O Labirinto de Cortázar

Revista Minotauro - agosto de 2010

Sobre uma mesa de biblioteca da faculdade, um marcador de livros perdido/encontrado, em que alguém escreveu: Cronópios. Carreguei comigo durante anos, como um enigma, a palavra sonora e labiríntica.

Foi também de forma espontânea e livre que, anos mais tarde, encontrei “O jogo da Amarelinha” e descobri Júlio Cortázar e seu quebra-cabeças, que colocou em dúvida a literatura e sua relação com a realidade.

Penetrei naquele labirinto, sem saber ainda qual seria a linha de costura que me ajudaria a sair desse infinito cheio de lados.

Eu era Cronópios e também não me contentava com o lado aparente das coisas. Mergulhei no mistério e no enigma sem a intenção de desvendá-lo, mas me permitindo me perder num mundo de criatividade não estruturada, em que uma galeria em Paris conduzia a uma galeria comercial em Buenos Aires com naturalidade; no qual as casas são tomadas pacientemente, cômodo após cômodo, por forças desconhecidas que aterrorizam seus habitantes, mundo onde duas sacadas de um manicômio podem se unir por meio de uma grande tábua.

Descobri que a literatura sempre foi esse estar em trânsito por um mundo, onde as coisas sempre estão fora de seu lugar e só se revelam no caminho. No jogo da amarelinha e nas armadilhas da linguagem me permiti flanar entre trocadilhos, charadas, anagramas, pontes e andei por universos absolutamente novos.

Vivi como Clarice Lispector alumbramentos e dores. Descobri Homero com sua Ilíada, Shakespeare com Hamlet, Cervantes com Quixote, Proust com sua recriação do tempo e da memória, Sófocles com seu Édipo fascinante, Flaubert com sua madame enigmática, Baudelaire com suas flores do mal, Faulkner com seu som e fúria, a terra desolada de T. S. Eliot, a temporada no inferno de Camus, a Medéia de Eurípedes, a comédia de Beckett esperando Godot e, mais tarde, os cantos de Maldoror de Lautréamont.

Entrei em crise com a náusea de Sartre, submergi na poesia de Pound, conheci o mundo fantástico de Borges com seus seres imaginários.

E nesse labirinto infinito da linguagem, como o labirinto de Creta que alojava Minotauro -  monstro metade homem, metade touro - consegui, como Teseu, derrotá-lo e encontrar o caminho de volta, graças ao fio de um novelo desenrolado ao longo do percurso.

Meu fio de linha foi Cortázar. Li e reli e mil encadeamentos se fizeram. No jogo da amarelinha as citações, cartas, existencialismos, alegorias, escondo-esconde e desvarios me intrigaram. Uma ponte, uma porta e se cai no reino onírico. Fácil assim, e o imponderável se abre sem volta para quem parece ter nascido para não aceitar as coisas tal como nos são dadas.