Documental Imaginário

Revista B - outubro de 2012

Nuances da ficção

 

Breno Rotatori | Sopro | 2010

Breno Rotatori | Sopro | 2010

 

O INSTITUTO OI FUTURO apresentou, de 24 de julho a 16 de setembro, em seu espaço cultural Flamengo, no Rio de Janeiro, um panorama da fotografia contemporânea nacional através da exposição DOCUMENTAL IMAGINÁRIO – FOTOGRAFIA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA.

 

A mostra reuniu obras de João Castilho, Breno Rotatori, Guy Veloso, Gustavo Pellizzon, Fábio Messias, Pedro David, Pedro Motta, Fernanda Rappa e do coletivo Cia de Foto – todos criadores de ficção.

 

Não são historiadores ou antropólogos empenhados em decifrar o modo de vida de uma sociedade ou resgatar a biografia de uma personagem importante. Ali, cada fotografia parece revelar a paixão por algo inapreensível, e o interesse é mais pelas insolúveis perguntas lançadas pela realidade, do que o contentamento com a busca de uma resposta que se possa dizer toda.

 

A brilhante e precisa curadoria de Eder Chiodetto nos faz deambulantes por uma invenção de mundo por imagens que, longe de ter um estatuto estável, são variáveis e múltiplas. Vestígios do real, flertes com o imaginário de uma nova vertente – denominada de Documental Imaginário por alguns pesquisadores – parte de premissas documentais e até mesmo jornalísticas, e neles injeta uma grande dose de subjetividade e de referências às atmosferas cinematográficas ou à própria literatura.

 

Fernanda Rappa | Comum Desacordo | 2011

Fernanda Rappa | Comum Desacordo | 2011

 

São imagens que brotam da necessidade humana de construir uma memória, de se narrar. Ou de dar voz e espaço, também, ao esquecimento demarcado pela imagem, à sua precariedade. Dar à imagem documental a abertura de que a arte precisa.

 

Cada fotógrafo parece ser personagem de suas obras, não somente autores, pois não reivindicam um domínio sobre a imagem e sobre aquilo que ela pode narrar. Ao contrário, parecem fazer da incerteza e da angústia de não poder conhecer precisamente a história que tem em mãos, o cerne e a justificativa de seus trabalhos. São fotografias que acenam com a presença de um real que lhe deu origem, mas que não pode ser recuperado. O que resta na imagem são os elementos que permitem discorrer sobre o evento, o que equivale a rodeá-lo sem jamais tocar sua totalidade. Não significa extrair o significado de seu invólucro, mas desenvolver a intriga: explicar, porém replicando o desdobramento do texto-contexto ou da imagem sobre si mesma.

 

No lugar de pretender ser uma metáfora totalitária, tão completa e perfeita a ponto de dispensar o objeto que lhe deu origem, a fotografia, aqui, está mais próxima da condição de metonímia: um olhar que tangencia, que apenas aponta para uma realidade que permanece fugidia, mas que o faz intensamente. Esse movimento de atração na direção de um epicentro que não pode ser senão tocado em suas bordas, Jacques Lacan chamou de metonímia.

 

Gustavo Pellizzon | Encante | 2010

Gustavo Pellizzon | Encante | 2010

 

Como sugeriu Roland Barthes, a fotografia só pode dizer que “isso foi”. Mas, na medida em que se afirma como exploração, abrindo espaço para o imaginário, “isso” pode continuar “sendo”. Há, portanto, um vazio, uma lacuna deixada pelas imagens. Ao nos deixar fisgar por essas imagens, somos envolvidos por uma história latente que já não se pode recuperar, a presentificação de uma ausência, no brilhante dizer de Barthes: “A fotografia reproduz ao infinito, aquilo que só teve lugar uma vez. Ela repete mecanicamente aquilo que jamais se poderá repetir existencialmente, de sorte que o evento não se derrama, não deriva, não foge em direção a outra coisa”.

 

Enquadrada nesse marco, cada fotografia propõe uma reflexão sobre a morte ou sobre a pungência do real. Seja como for, é inegável que estamos sempre lidando com imagens, mas estamos também lidando com o tempo. Um tempo que bem pode não ter uma história linear e estável.

 

Somos seres de ficção e ao circundar o real sem jamais tocar seu cerne, a linguagem oferece ao sujeito algo que é sempre contíguo ao objeto do desejo, nunca ele próprio. Em última instância, o real é exatamente aquilo que “falta” ao sujeito, tornando-se o lugar inapreensível onde se situa o objeto do desejo. Para Lacan, a apreensão do real jamais existiu no passado do sujeito, a não ser de uma forma mítica que orientará a constante busca por uma suposta experiência originária de contato.

