Descortinando a arte

Revista B - novembro de 2011

Instituto Figueiredo Ferraz

 

Instituto Figueiredo Ferraz

 

Grande parte da inspiração dos artistas se encontra na busca incessante pelo infinito próximo, espaços utópicos alcançáveis pela arte e pela imaginação.

 

JOÃO FIGUEIREDO FERRAZ, colecionador com olhar preciso, fez a utopia possível em um novo espaço – o instituto que leva seu nome -, em que abriga parte do acervo de sua vasta coleção de arte contemporânea, numa construção que se flexibiliza em clima e luminosidade perfeitos.

 

Instituto Figueiredo Ferraz

 

Instalado num edifício vivo e de arquitetura pensada para acolher as obras, o INSTITUTO FIGUEIREDO FERRAZ se faz contingente, e nele adentramos um mundo de inspirações e referências que cruzam os limites predispostos, preconcebidos: uma grande plataforma, onde artistas diversos se comunicam pela brilhante disposição das obras no espaço, na curadoria sensível de AGNALDO FARIAS.

 

A própria construção, conjugada com a atmosfera delicada e cuidadosa da disposição topológica das obras, conduz ao amplo espectro de um refinado apreciador de artes, que seleciona o melhor.

 

João acompanhou a instalação de cada obra.

 

Insituto Figueiredo Ferraz

 

Com O Piano de TATIANA BLASS, viveu uma das dimensões mais prazerosas da fruição da obra de arte, que acontece, paradoxalmente, antes dela existir. Ocorre nos momentos inaugurais, e passa por etapas de experimentação de caminhos, apropriação de elementos, escolha de materiais adequados para expressar o conteúdo desejado.

 

No Instituto Figueiredo Ferraz, de surpresa em surpresa, vai se descortinando a poética e a envergadura de tudo. Ainda que as obras não dependam daquele contexto para adquirir significado, certamente a dimensão estética se multiplica em contato com um espaço feito para deslizar nesse entre-lugar da arte. As obras ali expostas parecem ter sido feitas para conviver em bela ressonância com a arquitetura do local.

 

Naquilo que parece transbordar ao olhar, a grandiosa Pintura, de NUNO RAMOS, cria o impacto comum a seu trabalho, com estilhaços e restos de humanidade, uma espécie de pintura de espessuras, aliás, de muitas dimensões de espessura, onde compreendemos o corpo e a dor da pintura. Há uma tormenta, que parece vir antes da composição da obra e que não abdica de sua sensualidade e de seus fantasmas. A espessura aqui compreende não apenas a materialidade, mas também a densidade simbólica do discurso pictórico. É uma coleta de significantes aparentemente dispersos, que recebem uma conexão dentro de uma lógica, na qual o disperso encontra seu sentido através da ação poética do artista.

 

Nuno Ramos

Nuno Ramos

 

A produção de Nuno Ramos envolve, atualmente, pintura, escultura e instalação. Sua arte reflete inquietações pessoais e necessidade de renovação da pintura. Para tanto, o artista utiliza diversas técnicas para problematizar a invenção nas artes como o gesto por agregação, justaposição de diversos materiais, onde o expectador pode fazer jogos de signos e significantes na linguagem, codificada com densas camadas de materiais que, soltos no espaço, invadem o olhar com suas espessuras simbólicas.

 

Através da arquitetura que cria uma imantação com as obras, encontramos duas obras de ADRIANA VAREJÃO, Azulejaria de rodapé sobre pratos, 2000. e Distância, 1996, em que cada imagem é uma passagem para um tempo descontínuo e heterogêneo.

 

É Walter Benjamin quem afirma que o passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. E é para lá que Varejão nos leva: para esse passado, que só se deixa fixar como imagem que relampeja irreversível, no momento em que é reconhecido. Na obra mais recente, a base imagética sobre a qual a artista lança seus dramas pictóricos torna-se mais rala, como uma programada perda de espessura. Os azulejos já não trazem desenhos inscritos em seu corpo. São modernos, monocromáticos. Severos e cegos, assépticos. Os brancos, como uma tela, sofrem em sua pureza as fissuras da experiência.

 

Adriana Varejão

Adriana Varejão

 

Na “prateleira de bar” na obra Distância, garrafas enfileiradas trabalham a existência da linguagem. No código de mensagens, as garrafas com uma carta nadando em óleo não têm rótulo. As garrafas verdes com rótulo de mar têm somente óleo de linhaça. São imagens de mares vindas de aquarelas para expedições de outros desbravadores de mares. As garrafas com rótulo de céu são transparentes. Um céu é de Delacroix. Os demais são variantes criadas por Varejão como passagem do tempo e sua inapreensível dimensão. É necessário estabelecer a comunicação nesse mar de óleo de linhaça, que é o utilizado em pintura. A linguagem se estrutura mesmo no náufrago solitário.

 

Nazareth Pacheco

Nazareth Pacheco

 

Ao sentar para descansar, entre o mar de obras do Instituto, se é arremessado ao universo de NAZARETH PACHECO, com a obra da Série: Colares, 1997- Cristais, miçangas, canutilhos, anzóis e acrílico. Seu trabalho todo toca e comove de um jeito único e intenso. Nazareth trata a questão da dor de forma pungente e forte. Ela expõe objetos relacionados ao seu corpo, mas seu corpo é o de todas as mulheres. Através da história construída através das várias cirurgias pelas quais passou, Nazareth acaba expondo os paradoxos do desejo no mundo. É da fala de Louise Bourgeois, com quem estudou, que ela inicia seu trabalho: “O tema da dor é meu campo de batalha, dar significado e forma à frustração e ao sofrimento. A dor é o preço pago pela libertação do formalismo”.

