Uma coisa são duas coisas

Revista B - dezembro de 2011

Marilde Stropp

Marilde Stropp

 

A fotografia é uma arte com um encanto especial: aparentemente estática, mas nela o espectador pode intervir. Nesse particular terreno de imagens, ganhou destaque a brilhante exposição UMA COISA SÃO DUAS, com curadoria de Eder Chiodetto, na Galeria Ímpar (Vila Madalena, São Paulo). O mote da exposição foi uma frase do poeta Carlos Drummond de Andrade: “Olha, descobre este segredo: uma coisa são duas – ela mesma e a sua imagem”. Lá encontramos uma pluralidade de estilos e uma saída lírica em imagens que celebram o sonho e questionam padrões, mostrando a dura realidade, o entusiasmo, o desejo, o horror – essas coisas que nos arremessam para lugares insólitos e sentimentos inexplicáveis.

 

Jussara Magnani

Jussara Magnani

 

A fotografia duplica o mundo, embora dele não faça uma cópia idêntica. A imagem das coisas acaba sendo um duplo da ficção subjetiva. Há mais por trás de uma imagem fotográfica do que o mero ato de capturar o momento no tempo e no espaço. Mais do que uma reprodução estanque da realidade, nela há também sentidos que aguçam, além da forma como é recebida e interpretada. Abrange desde o simples efeito do real até uma maneira peculiar de ver e pensar. A captura da imagem é fruto da escolha de quem fotografa: um enquadramento, uma intervenção, uma maneira de impressão, um olhar lançado. E há, ainda, a escolha de quem vê – possibilidades múltiplas de se lançar olhares à mesma luz, sobre a imagem e sobre suas projeções.

 

As fotografias expostas se desdobram em muitas, numa fusão de paradoxos que se propõem a ver sempre a imagem e seu duplo. No dizer de Chiodetto, “nada é o que parece ser, ou tudo pode vir a ser o que quisermos, a depender do imaginário moldado a golpes de luz, ângulos, texturas”.

 

Carlos Dadoorian

Carlos Dadoorian

 

Os 17 artistas selecionados investigaram diferentes estratégias poéticas, fazendo lembrar Cartier Bresson, para quem a fotografia não pode ser só objeto, mas uma maneira subversiva de pensar o mundo, extensão de nossos desejos e desvios.

 

Cada trabalho, à sua maneira, parece mostrar e reafirmar em suas dimensões estéticas que uma coisa são duas. Com imagens sofisticadas – não exatamente realistas – o tempo aparece suspenso, errático, permeado por uma poética que transforma o comum em extraordinário: um corpo, um dorso, um enigma de imagem, uma flor, um olhar pela fresta da cortina, uma superfície indecifrável, algumas pedras, erosão, o real da carne, a faca que corta o sentido e faz desagregar, perturbar.

 

Não são obras gratuitas e ocasionais, que buscam a estetização de uma imagem. Ali a fotografia é um suporte de múltiplas funções e de vários campos do registro plástico, revelando e desvelando o fato de que todas as coisas se oferecem como ilusão delas mesmas. Os objetos que aparecem já desapareceram. Assim como a luz das estrelas, nada nos aparece em tempo real. A ilusão é vital, o mundo e tudo mais nos chegam alterados, nada é instantâneo ou simultâneo – isto parece ser o que querem nos revelar aqueles artistas como um todo, e por cada um na sua singularidade.

 

Vivian Lembo

Vivian Lembo

 

Há algum tempo a imagem fotográfica pura, sem qualquer tipo de intervenção, cedeu lugar às formas híbridas. Para Rosalind Krauss, a fotografia deixou de ser um objeto histórico ou estético e passou a funcionar como um objeto teórico, como uma ferramenta de desconstrução da própria prática artística tradicional. Em outros termos, isso significa que a imagem fotográfica é incorporada como um elemento crítico por excelência, capaz de materializar um profundo questionamento.

 

O olhar apurado de um curador sensível, e fotografias cheias de sofisticação plástica e especulações que extrapolam a simples preocupação em romper com a especificidade da linguagem – a exposição revelou artistas dispostos à entrega e abertos ao enigma do duplo na própria vida: naquilo que vemos, o que nos olha? O que, afinal, é a imagem? No trânsito entre essas interrogações os trabalhos vão sendo construídos, entre o próximo e o distante, o visível e o invisível, no vazio das formas palpáveis.

 

Jaqueline Schein

Jaqueline Schein

 

Naquilo que nosso olhar percorre, vem a lembrança do esloveno Evgen Bavcar, fotógrafo cego que propõe uma ruptura radical entre o visual e o visível, entre imagem e imaginário. Para Bavcar, a fotografia é uma escritura feita com a luz, o ponto zero da fotografia – lugar onde os objetos são polissêmicos e se oferecem a várias leituras de sentido, vários léxicos, várias reservas de leitura entre o ver e o pensar. Essa indefinição do sujeito, o colapso entre original e cópia, entre interior e exterior, é o que nos envolve nas fotografias.

 

Diante dos estilhaços, das sombras e do real da carne expostos ali, um medo nos persegue. O medo do reflexo não nos corresponder, de alguma metamorfose acontecer assim, da noite para o dia: corpo que vira céu, paisagem que vira gente. São miradas com suas amnésias e esquizofrenias, são caminhos fotográficos que revelam sermos seres exilados, apartados, divididos. Com o tempo nosso retrato se altera; a máscara com a qual tentamos fixar nossa identidade pode cair. Na imagem reside a impossibilidade do representável, aquilo que diria o psicanalista francês Jacques Lacan, que entre nós e qualquer objeto existe uma espécie de tela, através da qual o sujeito vê e é visto pelo mundo. A mirada preexiste ao sujeito, então o objeto também o contempla.

 

Gabriela Oliveira

Gabriela Oliveira

 

Sendo aqui a verdade algo não-todo, porque vê-la toda, não se consegue e é impossível, e é justamente por esse impossível que a verdade provém do real.

 

O inconsciente não existe apenas “dentro” de nós, mas “entre” nós, como uma rede que se configura na própria linguagem, dado estritamente ligado à imagem. Nesse processo de linguagem, nunca dizemos precisamente o que queremos, há algo que sempre nos escapa. Nossa visão é também uma “semi-visão”. E nossa língua só serve para dizer que somos, no mínimo, dois: uma coisa e o duplo dela.