 

Nas fotografias da mostra tomamos contato com esse complexo tema, desdobrado em múltiplas possibilidades de leitura. Com forte acento autoral, existe aqui o benefício da dúvida no lugar da arbitrariedade de um ponto de vista único e excludente. Há um esforço de poesia. É o que podemos observar nas imagens de religião do paraense Guy Veloso (cujo projeto “Penitentes” foi exibido na 29ª Bienal de São Paulo), que fazem metáfora do transe da fé.

 

Gustavo Pellizzon | Encante | 2010

Gustavo Pellizzon | Encante | 2010

 

Ou na série “Encante”, de Gustavo Pellizzon, com lendas que se sobrepõem à vida local dos ribeirinhos que vivem à margem do Rio Jaguaribe, no Ceará.

 

Um jogo de futebol fotografado e exposto em formato de vídeo mostra um jogo no qual as imagens só aparecem quando o fotojornalista dispara sua câmera na beira do campo, na obra “Estádio”, da Cia de Foto.

 

Integra a mostra também a premiada série “Essa luz sobre o Jardim”, de Fábio Messias, na qual o artista traduz em imagens aquilo que seria a consciência de sua avó acometida pelo mal de Alzheimer. São produtos do encontro, da contingência e da surpresa, que tornam a prática um registro de tal experiência, em forma de uma sobra: testemunho da fantasia vivida, do que se perde e se multiplica por sua própria reformulação. Em algumas fotos, a retratação de uma certa melancolia do requerimento de um tempo particular, a atenção ao que ainda não se desfez, a geometria de um instante que escorre e não se apreende nunca.

 

Em A câmara clara, Barthes diz que a fotografia é uma image folle, frotée de réel. Em todo caso, a fricção da imagem com o Outro do referente aponta sempre à sua negatividade, a seu espectro, à sua dispersão.

 

A fotografia nos coloca em contato com a realidade, mas de modo incompleto: atesta a presença do objeto e, no entanto, pouco diz sobre ele. Trata-se de um apontamento vigoroso, porém, quase mudo. Ao historiador cabe preencher algumas lacunas para formar um relato sobre essa realidade. Os artistas percebem nesse “silêncio” um espaço para o imaginário. Não menosprezam a força que liga a imagem ao objeto, tiram proveito daquilo que falta. Assumem a precariedade dessa ligação, sem negá-la. E mostram como o desejo é fisgado, não apesar do pouco que a imagem oferece, mas exatamente porque não oferece tudo. O caminho dessa busca, seu procedimento, não se poderia desenhar, dessa maneira, em um trajeto retilíneo. Ele se delineia por um percurso descontínuo, errante, pois não se trata de alcançar um ponto programado. Essa etapa, intervalo de reconhecimento, revisão de escolhas e tentativas, lembra a busca que Maurice Blanchot expôs em L’Espace Littéraire – tal como na escrita, também na fotografia parece estar em jogo uma sorte de solidão essencial (solitude essentielle): “Um livro, mesmo fragmentário, tem um centro que lhe convoca. Não um centro fixo, mas que se desloca pela pressão do livro e pelas circunstâncias de sua composição. Centro fixo também, que se desloca, se isso for verdadeiro, permanecendo o mesmo e tornando-se cada vez mais central, mais despido, mais incerto e mais imperioso. Aquele que escreve o livro, o faz por desejo, por ignorância desse centro. O sentimento de tê-lo tocado pode muito bem não ser mais que a ilusão de tê-lo alcançado.”

 

Fabio Messias | Serie Essa Luz sobre o jardim | 2012

Fabio Messias | Serie Essa Luz sobre o jardim | 2012

 

A percepção de que a fotografia tanto documenta a realidade, como também pode inventar livremente um mundo paralelo e ficcional, e que serve de mote para a mostra “Documental Imaginário”, conduz para a tensão entre os âmbitos do real e imaginário, para o caráter errático da fotografia e da própria vida, que parece se deslocar entre os contrastes e pontos desfocados de algumas fotografias – entre a memória, nostalgia, o componente ficcional, o realismo fantástico, elementos que fazem recordar as palavras de Walter Benjamin: “… as coisas são, nós o sabemos, tecnicizadas, racionalizadas, e o particular só se encontra, hoje, nas nuances”.

 

São capturas sensíveis do mínimo, da sutileza – uma escritura imagética feita no tropeço, na rachadura da realidade. Ali, alguma coisa quer se realizar. Algo que parece com o intencional, certamente, mas de uma estranha temporalidade. Algo que faz lembrar Lacan: “O que se produz nessa hiância, no sentido pleno do termo produzir-se, se apresenta como um achado. Um achado que é, ao mesmo tempo, uma solução – não forçosamente acabada, mas, por mais incompleta que seja, tem esse não-sei-o-quê que nos toca com esse sotaque particular”.