂNDIDO PORTINARI e DIEGO RIVERA. Em seus legados, retratos de tempos tristes e obscuros da história latinoamericana – golpes militares, tortura, crises políticas e sócio-econômicas, desigualdades.

 

Numa vertente de síntese de elementos de uma América que, provavelmente, só a arte moderna pode realizar, encontramos WIFREDO LAM, artista que articula de maneira única e inconfundível a força libertária do surrealismo. Numa energia tão forte quanto a de Picasso, sua particular mística e mítica dos trópicos conduz a uma perturbadora e profunda visão de nós mesmos. Em sua obra há a agressividade selvagem que irrompe e destrói qualquer lugar comum. Wifredo lidou com imagens surreais com coragem impressionante. Injustamente eclipsado pelos europeus, nenhum artista moderno latino-americano absorveu a potência do surrealismo como ele.

 

Maria Martins – O Impossível 1940

Maria Martins – O Impossível 1940

 

Dentre as grandes obras do Malba destaca-se a escultura o Impossível, da brasileira MARIA MARTINS: uma figura feminina entrelaçada a uma masculina, em confronto perpétuo. Cabeças, no dizer do teórico da arte Francis Naumann, carregando vazios, dos quais se projeta uma série concêntrica de tentáculos. O conflito eterno e a impossibilidade retratada na obra, talvez sejam mostras da realidade de Maria Martins que, à época, travou um relacionamento com Marcel Duchamp.

 

Maria Martins executou versões distintas da obra, todas de forma única, ou seja, não são cópias obtidas de um mesmo molde. Na técnica usada pela artista, tanto o gesso original como o revestimento de cera se perdem no processo de criação. A obra exposta no Malba é de gesso e impressiona pela agonia presente no corpo retorcido e pela beleza convulsiva da circulação da energia erótica.

 

Numa nota publicada na revista Time, a escultura é descrita como duas tempestades de neve antropomórficas, admitindo que a artista propusera uma interpretação menos literal: o mundo é complicado e triste e é quase impossível fazer com que as pessoas se entendam.

 

O trabalho expõe a falta lacaniana relacionada ao desejo. Os volumes são tratados com energia libidinal, moldados com a plasticidade da libido e corpos vibráteis. O desejo enreda e encaixa, prende, tem capilaridades e meandros, atua por teias e tramas, projeta rizomas. As duas cabeças ocas e sem feições que se envolvem, ora se atraindo, ora se repelindo, não deixam de aludir ao relacionamento que Maria travava com Duchamp.

 

Tarsila do Amaral – Abaporu 1928

Tarsila do Amaral – Abaporu 1928

 

É um poema escultórico em que o ato de violência reside na conquista de novas formas e movimentos. Há ali a “inquietante estranheza” de Freud. Articulações enigmá-ticas que desconcertam o olhar, embate entre sintaxe e sentido. A violência do desejo, a inquietude provocada pelo outro, a impossibilidade da fusão amorosa, a solidão de cada um, o descompasso do tempo – tempo do desejo que se apresenta de um lugar inesperado pelos dois, o do real.

 

Passear pela arte é andar por terrenos insondáveis, que escancaram o monstruoso e a paisagem defeituosa da existência. Diante do real que nos assola ou do assombro que nos toma, lembramos de Rilke: a arte é aquilo que nos permite contemplar o terrível, sem ser por ele destruído.