O Intangível da Imagem

Revista B - julho de 2012

Brígida Baltar

 

A Coleta da Maresia, 2001 – Brígida Baltar

A Coleta da Maresia, 2001 – Brígida Baltar

 

 

Fotografar o intangível num olhar que captura a sutileza do espaço e do inassimilável: “olhar-neblina”, “olhar-orvalho”, “olhar-maresia”. É assim que nos chega o trabalho da fotógrafa BRÍGIDA BALTAR.

 

 

Jacques Lacan, psicanalista francês, disse que “o olhar é o instrumento pelo qual a luz se encarna, e pelo qual sou fotografado”. Na fotografia de Brígida Baltar, ou na escrita da luz, há a tentativa de pegar o que escapa, mas que incide sobre a subjetividade. Esta é uma das maneiras pelas quais, Lacan retoma a célebre passagem de Freud sobre a “sombra do objeto que cai sobre o eu”.

 

 

No ato de coletar, diversas vezes, neblina, orvalho e maresia em variados recipientes de vidro (frascos, tubos, potes), registrando tudo em fotografias e filmes, Brígida talvez se engendre nesse corpo que se lança ao impalpável e ao intangível, em busca de contornar algo dessa sombra que não se captura, disso que é tentativa com bruma melancólica.

 

A coleta da neblina, 1996-2001 – Brígida Baltar

A coleta da neblina, 1996-2001 – Brígida Baltar

 

UMIDADES é o nome do projeto formado por essas coletas. Uma tentativa, talvez, de apreender, simbolicamente, efêmeros fatos naturais, com o próprio corpo de Brígida e de outras coletoras, se apresentando, também, como um efeito natural insondável.

 

É o olhar da fotógrafa a expandir as pequenas ações de armazenamento poético de substâncias encontradas em casa – pó desprendido de tijolos, cascas de tinta, gotas de chuva que caem por frestas no telhado. A casa, aqui, se aproxima simbolicamente do corpo em jogo nas coletas, a capturar o que sempre escapa ao aprisionamento material, aquilo que tratamos com desejo para responder ao terrorífico do natural, aquilo que acossa e interroga, quando em contato com a linguagem.

 

Nesse desnível é que se situa o trabalho da artista que, diante das imagens chapadas, instala uma outra dimensão: a do oco, do incapturável, da fresta, da bruma. Seu ato traz, em potência, uma alegoria daquilo que tentamos recolher de real da vida: em suas coletas de umidade existe a zona enigmática do que reside entre o corpo e o mundo, entre o que se vê e o que quase escapa. São gestos que tornam visível o que é quase transparente a olhos acostumados apenas ao que é contíguo e sujeito ao tato. São representações suspensas no vazio. Vazio do sujeito que se desfaz no intervalo fugidio entre dois significantes.

 

São quase como palavras suspensas no limbo da linguagem, nessa bruma evanescente da linguagem, sustentadas pelo estilo. E é nesse embate com o indizível, na luta de coletar o intangível, que uma singularidade irredutível se faz no encontro-limite com a impossibilidade de dizer e de aprisionar. Aí reside a força expressiva de sua fotografia: nos índices, nos rastros sensoriais de um momento e de um lugar – temperatura, sons, cheiros.

 

Coleta do Orvalho, 1994-2001 – Brígida Baltar

Coleta do Orvalho, 1994-2001 – Brígida Baltar

 

Brígida se apropria, assim, de uma interrogação da arte contemporânea que, como dispositivo de pensamento, vem interrogar e atribuir novos significados a esse ato e aos signos, não só as que fazem parte da história da arte, mas também as que habitam o cotidiano. A arte contemporânea se situa justamente aí e vem propor o estranhamento ou o questionamento da linguagem da qual se utiliza.

 

O trabalho de Brígida se apresenta mais no espanto com o mínimo, na sutileza do entre-lugar, oscilando entre estados de prazer, medo ou melancolia – marcas impossíveis de partilhar plenamente com alguém. São ações descarnadas e abstraídas de tempo e espaço. Mais do que somente registro de algo que é externo, vem questionar o próprio visível, alterar a percepção, propor um enigma e não mais uma visão pronta do mundo. É uma experimentação poética do mundo, que faz lembrar Manoel de Barros e seu livro sobre o nada – essa coisa nenhuma, sem utilidade, “um abridor de amanhecer”, “um alarme para o silêncio”, em que toda a significação se estanca e de onde se avança apenas pela ficção. Uma poética de escutar pedras, de ser árvore, de ler avencas, recolher neblina e orvalho e fazer do estilo um estigma que arranha ao léu, arrisca o traço, toca a imagem.

 

Das matérias coletadas surge uma poética única, feminina, oscilante: a maresia espessa; a neblina densa que oculta, mais que as outras, o entorno de quem nela adentra; o espaço úmido, o orvalho cobrindo o mundo com uma camada fina de água. São coletas de umidade, são diferentes temporalidades poéticas. A coleta da neblina – feita em meio à névoa cerrada – parece ocorrer em um tempo suspenso e imóvel. Recolher o orvalho, sugere – mais pelas roupas do que pelos estranhos objetos coletores utilizados – ter sido realizada em um instante por vir ainda. Coletar a maresia remete sutilmente ao passado com a luz azulada de fotografias e filme – reflexos do oceano e do céu aberto que o encobre – funcionando como um filtro nostálgico, que estabelece um vínculo com a memória na tentativa de configurar uma identidade possível. Essas marcas de desgaste, ruptura, impermanência e intangibilidade se apresentam em condições limítrofes: quando ela está em praias, se espremendo na faixa estreita que aparta mar e cidade; realizada ao amanhecer, iluminada, simultaneamente, pela luz natural ainda fraca e por luz longínqua que vem dos postes que restam acesos na orla como um sonho distante.

 

Casa de Abelha, 2002 – Brígida Baltar

Casa de Abelha, 2002 – Brígida Baltar

 

Entre gestos firmes e delicados, Brígida segue coletando pedaços e recortes poéticos do mundo, correndo sobre a areia úmida, executando uma coreografia improvisada ou, vez por outra, entrando no mar frio. Ela e as coletoras parecem integrar a paisagem naturalmente, trazendo, do passado sereno e impreciso que evocam, a promessa impossível de um corpo desregulado ou, ainda parafraseando Lacan, elevam a língua “à dignidade do indizível”, do objeto perdido, do pulsional em seu efeito sublimatório que se sustenta sobre nada, porque imagem aqui é linguagem e o fazer poético do ato da artista instaura novas e absurdas realidades, quebra sentidos, tem potência disruptiva, confirmando o dito do pintor expressionista Paul Klee -: “A arte não reproduz o visível, ela faz visível.”