Corpo, Gênero e Invenção

Boletim Extimidades - 2014

O "Manifesto contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual" foi lançado em 2000, na França, onde reside a autora Beatriz Preciado, que leciona na Universidade Paris 8 e dirige o projeto "Tecnologias de gênero". Para ela, que se define como uma filósofa pós-feminista, o termo "pós-feminismo" indica um giro conceitual de debates sobre igualdade e diferença, justiça e reconhecimento, em direção a debates em torno da produção transversal das diferenças.


No dossiê "Teoria Queer", publicado na última edição da Revista Cult (agosto/2014), Carla Rodrigues traz excelentes contribuições, de onde podemos extrair um possível entrecruzamento das idéias de Beatriz Preciado e da psicanálise lacaniana, naquilo que ela nomeia de "política do desejo", emprestando sua figura como defensora da quebra de um discurso normatizador dos corpos e da sexualidade.

 

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Nessa trilha, podemos perscrutar os lugares possíveis para a subjetividade em uma época em que a "ausência de obra" ( termo já mapeado por Michel Focault) expandiu-se para todos os meandros da constituição subjetiva, criando dificuldades em nos tornarmos sujeitos. Focault dizia da "ausência de obra" como renúncia ao trágico da enunciação de uma verdade e uma saída redutora e dessubjetivante, a que vários discursos dariam suporte. Como lugar paradigmático da "não-obra", ele situa o lugar que a loucura passou a ocupar desde a idade clássica como algo a ser abolido a qualquer custo pela medicalização das subjetividades e um aparato de normas ditas como "naturais". É aí que nos aproximamos também de Beatriz Preciado, pois ela, ao retirar a natureza como dado ordenador do pensamento sobre sexualidade, acaba por situar o corpo e o gênero na ordem da invenção e o discurso como aquilo que ela chama de "suplemento ou prótese" - alguma coisa por onde se pode deslizar.


No dossiê supra citado pode-se perceber que Michel Foucault é um filósofo fundamental, do qual Preciado se vale para pensar uma definição biopolítica dos corpos e produção de gênero, do sexo e da sexualidade como técnicas de domínio criadas na modernidade, com as quais ela quer romper, fazendo disso uma forma de pensamento encarnada no próprio corpo, desnaturalizando o sexual e a normalização da heterossexualidade.

 

Se tal panorama das condições de subjetivação na contemporaneidade marcadas pela ausência de obra faz algum sentido, o que cabe interrogar é: haveria alguma obra possível, alguma subjetivação possível a partir de uma invenção de um novo corpo? Podemos situar aí a tríade: corpo-gênero-invenção?


Penso que os lugares que Beatriz Preciado busca mapear e discutir se encontram com a ética lacaniana, que também sustenta a "política do desejo": são discursos que se encontram na crítica ao capitalismo e na crítica à hegemonia do discurso da ciência em seu empuxo normalizador de corpos, comportamentos e discursos. Lacan e Beatriz Preciado podem dialogar nessa resistência potente de sustentar o desejo, quando o caminho pronto são os corpos a serviço da medicina, o corpo da produção e da reprodução.


Aqui há um terceiro componente para enodar a "Teoria Queer" de Preciado e o discurso lacaniano: a discussão feita por alguns artistas sobre tais lugares, especificamente, e a partir do que o encontro com as artes aporta para esse embate, a começar pela própria Beatriz que, conforme relato do texto de Carla Rodrigues no "Dossiê Queer", se auto-aplicou testosterona durante duzentos e trinta seis dias, sem seguir nenhum tipo de protocolo médico prévio. Em suas próprias palavras, "com esta intoxicação voluntária, quis mostrar que meu genêro, não pertence nem à minha família, nem ao Estado, nem à indústria farmacêutica. É uma experiência política".

 

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Beatriz faz do corpo sua obra singular - política do desejo - que resiste ao enquadramento da masculinidade e da feminilidade, inscrevendo no mundo sua pergunta particular sobre o feminino. Do corpo como objeto de regulações e campo em disputa, alguns artistas constroem suas obras que trazem em seu bojo uma crítica à dualidade natureza/cultura, feminino/masculino, normal/patológico, sexo/gênero e sustentam na linha cortante do desejo o encontro com o vazio. Trata-se precisamente dessa ruptura, desse corpo encenando um destino que não é mais anatômico.