 

Instituto Figueiredo Ferraz

 

De um belo colar, a obra da artista se estende e quando conhecemos sua imensidão, somos levados a outras produções como corpetes e vestidos. Nazareth produz uma imersão e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de penetrar: colares e vestidos impossíveis de tocar, tatear, vestir. O corpo de quem observa fica à margem da cortina, está preso na impossibilidade de desvendar tudo. Tocamos com os olhos a dor que, de longe, podemos apenas tatear. Sente-se na pele o que o corpo não pode alcançar.

 

Esse encontro produz um misto de sensações que se alternam: proximidade e distância, estranho e familiar, possibilidade e impossibilidade. E é no corpo que experimentamos a obra de Nazareth Pacheco. Tomados pela vertigem de um mundo que estraçalha e esparrama vísceras entre a dor e o êxtase, o corpo fica desnudado diante de tantos objetos cortantes e agudos.

 

Instituto Figueiredo Ferraz

 

Bataille afirmava que o sentido último do erotismo é a morte, o que Nazareth parece saber bem, quando traz a baila o que há de mais demoníaco e cruel em todos nós. Prazer e dor são nomes tão enganosos como quaisquer outros.

 

A morte se coloca como signo de vida também na obra Sete Véus, 1996-Acrílico sobre tecidos, de LEDA CATUNDA, onde camadas da subjetividade feminina são representadas por tecidos de flores sobrepostas até chegar ao preto, deixando espaço para cada interpretação singular. Já dizia o psicanalista francês Jacques Lacan, ao se referir à dialética imaginária: “As roupas não são feitas apenas para esconder o que se tem, no sentido de ter ou não, mas também, precisamente, o que não se tem. Ambas as funções são essenciais. Não se trata, sempre e essencialmente, de esconder o objeto, mas também de esconder a falta de objeto”.

 

As camadas do feminino se apresentam sempre como enigmáticas e veladas e essa montagem seria o próprio véu. Podemos associar o título deste trabalho à imagem do tecelão que, num regular movimento com os fios, está sempre “tecendo as malhas do véu”. Assim também seria o movimento do sujeito na sua repetitiva confecção do tecido imaginário.

 

Sobre a função do véu Lacan comenta: “Com a presença do véu, aquilo que está mais além, como falta, tende a se realizar como imagem. Na frente do véu pinta-se a ausência”.

 

E é o que nos aparece com Leda, que faz uso de uma série de véus, relacionando-os ao sentimento de uma certa ilusão fundamental em todas as relações tecidas pelo desejo. O véu seria o plano imaginário fundamental da relação simbólica.

 

Nesse plano simbólico, JANAINA TSCHÄPE surge com sua fotografia, na busca pela mesma ambientação insólita de trabalhos anteriores. Segundo ela própria, sua aventura é a de “retratar não o mundo dos sonhos, mas a sensação de estar em um”. Esses sonhos, geralmente perturbadores, muitas vezes representam o corpo como uma moradia bizarra. Bolhas, bexigas, tentáculos de borracha e, no caso da fotografia, uma asa presa, fazem com que os corpos, contraditoriamente, pareçam a um mesmo tempo pesados e leves. Na foto, Sala de espera (Terrace), 2001, ela divaga sem conseguir voar entre um ambiente urbano inóspito – uma alucinação fotografada em cores que não vibram tão intensamente quanto os azuis, vermelhos, laranjas e verdes impossíveis, incandescentes das fotos na natureza. Na foto o tom é mais esmaecido, e uma mulher parece estar dentro de um sonho. Há uma qualidade narrativa mesmo nas fotografias, enganosamente estáticas, e em todo o seu trabalho, um fascínio pelo insólito, o estranhamento diante dos detalhes e a aproximação entre o animalesco e o divino.

 

Instituto Figueiredo Ferraz

 

Também nas fotografias caminhamos no território do mínimo e da sutileza, e esbarramos em MASAO YAMAMOTO, com pequenas fotos, quase sempre realizadas em pequenos formatos e séries extensas. O ordinário sempre se revelando como algo de extrema importância. Suas imagens são expostas às ações externas, em alguns casos o artista carrega em seu bolso as pequenas fotografias. Com esse deslocamento o papel fotográfico sofre alterações: manchas, rasgos e vincos, fazendo com que as imagens tenham seu tempo dilatado.

 

Na atmosfera de travessia, estão as esculturas de WALTÉRCIO CALDAS. Em aço inoxidável, em ferro de pouca espessura, em tiras de madeira ou fios de lã ou nylon, são desenhos tridimensionais que conduzem o olho de cá para lá, impedindo-o de fixar-se num único plano. Ante essas grafias no ar, o olhar errante do observador, de tanto experimentar as distâncias, acaba por atribuir densidade ao vazio. Essas peças sem peso introduzem no vácuo a brancura da página da poesia “Coup de Dés” (Lance de Dados) de Mallarmé- lugar para onde somos arremessados ao adentrar o universo magnífico do Instituto Figueiredo Ferraz, e de onde podemos conhecer e viver a experiência enigmática da arte.

 

Para ver: Instituto Figueiredo Ferraz – Rua Maestro Ignácio Stábile 200 – Ribeirão Preto SP tel 16 3623 2261 – institutofigueiredoferraz.com.br