Cindy Sherman é uma artista que coloca em questão a lógica fálica de uma verdade última incluída nessa assunção da mulher como desvelamento, através do apagamento do sujeito em suas obras, o percurso em direção ao vazio e à ausência de figura humana, tanto quanto à ausência de origem apresentada por suas obras de máscaras, manequins ou cópias de quadros da história da arte dos quais falta o original. Ela se dá a ver, mas encarna também o fim da passividade do feminino que se dá ao olhar do outro. Sua obra consiste nesse reenvio do olhar ao espectador e no seu aprisionamento nesse lugar voyeur, a fim de recolocar corpo e feminino em jogo, enquanto lugares de borda nos quais se constrói uma possibilidade de subjetivação.
É aí que psicanálise e arte se encontram - no discurso que possibilita uma brecha de resistência e de transgressão, e que é recolocado naquilo que os artistas sugerem ao campo psicanalítico, desde a discussão que fazem a respeito do corpo e do feminino a partir de uma radicalidade. A reintrodução desse corpo no âmbito da obra de arte, reinvenção de um corpo feminino como corpo pulsional, reescreve a questão de gênero por outra via, que havia sido engolida por uma lógica a serviço de um saber acerca da sexualidade, um saber domesticador.


O que os artistas apontam para a psicanálise, nesse sentido, é a falência da lógica da máscara. O que aparece é um corpo que sobrevive ao naufrágio do simbólico, agitado pelo real a escrever pelas bordas a sua possibilidade de subjetivação.


Judith Butler escreveu em "Problemas de genêro" que o impensável não está fora da cultura, mas dentro dela e de forma dominada: "É possível pensar de forma insurgente pelas bordas do social, na região que foi propositalmente foracluída dele e, muitas vezes, relegadas até mesmo ao reino do abjeto". Segundo Richard Miskolci, os "estudos queer" têm se caracterizado justamente por criarem conhecimento a partir do abjeto - por meio do que a sociedade considera como ameaçadora à sua visão idealizada sobre si própria. Ou seja, do mesmo modo que a loucura como experiência trágica fica obscurecida pelo conhecimento racional e científico, não deixando, entretanto, de existir, como vemos em Foucault, a invenção de um sexo singular também não deixa de dar notícias sobre um campo de resistência e de borda que amarra o corpo e as novas invenções de gênero.


Do sexo normalizado a partir de uma série de discursos que buscam adestrá-lo, dos corpos e prazeres intensificados como discurso passível de ser manipulado pelos dispositivos de saber/poder, passamos à psicanálise e à arte, como o território a partir do qual o corpo feminino será sabido e agido pela via do desejo com todas suas consequências, naquilo que a psicanálise vai entender como corpo.


Já em Freud, podemos localizar a sexualidade humana nos "Três ensaios para uma teoria da sexualidade" como algo aberrante em relação à função biológica da reprodução. Ela é infantil, perversa polimorfa, marcada pela pulsão e seus movimentos, a partir do princípio do prazer, no sentido da satisfação e da descarga.
O sexual e a sexualidade em psicanálise recuperam, portanto, a ideia de um corpo erótico, marcado pelo movimento das intensidades pulsionais e do desejo, circulado e circunscrito pelo desejo do outro, pela fala e pela história, investido, configurado por zonas erógenas, pelos modos, meios e históricos das experiências de satisfação. Não se trata de um corpo organismo, mas de um corpo pulsional, intensivo, um corpo que também se faz enquanto corpo conforme percebe, marca e cria memória. O corpo sexual freudiano é um corpo marcado pelo erotismo, pela pulsionalidade, pelo desejo e pela história. E a história de um corpo é precisamente a história desses assujeitamentos e dessas resistências que têm como palco o corpo.


As produções de Cindy Sherman e de várias outras artistas, contribuem para problematizar o feminino freudiano, ao trazer a discussão acerca desse feminino para além daquilo que fica submetido à lógica fálica e ao âmbito do que pode ser contornado pela castração e pela maneira como a mulher se articula com a mesma. Em seus trabalhos, fazendo-se muitas de si, criam ancoradouro na resistência ou rebelião que pode se dar aí, ou seja, através da reinserção de sua materialidade corpórea na obra, da recolocação em cena de tudo aquilo do corporal que fora negado para que o mesmo se tornasse apresentável.

 

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Cindy Sherman apresenta com seu trabalho uma manobra contra a assepsia do corpo. E então ela pode ser tudo: atriz de mil sexos e nuances, mulheres diversas e sujeitas aos caprichos da indústria cinematográfica, como na série "Untitled Film Stills", que consiste em vários auto-retratos em que a artista apresenta-se em situações que reenviam à repetição de cenas que estruturam o imaginário produzido pela indústria cultural. A cada fotograma, ela absorve uma gramática de aparências compostas por gestos, poses e estilos plenamente codificados, colocando em cena alguns fantasmas fundamentais do feminino. Trata-se do tempo estático do fantasma; tempo morto que não conhece fluxo nem diferença.


Tudo se passa como se Sherman nos mostrasse que ser corpo é estar atado ao olhar do Outro. A auto-representação,que está na base de seu trabalho, é um puro jogo de superfícies, de aparências. Através delas, Sherman apresenta a visão da mulher como estereótipo cultural, como glossário de poses, gestos e expressões faciais. Seu trabalho questiona também a normatividade do gênero e da sexualidade e põe em xeque a lógica binária que define os sujeitos como macho ou fêmea, abarcando um potencial político que denuncia a fragilidade dos ideais e a parafernália discursiva voltada à permanente patologizacao das experiências do corpo e da sexualidade que escapam às normas.


Através de regimes de despersonalização, a fotógrafa norte-americana problematiza de maneira radical a articulação entre corpo e imagem. Isto na medida em que todos os seus ensaios fotográficos tratam da mesma questão - a mais delicada da estrutura do narcisismo: a representação do corpo próprio e seus impasses. O nó da tensão do projeto de Sherman encontra-se na extensão do adjetivo "próprio". O que é meu no corpo? Ou seja, o que significa subjetivar o corpo?


Interrogações que levam à Lacan: o feminino da mascarada lacaniana revela a falácia da lógica das máscaras. Cindy Sherman tensiona isso até o limite: véus, artifícios e estratégias mostrados reintroduzem o feminino enquanto possibilidade outra que escapa à ordem do desvelamento e da verdade, impasse frente ao qual a psicanálise não ficará imune, forçada que será a considerar o feminino também em relação a essa brecha. Foi necessário surgir Lacan para que essa aproximação à mulher e ao feminino, sempre fragilmente ordenados pela organização fálica, fosse posta em questão.


Será Lacan quem se perguntará se a mediação fálica dará conta de todo o campo pulsional em uma mulher. Deslocando-se do campo do sexo para o campo do gozo, se indagará acerca de um gozo feminino, considerando que existe, para a mulher, uma divisão entre ser "toda fálica" e "não toda fálica".


A lógica da castração não rege todo o campo do gozo, resta uma parte que é fora do simbólico. A mulher, que não existe para Lacan, nada mais é do que um dos nomes desse gozo. Ela é, então, o outro nome do real, da borda, do Outro. Falar sobre a mulher é falar a respeito disso tudo. É como falar do corpo, daí sua aproximação ao feminino.

 

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Lacan, no Seminário 20, intitulado "Mais, ainda", refere-se à mulher como o sujeito que traz a alteridade radical. Isso quer dizer que a mulher não pode ser reduzida nem encerrada em uma referência ao masculino, nem ao falo. Algo escapa, criando todo um outro continente desconhecido, do qual não podemos nos aproximar pelo referencial fálico.


Pensar sobre a feminilidade é deslocar-se para um lugar que desliza constantemente. Aí está a imensa importância de muitas artistas, que provocaram mudanças profundas no momento em que ingressam no campo artístico, trazendo consigo seus corpos.


Novas identidades de gênero, novas formas de conjugalidade, uma imensa diversidade de práticas eróticas - campos de borda, lugares possíveis para a subjetivação em nossos tempos. Invenções que resistem a todo discurso que visa subtrair a materialidade do corpo. Criações de uma feminilidade, que faz barreira à estratégia de disciplinamento do desejo, que nunca deixará de ser: delirante, plural e nômade.

 

Foto: Autoretrato - Cindy Sherman